Turquia

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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Melquisedec


Dieric Bouts, the older




1) Desde Julius Wellhausen (1844-1918) existe uma hipótese de quatro fontes conjugadas de escrita da Bíblia [Torah/Antigo Testamento]: uma Javista, uma Eloísta, uma Deuteronomista e uma Sacerdotal. A casta sacerdotal reformou a História Hebraica para fins de:  a) encorajamento da unidade de seu povo em meio a outros povos nômades; b) falseou ou majorou o caráter e importância dos Reis e Juízes; c) reescreveu a história de seu povo em várias camadas, sobretudo após o exílio babilônico, relendo períodos anteriores a partir do exílio e pós-exílio babilônico [reescreveu o passado e até forjou certos detalhes a partir desse marco ocorrido séculos depois]; d) enalteceu seu próprio papel [de casta sacerdotal] nessa reescrita. Esses são os "doutores da Lei" e "fariseus" dos tempos de Jesus.

2) Com o que eu expus acima, o povo judaico eliminou escritos laicos/não-profanos de sua memória étnico-nacional. Portanto, o Povo de Israel suprimiu uma história laica sobre si mesmo. É um povo que não possui uma história secular sobre si mesmo.


3) Ainda que isso tenha sido feito para "uso interno", para encorajamento étnico-nacional diante de povos concorrentes e igualmente nômades na origem, e igualmente bárbaros, esta história sacralizada passou aos anais de todo o mundo cristão, pela indevida apropriação desses textos sem a revisão crítica necessária. Isso é caso único na história.


4) Vou explicar porque é caso único. Peguemos qualquer civilização antiga: todas elas. Há uma história secular grega. Nenhum de nós confunde o panteão grego com sua história secular. Da mesmíssima maneira, há uma história secular Suméria, Babilônica, Persa, Egípcia. O Povo de Israel [e isso faz parte de sua auto-imagem como Povo Eleito] é o único povo da terra cuja imagem Sacra [ou Escritura] se superpõe aos seus registros seculares, porque esses foram suprimidos.


5) Assim, o Povo de Israel foi incapaz de escrever para si uma história secular ou não-sagrada. Eles tomam sua história como sacratíssima e especial. 


6) A única exceção na Terra sobre essa condição são alguns dos árabes que se enxergam "a partir de Maomé", mas isso seria começar sua história no século VII. Por isso, esses doentes destroem sítios arqueológicos mais antigos [anteriores ao século VII!] . Mas nós os chamamos doentes, loucos ou maus. Não chamamos aos judeus da Palavra loucos, doentes ou maus.

7) Há três menções a Melquisedec, curtas, na Bíblia: duas no AT [Antigo Testamento : Gênesis e Salmos] e um no Novo Testamento [Carta de Paulo aos Hebreus, provavelmente uma carta escrita por um discípulo de Paulo]. Há um silêncio depois da menção do Gênesis. Por que? Vamos às razões possíveis e prováveis: 1) Melquisedec é cananeu, não um judeu. Seu sacerdócio é mais antigo do que o hebraico, apresentado nessa passagem como superior ao hebraico, independente do hebraico e a divindade a quem Melquisedec cultua é El Elyon, não o Javé dos hebreus. Aliás, por muitos estudos comparativos que eu fiz, El é o Deus Supremo de toda a Terra de Canaã, ao contrário de Javé que é visto como o Deus Tribal de Israel, no monte Hebron/Sinai, um deus atmosférico e dos vulcões [o monte sinai foi um vulcão ativo!].

 8) Tratar de um sacerdócio paralelo, anterior e superior ao sacerdócio de Israel [que começa com Aaarão, irmão de Moisés] e que é hereditário, por descendência de tribo [a tribo de Levi, da qual vieram Moisés e Aarão], enfraqueceria o mesmíssimo sacerdócio que reescreveu a Bíblia para seus fins. Por isso, o silêncio obsequioso a respeito de Melquisedec.

 9) O sacerdócio de Melquisedec não envolvia matanças de animais. Ele usava pão e vinho.


10) O próprio Jesus estava desautorizado a ser sacerdote pela norma judaica, por não ter ascendência na Tribo de Levi. Ele poderia ser "profeta" [e os profetas, todos, foram "não-sacerdotes"], mas jamais um sacerdote.


11) Detalhe: Melquisedec, o cananeu sem genealogia, foi um Rei-Sacerdote de Salém, a cidade que, no futuro, seria a Jerusalém dos judeus. Jesus, como Messias, era uma espécie de rei-sacerdote, espiritualmente falando. Por isso, ele só o poderia sê-lo segundo uma outra ordem "mais antiga" e "paralela" á ordem sacerdotal hebraica [levítica]: segundo a Ordem de Melquisedec! Paulo assim o apresenta na Carta aos hebreus. O Salmo 110 [sobre o qual Jesus indaga aos fariseus: quem era aquele Senhor acima do meu Senhor, do qual falou o salmista?] cita a mesma Ordem de superioridade sobre o Messias que haveria de vir.


