Turquia

Turquia

sábado, 3 de setembro de 2016

Existencial



Tanta beleza
E há quem veja na poesia
Apenas topo entre brumas sem coesa
Das espumas
A proeza do verso é escala
Que ordem nenhuma mede
Assim a céu aberto
Por isso a sede que cede a montanha
E adentro quem vai ganha seu copo meio vazio
Assanha segue o poema a rio a fio a brio
Onde a rima convier o desafio
Arde nisso o sublime do encontro
O encaixe a réstia da profundidade
O ponto de fusão
Autenticidade
Explosão.
- Iatamyra Rocha

terça-feira, 1 de março de 2016

Um Vislumbre de Jesus [A Glimpse of Jesus]



Ara Sassoonian






Depois de centenas de compassos na condução de uma orquestra, o maestro impetra um gesto que inaugura o silêncio. Por um tempo mínimo. Um sino é tocado em seguida, sem qualquer adorno. Uma semínima, dando sequência à música. Quero que o leitor esteja atento a esta nota, como estaria ao soar de uma tina de bronze ou sino num ritual religioso. Peço ao leitor que considere, ainda, o “tlin” de certos relógios antigos [os de pêndulo], nas horas redondas. Pensemos, ainda, na campainha que toca [um tlin também, embora outro], anunciando a chegada de alguém vindo de outra cidade, alguém muito querido. Talvez alguém com quem queiramos confidenciar muitas coisas havidas desde longo tempo de ausência, para ambos. Talvez alguém com quem queiramos nos reconciliar. 

Podemos nos perguntar, no dia a dia, se teríamos tais “toques de sino” presentes, se estaríamos presentes quando da sua ocorrência. Muitos de nós temos um plano de fundo de ruído que funciona como fator estressante subjacente ou como “ruído branco”, quando não temos zumbidos no ouvido, sons como o chiado de uma panela de pressão, cigarras, cachoeiras que só de quando em vez silenciam. O silêncio aqui seria o tal “toque de sino”, singular e presente pela suspensão do ruído. Alívio e/ou júbilo podem se sobrepor a essa vivência tão breve, que logo largamos de mão. No caso do ritual, talvez haja um momento de autolembrança. No caso da visita, uma alegre expectativa. No caso da reconciliação, o sentimento do “derretimento do coração”: a ternura, a queda de couraças e armadura. Tudo isso. 

Vou chamar a esse “tlin” de “glimpse”, até por eufonia e homofonia: soa como um toque de sino. O tal vislumbre ou insight na língua inglesa. Vislumbre é bom: soa como um súbito aparecer de uma luz ou som de algum lugar, dentro-fora. No caso da música, quão mais desconcertante e imprevisível ela seja em novidade, mais nos terá “alavancado” até o patamar alto de sua pausa coroada pela semínima. Acompanhamos a jornada toda com “movimentos internos”, cognitivos, proprioceptivos. No caso de distúrbios do ouvido interno ou do estresse, fica-nos óbvia nossa coparticipação no fenômeno. No caso da visita, estamos engajados no encontro. Tudo é dentro-fora, nessas circunstâncias de “toque de sino” ou da “pausa como toque de sino”: glimpses. Vislumbres, enfim. 

Se alguém perscruta Jesus nas escrituras, se esse alguém se permite auscultar sua própria leitura, esse momento pode surgir de quando em vez. Um reconhecimento da “voz” e de nosso movimento interno a essa “voz”. Há teólogos que procuraram a máxima aproximação possível com a “dicção” daquele que ali e então falava: a “Ipsissima Vox” de Jesus. Para quem procura essa reconstituição do idioleto de Jesus, a forma peculiar como ele se apossou da língua e gerou significado, um autor como Joachim Jeremias poderia ajudar, ao lado dos Evangelhos. De qualquer maneira, o sujeito em questão se depararia com a possibilidade [ou não] dos vislumbres dos toques de sino no tocante aos ditos de Jesus e essa fala “se tornaria atual para ele”, no sentido mesmo de tudo que colocamos acima: se atualizaria enquanto “momento” cognitivo-emocional, como momentum fenomenológico “rico”, rubricado, como a “fermata” na partitura musical: a pausa que emoldura a nota e/ou o silêncio consequente e subsequente. 