El é o Deus de Toda a terra de canaã. Os patronímicos Gavriʼel/ Gaḇrîʼēl [“homem forte de Deus”], Mī kāʼēl["quem como Deus"?] e muitos outros o demonstram, mesmo entre os judeus da época. El Elyon significa "Deus, o Altíssimo". Cananeus, Amorreus, Jesebeus, Heteus [hititas], todos os povos da planície o cultuavam. Por "demarcação" e "distinção étnico-nacional", os hebreus "demarcaram" o Deus Yavé [um deus vulcânico-atmosférico - "cuja coluna de nuvens precedia a travessia pelo deserto durante o dia, e uma coluna de fogo precedia os judeus a caminho da terra Prometida durante a noite"], por uma "iniciativa estratégico-mosaica" de unificação do povo, reafirmada e reiterada a partir do século VI a. C. [após o exílio babilônico], quando as fontes deuteronômico-sacerdotal compilaram os registros orais sobre Moisés e o Pentateuco [ os cinco primeiros livros da Bíblia], cerca de 13 séculos depois daqueles mesmos eventos terem ocorrido, se contarmos de Abraão em diante. 



Com isso tudo, entende-se o fato do nome de Melquisedec ocupar um parágrafo e meio em toda a Bíblia [!], o que seria de causar enorme estranheza, uma vez que o Patriarca Abraão, pai de todo o Povo Judeu, se ajoelhou diante dele e lhe pediu a bênção [!], antes de existir qualquer sacerdócio hebreu [!], mostrando uma deferência que contraria a suposta "eleição divina do Povo Escolhido". Ou, no mínimo, apresentando essa "eleição" como "subsidiária" ou "não-exclusiva". É isso. 





Marcelo Novaes

terça-feira, 18 de outubro de 2016

HOMENAGEM A MARCELO NOVAES.

Escrevi este poema há cerca de um ano atrás, em homenagem ao psicólogo, poeta e pensador Marcelo Novaes, pessoa que muito estimo e admiro.
Foi inspirado por uma frase escrita por ele, no dia 16/04/2015: " E viva as amizades que me trazem sentimentos alcalinos".

Variações sobre um homem só

Homem sábio e poeta, ácido e só
com tiro na coxa e ferida no olho
armado com pênis, intermitente e sápido
procura colo primal e plácido
vagina ácida e quente
de mulher básica e alcalina.

Homem místico e ávido, impaciente e cansado
procura coração cálido e sólido
para mergulho gota a gota
do sêmen alcalóide e grávido
no sulferino e pulsante fundo
do ferido colo uterino.

Homem cristão e cientista, do louco e do são
com faca incrustada no colchão da alma
e profundo rigor na palavra cortante
procura colo básico e leitoso
de mulher translúcida e silente
para o último abraço.

Homem, bom e mau, indignado e verdadeiro
com dedo quebrado e coração ardente
procura seio farto e róseo
ferida aberta e sem sutura
boca insana, tímida, e língua louca
para o único beijo dilatado.

Lígia Sacras

sábado, 3 de setembro de 2016

Existencial



Tanta beleza
E há quem veja na poesia
Apenas topo entre brumas sem coesa
Das espumas
A proeza do verso é escala
Que ordem nenhuma mede
Assim a céu aberto
Por isso a sede que cede a montanha
E adentro quem vai ganha seu copo meio vazio
Assanha segue o poema a rio a fio a brio
Onde a rima convier o desafio
Arde nisso o sublime do encontro
O encaixe a réstia da profundidade
O ponto de fusão
Autenticidade
Explosão.
- Iatamyra Rocha

terça-feira, 1 de março de 2016

Um Vislumbre de Jesus [A Glimpse of Jesus]



Ara Sassoonian






Depois de centenas de compassos na condução de uma orquestra, o maestro impetra um gesto que inaugura o silêncio. Por um tempo mínimo. Um sino é tocado em seguida, sem qualquer adorno. Uma semínima, dando sequência à música. Quero que o leitor esteja atento a esta nota, como estaria ao soar de uma tina de bronze ou sino num ritual religioso. Peço ao leitor que considere, ainda, o “tlin” de certos relógios antigos [os de pêndulo], nas horas redondas. Pensemos, ainda, na campainha que toca [um tlin também, embora outro], anunciando a chegada de alguém vindo de outra cidade, alguém muito querido. Talvez alguém com quem queiramos confidenciar muitas coisas havidas desde longo tempo de ausência, para ambos. Talvez alguém com quem queiramos nos reconciliar. 

Podemos nos perguntar, no dia a dia, se teríamos tais “toques de sino” presentes, se estaríamos presentes quando da sua ocorrência. Muitos de nós temos um plano de fundo de ruído que funciona como fator estressante subjacente ou como “ruído branco”, quando não temos zumbidos no ouvido, sons como o chiado de uma panela de pressão, cigarras, cachoeiras que só de quando em vez silenciam. O silêncio aqui seria o tal “toque de sino”, singular e presente pela suspensão do ruído. Alívio e/ou júbilo podem se sobrepor a essa vivência tão breve, que logo largamos de mão. No caso do ritual, talvez haja um momento de autolembrança. No caso da visita, uma alegre expectativa. No caso da reconciliação, o sentimento do “derretimento do coração”: a ternura, a queda de couraças e armadura. Tudo isso. 

Vou chamar a esse “tlin” de “glimpse”, até por eufonia e homofonia: soa como um toque de sino. O tal vislumbre ou insight na língua inglesa. Vislumbre é bom: soa como um súbito aparecer de uma luz ou som de algum lugar, dentro-fora. No caso da música, quão mais desconcertante e imprevisível ela seja em novidade, mais nos terá “alavancado” até o patamar alto de sua pausa coroada pela semínima. Acompanhamos a jornada toda com “movimentos internos”, cognitivos, proprioceptivos. No caso de distúrbios do ouvido interno ou do estresse, fica-nos óbvia nossa coparticipação no fenômeno. No caso da visita, estamos engajados no encontro. Tudo é dentro-fora, nessas circunstâncias de “toque de sino” ou da “pausa como toque de sino”: glimpses. Vislumbres, enfim. 

Se alguém perscruta Jesus nas escrituras, se esse alguém se permite auscultar sua própria leitura, esse momento pode surgir de quando em vez. Um reconhecimento da “voz” e de nosso movimento interno a essa “voz”. Há teólogos que procuraram a máxima aproximação possível com a “dicção” daquele que ali e então falava: a “Ipsissima Vox” de Jesus. Para quem procura essa reconstituição do idioleto de Jesus, a forma peculiar como ele se apossou da língua e gerou significado, um autor como Joachim Jeremias poderia ajudar, ao lado dos Evangelhos. De qualquer maneira, o sujeito em questão se depararia com a possibilidade [ou não] dos vislumbres dos toques de sino no tocante aos ditos de Jesus e essa fala “se tornaria atual para ele”, no sentido mesmo de tudo que colocamos acima: se atualizaria enquanto “momento” cognitivo-emocional, como momentum fenomenológico “rico”, rubricado, como a “fermata” na partitura musical: a pausa que emoldura a nota e/ou o silêncio consequente e subsequente. 

Quem lê assim os Evangelhos, não parte de teologias dogmáticas ou “inerrâncias bíblicas”, porque tais militâncias beligerantes são o que de pior as Igrejas construíram, o que também é distinto de dizer que “todo subjetivismo cabe naquilo que já está escrito”, falácia contumaz e repetida dos apologetas fáceis e temerosos de qualquer “conspurcação da Palavra”. Deixemos os temores para os teólogos confessionais comprometidos com seus confessionalismos. Quem procura pela fala de Jesus, ao contrário dos que compõem Teologias Sistemáticas, não parte de Deus como pressuposto, uma vez que Jesus se apresenta como “o que revela Deus”, portanto não se tem de ter um “a priori à própria fala do verbo”. Engraçado: quem ousasse supor de Deus sem o verbo dele não precisaria. Assim, pode-se focar nos textos onde Jesus fala deixando que ele mesmo remeta ao pai, em seus próprios termos que foram, em termos pessoais [não nacionais] e humanos [para todos os povos] inaugurais em seu todo: pelo continuum da fala, e não por uma ou outra associação episódica a textos da Antiga Escritura: a Lei e os Profetas. Caso se queira ir à Lei e/ou aos Profetas, que se deixe o próprio Jesus apontar as ocasiões para fazê-lo! Se se quer apor ou antepor à sua fala os desígnios do Pai para ele e nós, que se saiba que o Filho não é peça “inconsciente” nem “involuntária” no projeto teologicamente entendido como o Projeto de Salvação [a soteriologia] , e que, além de autoconsciente, é também “autodoado” a nós, por sua “livre escolha no relacionamento com Deus que faculta a nós por seu intermédio”. As igrejas criam obstáculos sem fim à primeira perscrutação dos que partem da absoluta incredulidade em relação a Jesus, mas com inclinação à sondagem do mesmo. Sobretudo as Igrejas que, nominalmente, aderem ao lema da “sola scriptura”, porque querem delimitar os eixos de busca de cada leitor. Exemplo: os Adventistas estão preocupadíssimos com o Apocalipse de João e suas possíveis concordâncias com Daniel, e fazem desse par [Apocalipse-Daniel, Daniel-Apocalipse] a centralidade de sua ansiosíssima espera pela segunda vinda de Cristo, junto com a preocupação de que o Papa institua um culto a si [ou ao Papado] que não seja a Deus ou a Cristo, com um afã monumental de alertar a qualquer um que esteja de sobreaviso junto a tal armadilha. Isso ao lado de sua intransigente defesa da observância do sábado [“bíblica”, dirão!, repetindo o mantra e impingindo a velha e mais-que-batida máxima da “hermenêutica circular” de que “só a Bíblia explica a própria Bíblia”, da forma mais literalista e fundamentalista que se possa cogitar], em cuja falta os “não-observantes estarão condenados”, afinal “quem não cumpre um til da Lei [ou “um Mandamento”], descumpre toda a Lei” [não é mesmo?], numa atitude que é pior do que legalista: é ultrafarisaica. Vejo as mesmíssimas pedras jogadas a Estêvão, quando os homens do sinédrio não toleraram a parte final do seu discurso [Atos dos Apóstolos, 7, 48-53]. 