Quem lê assim os Evangelhos, não parte de teologias dogmáticas ou “inerrâncias bíblicas”, porque tais militâncias beligerantes são o que de pior as Igrejas construíram, o que também é distinto de dizer que “todo subjetivismo cabe naquilo que já está escrito”, falácia contumaz e repetida dos apologetas fáceis e temerosos de qualquer “conspurcação da Palavra”. Deixemos os temores para os teólogos confessionais comprometidos com seus confessionalismos. Quem procura pela fala de Jesus, ao contrário dos que compõem Teologias Sistemáticas, não parte de Deus como pressuposto, uma vez que Jesus se apresenta como “o que revela Deus”, portanto não se tem de ter um “a priori à própria fala do verbo”. Engraçado: quem ousasse supor de Deus sem o verbo dele não precisaria. Assim, pode-se focar nos textos onde Jesus fala deixando que ele mesmo remeta ao pai, em seus próprios termos que foram, em termos pessoais [não nacionais] e humanos [para todos os povos] inaugurais em seu todo: pelo continuum da fala, e não por uma ou outra associação episódica a textos da Antiga Escritura: a Lei e os Profetas. Caso se queira ir à Lei e/ou aos Profetas, que se deixe o próprio Jesus apontar as ocasiões para fazê-lo! Se se quer apor ou antepor à sua fala os desígnios do Pai para ele e nós, que se saiba que o Filho não é peça “inconsciente” nem “involuntária” no projeto teologicamente entendido como o Projeto de Salvação [a soteriologia] , e que, além de autoconsciente, é também “autodoado” a nós, por sua “livre escolha no relacionamento com Deus que faculta a nós por seu intermédio”. As igrejas criam obstáculos sem fim à primeira perscrutação dos que partem da absoluta incredulidade em relação a Jesus, mas com inclinação à sondagem do mesmo. Sobretudo as Igrejas que, nominalmente, aderem ao lema da “sola scriptura”, porque querem delimitar os eixos de busca de cada leitor. Exemplo: os Adventistas estão preocupadíssimos com o Apocalipse de João e suas possíveis concordâncias com Daniel, e fazem desse par [Apocalipse-Daniel, Daniel-Apocalipse] a centralidade de sua ansiosíssima espera pela segunda vinda de Cristo, junto com a preocupação de que o Papa institua um culto a si [ou ao Papado] que não seja a Deus ou a Cristo, com um afã monumental de alertar a qualquer um que esteja de sobreaviso junto a tal armadilha. Isso ao lado de sua intransigente defesa da observância do sábado [“bíblica”, dirão!, repetindo o mantra e impingindo a velha e mais-que-batida máxima da “hermenêutica circular” de que “só a Bíblia explica a própria Bíblia”, da forma mais literalista e fundamentalista que se possa cogitar], em cuja falta os “não-observantes estarão condenados”, afinal “quem não cumpre um til da Lei [ou “um Mandamento”], descumpre toda a Lei” [não é mesmo?], numa atitude que é pior do que legalista: é ultrafarisaica. Vejo as mesmíssimas pedras jogadas a Estêvão, quando os homens do sinédrio não toleraram a parte final do seu discurso [Atos dos Apóstolos, 7, 48-53]. 

O mesmo posso dizer para cada uma das confissões ditas “reformadas”, com seus dogmas prediletos, afugentando o leitor cético de qualquer aproximação livre a Jesus, sem pressupostos a não ser o de suas palavras mesmas. Pois bem, a partir disso, que o leitor consulte, segundo sua consciência e a inspiração do Espírito Santo ou Graça [que sempre será chamada de “astúcia do Inimigo”, a cada vez que tal caminho contrariar “o modelo de pavimentação preferido” de cada confissão da Cristandade Institucional, ou a letra fria da Palavra] estudos críticos-textuais da Bíblia, arqueológicos, paleontológicos, estudos de antropologia religiosa [as antropologias católica e protestante são antípodas ou complementares, segundo a bagagem de cada um], filósofos da religião, ou os autores que mais lhes digam à alma em seu “lugar e ponto na própria caminhada”, sem as bitolas e pressupostos tão vociferantemente impingidos e alardeados por cada uma dessas confissões militantes. Porque, partindo das palavras de Jesus e, somente a partir delas, podem-se alcançar as referências que pareçam pertinentes a cada buscador numa ampla gama de teólogos ou filósofos da religião, de Karl Barth a Emil Brunner, de Paul Tilich a Pierre Teilhard de Chardin, de Wolfhart Pannenberg a Oscar Cullmann, de Kierkegaard a Henry Michel, quais sejam as que surjam no horizonte-de-indagação de cada um. Por uma razão banal: ninguém é dono da pergunta alheia, e as perguntas são as mais variadas para as questões colocadas nos Evangelhos. Mas isso reforça a força de Jesus, longe de enfraquecê-lo, justamente porque as palavras de Cristo são demasiado singulares para poderem ter sido cogitadas e falseadas substancialmente, uma vez que os homens de então [e de agora] não possuíam [e não possuem, ainda que forcejem por fazê-lo, em suas tantas teologias] as categorias ontológicas e epistemológicas para criá-las. Jesus não poderia ser inventado simplesmente “porque está e permanece acima das categorias de pensar-e-ser-o-humano disponíveis para fazê-lo”, lá atrás como agora. Elas estavam indisponíveis e permaneceriam, sem sua própria fala. Ele tenta explicar a si e à sua vida, enquanto ilustra-a, vivendo-a. Isso é sua singularíssima natureza humano-divina. E isso é mais do que a soma das teologias e confissões, malgrado os protestos [já os entreouço!] em contrário. 







Marcelo Novaes

domingo, 8 de novembro de 2015

Prelúdio aos Vermelhos


Edvar Munch (1863-1944)







O preto imerso em preto não pode flagrar o preto. Há de surgir um vermelho contra o fundo preto: um algo que permita cogitá-lo [o preto], ou colocá-lo em perspectiva - o abrir da primeira fagulha. O primeiro fogo iluminado e delineando sombras humanas e ambientais: eis um momento da evocação dos contrastes, até por ampliação. As sombras surgem alongadas. A primeira lupa está dada, ainda que sob ela se enxergue mal. Há muito que rastrear agora, mesmo sem se mover. Rastrear é o verbo que quero enfatizar. “O inimigo sempre nos ronda”: eis uma imagem bíblica, recorrente. Pois aqui há quem “ronde essa ronda” e possa acompanhá-la, para contrabalançá-la. Há o sentinela que está atento aos espaços e aproximações, à luz e aos lapsos, aos trânsitos e transiências; atento às passagens. Há alguém capaz de sondar e farejar aproximações de humanos ou animais, alguém que ausculta os passos de quaisquer ameaças ou riscos iminentes. Os conceitos de “estranho” e “inimigo” também se veem circunscritos nesse perímetro. 

No lampejo de vermelho no breu, há um estado vígil de alerta. Prontidão e reatividade, elementos primais: (re)ação visando o (re)equilíbrio. O equilíbrio, a princípio, é pensado em relação ao grupo primário: os “próximos mais próximos”. Depois, quem sabe, pode-se ampliar o alcance dos envolvidos no conceito “grupo”, muito para além da família, embora ainda esperemos por isso. Somos muito instintivos. Há elementos de ansiedade no que acaba de ser descrito, neste tônus autoevidente de “(re)ação emergente”. Mas devo acrescentar uma nuance ao exposto: quando há “extremo foco na prontidão”, a “percepção da ansiedade é relativamente suprimida”. Eis a ocupação que não se preocupa. Chamamos a isso “coragem”. 

Passionalidade engloba ambas as coisas: medo e coragem. Só depois, pode advir alguma “frieza” na tarefa. Melhor dizendo: “a capacitação de controle da passionalidade via experiência, o que otimiza a função de ronda”. 

Voltemos à faísca. Esta pode estar a céu aberto, moldada como fogueira, ou na entrada d’alguma caverna. Homens, crianças, mulheres podem se agrupar em torno do fogo. Eis o “dado mínimo” para um acampamento ou um lar rústico. Alguém pode rastrear o perímetro cujo centro está definido em fogo ou foco ígneo. Esse alguém é mercurial, como o Hermes de pés alados da mitologia grega. E esse alguém tem “a mobilidade do metal líquido”, sendo este o sentido alquímico da expressão “mercurial”. E a fagulha, necessariamente, vem antes da metalurgia, mãe de tantas ciências físico-químicas, a partir das “ligas metálicas”. Confira-se o tema em Mircea Eliade, no livro “Ferreiros e Alquimistas”. A faísca, assim, é ponto de partida para muitas coisas, inclusive para 1) as “ciências especulativas” ou 2) os devaneios poéticos. Entenda-se, aqui: 1) a alquimia; 2)“a fenomenologia imagética dos elementos”, como proposta por Gaston Bachelard. 

Giremos, então, a faísca e coloquemo-la em movimento: a sirene abrindo caminho, seja ela das ambulâncias ou dos carros de bombeiro. Há também a da polícia. A tal sirene, em qualquer dos casos, alerta e adverte, deixando “em estado de prontidão” quem se posiciona à sua frente, quem obstrui o caminho. Também os alarmes sonoros soam vermelhos ao ouvido. Todos são “índices de urgência”. 