O mesmo posso dizer para cada uma das confissões ditas “reformadas”, com seus dogmas prediletos, afugentando o leitor cético de qualquer aproximação livre a Jesus, sem pressupostos a não ser o de suas palavras mesmas. Pois bem, a partir disso, que o leitor consulte, segundo sua consciência e a inspiração do Espírito Santo ou Graça [que sempre será chamada de “astúcia do Inimigo”, a cada vez que tal caminho contrariar “o modelo de pavimentação preferido” de cada confissão da Cristandade Institucional, ou a letra fria da Palavra] estudos críticos-textuais da Bíblia, arqueológicos, paleontológicos, estudos de antropologia religiosa [as antropologias católica e protestante são antípodas ou complementares, segundo a bagagem de cada um], filósofos da religião, ou os autores que mais lhes digam à alma em seu “lugar e ponto na própria caminhada”, sem as bitolas e pressupostos tão vociferantemente impingidos e alardeados por cada uma dessas confissões militantes. Porque, partindo das palavras de Jesus e, somente a partir delas, podem-se alcançar as referências que pareçam pertinentes a cada buscador numa ampla gama de teólogos ou filósofos da religião, de Karl Barth a Emil Brunner, de Paul Tilich a Pierre Teilhard de Chardin, de Wolfhart Pannenberg a Oscar Cullmann, de Kierkegaard a Henry Michel, quais sejam as que surjam no horizonte-de-indagação de cada um. Por uma razão banal: ninguém é dono da pergunta alheia, e as perguntas são as mais variadas para as questões colocadas nos Evangelhos. Mas isso reforça a força de Jesus, longe de enfraquecê-lo, justamente porque as palavras de Cristo são demasiado singulares para poderem ter sido cogitadas e falseadas substancialmente, uma vez que os homens de então [e de agora] não possuíam [e não possuem, ainda que forcejem por fazê-lo, em suas tantas teologias] as categorias ontológicas e epistemológicas para criá-las. Jesus não poderia ser inventado simplesmente “porque está e permanece acima das categorias de pensar-e-ser-o-humano disponíveis para fazê-lo”, lá atrás como agora. Elas estavam indisponíveis e permaneceriam, sem sua própria fala. Ele tenta explicar a si e à sua vida, enquanto ilustra-a, vivendo-a. Isso é sua singularíssima natureza humano-divina. E isso é mais do que a soma das teologias e confissões, malgrado os protestos [já os entreouço!] em contrário. 







Marcelo Novaes

domingo, 8 de novembro de 2015

Prelúdio aos Vermelhos


Edvar Munch (1863-1944)







O preto imerso em preto não pode flagrar o preto. Há de surgir um vermelho contra o fundo preto: um algo que permita cogitá-lo [o preto], ou colocá-lo em perspectiva - o abrir da primeira fagulha. O primeiro fogo iluminado e delineando sombras humanas e ambientais: eis um momento da evocação dos contrastes, até por ampliação. As sombras surgem alongadas. A primeira lupa está dada, ainda que sob ela se enxergue mal. Há muito que rastrear agora, mesmo sem se mover. Rastrear é o verbo que quero enfatizar. “O inimigo sempre nos ronda”: eis uma imagem bíblica, recorrente. Pois aqui há quem “ronde essa ronda” e possa acompanhá-la, para contrabalançá-la. Há o sentinela que está atento aos espaços e aproximações, à luz e aos lapsos, aos trânsitos e transiências; atento às passagens. Há alguém capaz de sondar e farejar aproximações de humanos ou animais, alguém que ausculta os passos de quaisquer ameaças ou riscos iminentes. Os conceitos de “estranho” e “inimigo” também se veem circunscritos nesse perímetro. 

No lampejo de vermelho no breu, há um estado vígil de alerta. Prontidão e reatividade, elementos primais: (re)ação visando o (re)equilíbrio. O equilíbrio, a princípio, é pensado em relação ao grupo primário: os “próximos mais próximos”. Depois, quem sabe, pode-se ampliar o alcance dos envolvidos no conceito “grupo”, muito para além da família, embora ainda esperemos por isso. Somos muito instintivos. Há elementos de ansiedade no que acaba de ser descrito, neste tônus autoevidente de “(re)ação emergente”. Mas devo acrescentar uma nuance ao exposto: quando há “extremo foco na prontidão”, a “percepção da ansiedade é relativamente suprimida”. Eis a ocupação que não se preocupa. Chamamos a isso “coragem”. 

Passionalidade engloba ambas as coisas: medo e coragem. Só depois, pode advir alguma “frieza” na tarefa. Melhor dizendo: “a capacitação de controle da passionalidade via experiência, o que otimiza a função de ronda”. 

Voltemos à faísca. Esta pode estar a céu aberto, moldada como fogueira, ou na entrada d’alguma caverna. Homens, crianças, mulheres podem se agrupar em torno do fogo. Eis o “dado mínimo” para um acampamento ou um lar rústico. Alguém pode rastrear o perímetro cujo centro está definido em fogo ou foco ígneo. Esse alguém é mercurial, como o Hermes de pés alados da mitologia grega. E esse alguém tem “a mobilidade do metal líquido”, sendo este o sentido alquímico da expressão “mercurial”. E a fagulha, necessariamente, vem antes da metalurgia, mãe de tantas ciências físico-químicas, a partir das “ligas metálicas”. Confira-se o tema em Mircea Eliade, no livro “Ferreiros e Alquimistas”. A faísca, assim, é ponto de partida para muitas coisas, inclusive para 1) as “ciências especulativas” ou 2) os devaneios poéticos. Entenda-se, aqui: 1) a alquimia; 2)“a fenomenologia imagética dos elementos”, como proposta por Gaston Bachelard. 

Giremos, então, a faísca e coloquemo-la em movimento: a sirene abrindo caminho, seja ela das ambulâncias ou dos carros de bombeiro. Há também a da polícia. A tal sirene, em qualquer dos casos, alerta e adverte, deixando “em estado de prontidão” quem se posiciona à sua frente, quem obstrui o caminho. Também os alarmes sonoros soam vermelhos ao ouvido. Todos são “índices de urgência”. 

Como o fogo demarca um território, seja ele lar ou acampamento [e este é o “fogo centralizado”], o fogo pode correr e se alastrar, “comendo o que encontra pela frente”: o fogo sem comando. O fogo dos incêndios criminosos. O crime demarca a Lei, eis o paradoxo desse âmbito vermelho. E mais: o vermelho no semáforo define o trânsito e os cruzamentos. Em todos esses casos temos “o vermelho legislando”. Todos “sentimos” que há “algo de legislante” na sirene que pede passagem, como há algo de “alarmante” na queima de reservas florestais. Também nos incêndios urbanos, domésticos ou industriais. No espaço mais rústico-natural ou no mais aculturado encontramos espaço para essa função vermelha de abrir passagem, abrir caminho, frear, ou “limpar pelo fogo”. Da mesma forma que o fogo tem essa dupla função, o mesmo se pode dizer dos instrumentos de metal feitos para este mesmo fim: lanças, espadas, escudos. Estamos no âmbito do “fogo legislante” e do “vermelho-alarme”, contraposto ao “vermelho-focal”. Ambos demarcam um raio de ação, um perímetro de guarda ou vigilância e um “território a ser preservado ou defendido”. São fogos complementares. O avesso da moeda revela que “a moeda ainda permanece ali, intacta”. E o fogo é, também e em si mesmo, um elemento lábil: ora vigilante e centrado, ora “propalado”, “alastrado” - fogo em movimento. “O fogo que limpa, calcinando”. O risco vermelho retorna ao preto. 

Pois bem. Se, até aqui, vimos o fogo como elemento focal, raio de percurso, raio de segurança, raio de ronda e vigilância [o fogo como “faro”, “estado de alerta”, “prontidão” e “ronda”], passamos, por contiguidade imediata, à valência do fogo que denota “poder” e “controle”. O fogo que dorme na pedra e emerge por atrito. E quando tratamos do atrito, falamos, humanamente, de discussão e debate. Implicitamente, estamos tratando de “um enredo em direção à justiça”. A distribuição do fogo implica em “justiça distributiva”. Distribuir o fogo é como distribuir “a possibilidade de cozinhar o alimento”. Distribuir fogo é distribuir “mana” e há riscos implicados nessa distribuição, que apontam para déficits ou superávits: a “assimetria”, a “ganância”, a avareza, a miséria, seja ela entendida no âmbito de grupos pequenos, no campo social mais amplo ou, até mesmo, na assimetria da distribuição de ganhos e perdas desde o nascimento. Há um atrito aqui. Há um tom de “inquietação vermelha” que se questiona sobre a justiça no mundo. Esse vermelho não é uma sirene que pede passagem, é um “clamor” dirigido ao próprio coração da vida. Trata-se de um clamor por uma “regência justa”, lançado ao Estado ou a Deus: “salva meus irmãos, ó Altíssimo, ou risca meu nome do Livro da Vida”. O homem é justificado nesse santo combate com Deus. 

O fogo, tendo sido gerado no âmbito da faísca, precisa ser distribuído. “O rei é bom?” “O rei é justo?” “O rei é tirano?” “Não guardaram pra mim sequer um pedaço de frango do almoço”. Veja como a distribuição do mana soa vermelha: eis o âmbito da justiça distributiva. Há questões “imponderáveis” em relação ao tema: terremotos, tsunamis, tufões, secas. Mas podemos nos fixar nas questões ponderáveis: incêndios criminosos, atitudes imprudentes, boates sem extintor e superlotadas, usurpação de território, fraudes, e uma série de coisas que apontam para o fato iniludível e incontornável de que “alguém se apropriou do que não lhe era devido”. Enfim, de que “alguém roubou mana”: de dinheiro ou alimento ao solo que foi contaminado. Do registro de identidade ao “espaço de prestígio”. Há questões perfeitamente ponderáveis em meio ao quantum de imponderabilidade vigente neste mundo ou Vale de Lágrimas. Pensemos, então, sobre as tais variáveis perfeitamente ponderáveis e veremos o quanto elas têm a nos “alertar” a respeito de nossas “medidas de aferição”. Alguma calibragem parecerá se fazer necessária. 

No que diz respeito à justiça, há retóricas variadas, justas a seu próprio modo Algumas mais onitroantes, outras mais misericordiosas, cordiais. Há tantas faixas de justiça quanto são as nossas necessidades de justiça. Há vermelhos arroxeados e outros que tangenciam os marrons. Assim como há o exorcista e “aquele que se assenta em si mesmo, aparentado às montanhas”. Ambos são justos. Também a definição de um lugar no espectro parece ato bastante arrazoado ou razoável. Há outra inquietação menos absoluta, mas não menos inquieta. Trata-se pela aspiração à regularidade. Estamos ouvindo uma música cuja pulsação arbitramos nomeara como sendo de “doze pulsos por segundo”, só a título de exemplo. Mas algo esquisito acontece no undécimo minuto: passamos a ter seis pulsos no primeiro segundo, treze pulsos no segundo, dois no terceiro, sem qualquer previsão possível. Não só “estamos liberados para desaprovar a música”, como passamos a nos inquietar pela “impossibilidade de encontrarmos qualquer medida nessa escuta”, o que equivale a “não se poder aferir pulso algum nesse desmando sonoro”. Não há metrônomo que aguente. Nem nós. 

Não há o que “apalpar” nessa escuta. Aqui experimentamos outro estado de tensão, também “vermelho”, bem diferente da sirene ou do alarme. Não adianta tentar “abrir caminho”. A coisa é outra. Há um desconforto íntimo, biológico até, um desconforto biopsíquico pela “aleatoriedade que quebra qualquer possibilidade de expectativa justa ou ordenada”. A frase precisa ser relida com ritmo. Há um desconforto biopsíquico pela aleatoriedade que quebra qualquer possibilidade de expectativa de um fenômeno ordenado. É como uma arritmia cardíaca. É como o coração que parece precisar da regência de um marca-passo. Essa é uma das faces do “incômodo vermelho”: trata-se da inquietação pela quebra dos ritmos ou pulsos regulares, e mesmo da “regulação do que se esperaria ordenado”. Como se a Lei da Gravidade pudesse ser suspensa. Não há onde se apoiar. 

A quebra da ordem do pré-visível traz um desconforto específico, ligado à não-regra, à assimetria, à total “arbitrariedade dos fatos”. As duas inquietações são parentes. E os tons de vermelho tão nuançados [mesmo em seus extremos] que justificam todas as colorimetrias. 







Marcelo Novaes

sábado, 7 de novembro de 2015

Wèn-dá


Linji




“Imaginemos uma Teia que cubra todo o Universo, onde há nós infinitos, no cruzamento de seus infinitos fios, tecidos em justos paralelismos, tal qual uma grande rede de pesca, ou uma tela de reflexão multimodal. Em cada nó ou em cada um desses intercruzamentos, há uma pedra preciosa ou semipreciosa, que reflete todas as demais, segundo sua cor, brilho, grau de pureza e tônus específicos. Para cada uma que se olhe, ou a partir de cada uma, tem-se uma perspectiva angular do todo, como refletido pelas pedras que nessa se refletem. E é tudo o que se tem, porque o Todo, em si mesmo, é inapreensível, uma vez que, de qualquer posição particular que se adote ou tome, de qualquer perspectiva que se tenha como a mais adequada ou factível, nada se saberá de uma suposta posição central, nó, fulcro ou Pedra Angular, uma vez que a rede, e nossa posição nela, não nos permite apreendê-la a partir de seu Eixo-de-Construção. Isso é o que chamamos universo. Ou multiverso.” 

Vejamos uma coisa interessante exposta na imagem da Rede de Indra: a pessoalidade e impessoalidade estão co-implicadas. Assim, há uma coloração afetivo-imaginal para a “minha esquerda”, “minha direita”, “meu atrás”, “meu à frente”. Há, ainda, o meu “acima” e meu “abaixo”, que posso compartilhar com muitos. Mas se quero adotar coordenadas grupais assumo pontos “fixos” como coordenadas basilares: seja a estrela polar, seja Meca, seja Jerusalém, seja o Cruzeiro do Sul. Também assim criamos “grupos totêmicos”, e não só por aceitarmos um “ancestral comum”, seja zoomórfico ou não. Tanto faz. Todos virados para Meca em certos horários do dia formam um “clã”. Ou uma “egrégora”, como se gosta de dizer na linguagem ocultista. Brigas de clãs ou de egrégoras são como briga de bar ou demandas entre filhos e pais de santo: ocorrem nas melhores e piores famílias. Mas não deviam ocorrer, se tivéssemos amadurecido.  

Como as posições na Rede de Indra são correlativas, gostaria de saltar no tempo, para um tempinho ali atrás, logo atrás. Trata-se de um encontro entre Felipe, o apóstolo de Jesus, este [o próprio] e Natanael, no Evangelho segundo João, que reproduzo livremente, como é de meu estilo. João I, versículos 45-48. Vou contar a passagem, do meu jeito. Jesus acaba de chamar Felipe a segui-lo. Felipe, entusiasmado, diz a Natanael: “eis Jesus, de quem falam as Escrituras, nascido em Nazaré, filho de José, de quem te falei”. Natanael diz algo assim: “E pode vir algo que preste de Nazaré?!” Que beleza, hein? Imaginemos um Pai de Santo ou Mestre-Mago de hoje falando assim de seu “confrade”. Ou um dissidente de uma ideologia ou escola de pensamento falando assim ao Pai Fundador de sua escola. No mínimo, no mínimo, um processaria o outro! Mas Jesus é Jesus! Vamos lá, a essa “acolhida generosa” [talvez, até uma “provocação divertida” de Natanael a Jesus...], Jesus responde a Natanael: “Salve Natanael! Eis um verdadeiro israelita, no qual não vejo nenhuma falsidade ou dolo!” Natanael diz: “Como me conheces e sabes de mim, se Felipe está me apresentando agora?!” Jesus responde: “Antes de Felipe me chamar, eu já te vi embaixo da figueira!” Não sabemos se Jesus viu Natanael fazer boa ou má coisa embaixo da figueira, mas o fato é que com essa resposta elegantíssima [e inalcançável para pais e magos dos dias de hoje], Natanael passou a respeitar Jesus. E Jesus lhe disse: “se me chamas rabi só porque já te vi embaixo da figueira, verás coisas muito maiores do que esta!” Será Jesus arrogante? No contexto, não. Até bem humorado, eu diria. 

Vamos a outro diálogo? Estamos no século IX d.C. A máquina do tempo girou para a frente. Um monge se dirige ao mestre Lin-chi [também grafado Linji, segundo questões fonéticas] e lhe pergunta: “Avalokiteshvara [o Boddhisatva da Compaixão Universal, “O Que Ouve as Dores do Mundo”] se apresenta com seus mil braços e um olho na palma de cada mão. Linji, qual é o Olho Central?!” É claro que o diálogo não foi feito exatamente assim. Consideremos o seguinte: naquela época, um monge fazia uma viagem a pé [ou no lombo de um animal], de dias, para indagar outro monge, que ele tivesse por mestre. Há toda uma expectativa e uma “peregrinatio” envolvida no diálogo que, em japonês, chamaríamos de “mondô”. O Koan é a frase-enigma, o diálogo é o “mondô”. Como estamos na China, e não no Japão, o mondô se chama wèn-dá. Prossigamos com o diálogo. 

“Avalokiteshvara de mil braços trás um olho em cada palma das mãos. Qual o olho central?!” 

Parece que este discípulo tinha algo como a necessidade de situar o fulcro da Rede de Indra. Linji, em silêncio, o pegou pelo braço e o alçou à Plataforma onde se sentavam os mestres. Perplexo, o discípulo ficou em silêncio. Linji reverenciou esse silêncio com um “gashô”, cumprimento Zen com as mãos postas, e depois, puxou o discípulo curioso demais ao seu devido lugar. 

Essa história assim contada por mim soa inverossímil, porque Linji era um cara mau humorado e que esbravejava com facilidade. Mas, por favor, adotemos essa versão Zen dessa história Ch’an [o nome que o Zen tem na China]. Linji alça o inquiridor ao seu posto, cumprimenta-o e o devolve ao seu lugar-de-pergunta: ao lugar da pergunta. Ele intercambia os lugares de “anfitrião” e “hóspede”: de quem recebe e de quem adentra o recinto, a Sala do Dharma, o local de preleção. Essa é uma não-resposta bastante eloquente. Ele mostra, com os gestos e o silêncio, o intercâmbio dos lugares dos nós da grande rede [nós em sentido lato e em sentido “comunitário”], ele permuta o lugar das “gemas”, tal como os olhos nas mãos de Avalokiteshvara. “Que tal olhares por meus olhos por um tempo?!” A coisa é muito mais complexa do que isso, naturalmente. Mas há algo legível logo “na entrada da situação”: no intercâmbio das posições entre hóspede e anfitrião, fica uma não-resposta que vale por muitas meias respostas.








Marcelo Novaes

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Nascer para o Alto ou "Eu sou a Verdade": um Comentário ao Cristianismo de Michel Henry





Tão certo quanto o leitor ao me ver à janela, saberá que eu não me exponho à janela, mas ao sol na janela, se prestar atenção a alguns detalhes [meus olhos fechados, para ficar num único exemplo], o texto de Michel Henry é seu próprio cumprimento: ele se revela. Seu método? Uma fenomenologia [uma valorização dos fenômenos] não preocupada com o “lá fora”, mas com o “cá dentro”: uma fenomenologia da subjetividade que é, por conseguinte, uma ontologia, como consequência necessária e incontornável de seu método. Sua filosofia do Cristianismo é uma fenomenologia da interioridade ou da subjetividade em seu sentido mais agudo. Com palavras minhas, que não repetem nem replicam as de Michel Henry, quero compartilhar minha leitura deste grande ensaio “Eu sou a Verdade: por uma Filosofia do Cristianismo”.

O modo de apresentação de Cristo por parte de Michel Henry, através de verdades fenomenológicas apodícticas [formalmente necessárias] é um modo poderoso que visa desvelar uma Verdade ali, ao cabo de uma sucessão de verdades, mas não como um teorema: mais do que “ao modo dos teoremas”, mas como um convite à interioridade. A primeira coisa que me cabe apontar ao leitor é que “aquele lugar para onde essa sucessão de verdades pode apontar só pode ser habitado por Jesus”, em todos os seus aspectos concretos, fenomenológicos: sua história, seu agir, suas palavras. Pois bem: pode ser habitado por Jesus e por nenhum outro. Ora, naturalmente que o lugar ocupado pelo leitor e por mim também assim o são, “únicos e intransferíveis”, não é verdade? A questão é um pouco mais profunda, amigo ou amiga. Vamos, então, àquele lugar que justifica a escolha do título do próprio livro: “Eu sou a Verdade – por uma Filosofia do Cristianismo”.  


Não há “nada de especial” no lugar a que se pretende chegar: ele é o ponto exato da emergência do humano, antes e aquém/além de biologismos e outros cientificismos das ciências “duras” [exatas] ou humanas. Ainda que este lugar se mostre como o ponto de emergência do humano, há uma guinada quando o humano toma consciência desse lugar originário: eis o que podemos chamar Graça, conversão, em contraponto à dispersão, diversionismos, bem como a todo o maquinário que pretenda simular a vida, falseando-a e esvaziando-a de si. Os termos aqui empregados não são os do Michel: apenas reapresento o que ali visitei, sem, no entanto, repeti-lo. Dar-se conta desse lugar é, também, ser encontrado pelo Sopro da Vida, e este é o lugar do verbo que Jesus sempre ocupa, com plena ciência de o estar ocupando, com plena autoconsciência de ocupá-lo, e não podendo descolar-se dele, por ali ser e habitar, habitar e ser, sendo-lhe, portanto, consubstancial. Aqui nós temos um critério que inclui muita coisa como corolário, sendo a não-hipocrisia [e a condenação da mesma] uma das manifestações possíveis de serem “detectadas”. Mas isso é menos importante do que “dar uma espiada no cá dentro/lá dentro” do que É Jesus. Ele é Sopro agindo e sendo o tempo todo, jamais se rendendo a qualquer simulacro, casca vazia, mera aparência ou “jejum como espetáculo”: a oração não é espetáculo, o jejum não o é. Essa possibilidade vivente de lá-estar, na “primeira dobra do ser originário”, sendo esta dobra a manifestação mesma da Vida, Deus e “Verdade-da-própria Vida quando vista-vivida- e ‘sida’-na-origem e desde a origem” é que faz de Jesus o Cristo: em sua condição, autoconsciência [ciência plena de assim sê-lo e, portanto, não podendo falsear-se], no gênero de suas declarações, no estilo de suas assertivas. Faz também dele plenamente humano, porque vivo e manifesto-agente na dobra do humano, neste mesmo ponto de inflexão que nos origina a cada um de nós, antes e além-aquém de qualquer biologismo ou cientifismo a tabelar essas manifestações da Vida, sem, no entanto, “poder tocá-la em si mesma”. Jesus a tocava “pelo lado de dentro”.

O que podemos dizer deste lugar? Seria o lugar de Filho da Vida-Deus, ciente de sê-lo, plenamente ciente e agente neste lugar específico e “comum”: agente e vivente porque essa plena ciência só pode se dar na autoexpressão e autorrevelação. Seu próprio ser-agir, apresentado aos humanos todos e, sobremaneira, aos que vislumbraram este lugar no convívio com ele, torna os humanos assim afetados como “co-conscientes de suas próprias condições de Filhos da Vida: filhos pelo Filho, através do Filho e com o Filho. Assim, Jesus não é só o pastor das ovelhas, o que seria o equivalente a um “mestre ético”, mas a porta mesma do redil onde ficam as ovelhas, conforme sua própria narrativa em João. O “passar pela porta” é um “tomar consciência de si neste lugar apontado pelo Filho” que equivale a um nascer de novo, um “nascer para o Alto” que é, ao mesmo tempo, um nascer na Fonte, da Fonte, na Origem e pela Origem, nascer este mediado pelo Filho, plenamente ciente deste lugar e condição.


Essa passagem pela porta, quando se dá, ilumina a Lei pelo lado de dentro, permitindo que se flagre os “jejuns de espetáculo”, as orações de espetáculo e se opte pela “prescrição do espetáculo”, quando se dá, então, certa “caducidade da Lei, em seus aspectos mais exteriores”, uma vez que, pelo amor e gratidão gerados sem tal lugar se desdobra a própria ética cristã, pelo menos em seu momento inaugural, revelada neste lugar de amor, perdão, misericórdia, acolhimento e copertença. Dito de outra maneira, cumpre-se a ética sem o artificialismo por tomá-la como um conjunto arbitrário de regras como que “dadas de fora”, uma vez que se enxerga uma ética a partir de dentro e mais: o tal lugar, por si mesmo, invalida e inviabiliza o “jejum como espetáculo” ou a validação da hipocrisia. A virtude da “travessia da porta do redil”, ao contrário vai se engendrando de dentro, a partir de dentro, pelo contato fulgurante com o ser-agir de Cristo, atemporal em seu fulgor e como Palavra Viva. E essa atemporalidade se daria, justamente, pelo lugar de onde ele fala e no qual ele Vive e É. À experiência de roçar este lugar poderíamos chamar “batismo no espírito”, descobrindo a própria condição de Filho no Filho e pelo Filho, com a consequente guinada nos valores e percepção. Uma “injeção de vida”, ainda que “estranha ao mundo” do lá fora, das mimeses, das falsificações, falseamento e falcatruas. Não duvido que Michel tenha vivido aquilo que narra.

Michel Henry desdobra seu primeiro livro sobre Cristo numa trilogia, onde aplica seu mesmo método de exploração fenomenológica, numa “fenomenologia da fenomenologia” ou “fenomenologia da vida”, como seu pensamento passou a ser conhecido. “Encarnação – por uma Filosofia da Carne” e Palavras de Cristo complementam [ou completam] este belo ensaio inaugural sobre o Cristianismo, “Eu sou a verdade”, o mais belo texto filosófico-laico que eu já li sobre o tema. Ainda mais instigante para aqueles que, perdidos nos labirintos de uma hiperintelectualidade urobórico-europeia, encontram dificuldades para encontrarem em si mesmos [por meio do Filho!] o “fio da vida”, ou “a água da vida”.





Marcelo Novaes