Como o fogo demarca um território, seja ele lar ou acampamento [e este é o “fogo centralizado”], o fogo pode correr e se alastrar, “comendo o que encontra pela frente”: o fogo sem comando. O fogo dos incêndios criminosos. O crime demarca a Lei, eis o paradoxo desse âmbito vermelho. E mais: o vermelho no semáforo define o trânsito e os cruzamentos. Em todos esses casos temos “o vermelho legislando”. Todos “sentimos” que há “algo de legislante” na sirene que pede passagem, como há algo de “alarmante” na queima de reservas florestais. Também nos incêndios urbanos, domésticos ou industriais. No espaço mais rústico-natural ou no mais aculturado encontramos espaço para essa função vermelha de abrir passagem, abrir caminho, frear, ou “limpar pelo fogo”. Da mesma forma que o fogo tem essa dupla função, o mesmo se pode dizer dos instrumentos de metal feitos para este mesmo fim: lanças, espadas, escudos. Estamos no âmbito do “fogo legislante” e do “vermelho-alarme”, contraposto ao “vermelho-focal”. Ambos demarcam um raio de ação, um perímetro de guarda ou vigilância e um “território a ser preservado ou defendido”. São fogos complementares. O avesso da moeda revela que “a moeda ainda permanece ali, intacta”. E o fogo é, também e em si mesmo, um elemento lábil: ora vigilante e centrado, ora “propalado”, “alastrado” - fogo em movimento. “O fogo que limpa, calcinando”. O risco vermelho retorna ao preto. 

Pois bem. Se, até aqui, vimos o fogo como elemento focal, raio de percurso, raio de segurança, raio de ronda e vigilância [o fogo como “faro”, “estado de alerta”, “prontidão” e “ronda”], passamos, por contiguidade imediata, à valência do fogo que denota “poder” e “controle”. O fogo que dorme na pedra e emerge por atrito. E quando tratamos do atrito, falamos, humanamente, de discussão e debate. Implicitamente, estamos tratando de “um enredo em direção à justiça”. A distribuição do fogo implica em “justiça distributiva”. Distribuir o fogo é como distribuir “a possibilidade de cozinhar o alimento”. Distribuir fogo é distribuir “mana” e há riscos implicados nessa distribuição, que apontam para déficits ou superávits: a “assimetria”, a “ganância”, a avareza, a miséria, seja ela entendida no âmbito de grupos pequenos, no campo social mais amplo ou, até mesmo, na assimetria da distribuição de ganhos e perdas desde o nascimento. Há um atrito aqui. Há um tom de “inquietação vermelha” que se questiona sobre a justiça no mundo. Esse vermelho não é uma sirene que pede passagem, é um “clamor” dirigido ao próprio coração da vida. Trata-se de um clamor por uma “regência justa”, lançado ao Estado ou a Deus: “salva meus irmãos, ó Altíssimo, ou risca meu nome do Livro da Vida”. O homem é justificado nesse santo combate com Deus. 

O fogo, tendo sido gerado no âmbito da faísca, precisa ser distribuído. “O rei é bom?” “O rei é justo?” “O rei é tirano?” “Não guardaram pra mim sequer um pedaço de frango do almoço”. Veja como a distribuição do mana soa vermelha: eis o âmbito da justiça distributiva. Há questões “imponderáveis” em relação ao tema: terremotos, tsunamis, tufões, secas. Mas podemos nos fixar nas questões ponderáveis: incêndios criminosos, atitudes imprudentes, boates sem extintor e superlotadas, usurpação de território, fraudes, e uma série de coisas que apontam para o fato iniludível e incontornável de que “alguém se apropriou do que não lhe era devido”. Enfim, de que “alguém roubou mana”: de dinheiro ou alimento ao solo que foi contaminado. Do registro de identidade ao “espaço de prestígio”. Há questões perfeitamente ponderáveis em meio ao quantum de imponderabilidade vigente neste mundo ou Vale de Lágrimas. Pensemos, então, sobre as tais variáveis perfeitamente ponderáveis e veremos o quanto elas têm a nos “alertar” a respeito de nossas “medidas de aferição”. Alguma calibragem parecerá se fazer necessária. 

No que diz respeito à justiça, há retóricas variadas, justas a seu próprio modo Algumas mais onitroantes, outras mais misericordiosas, cordiais. Há tantas faixas de justiça quanto são as nossas necessidades de justiça. Há vermelhos arroxeados e outros que tangenciam os marrons. Assim como há o exorcista e “aquele que se assenta em si mesmo, aparentado às montanhas”. Ambos são justos. Também a definição de um lugar no espectro parece ato bastante arrazoado ou razoável. Há outra inquietação menos absoluta, mas não menos inquieta. Trata-se pela aspiração à regularidade. Estamos ouvindo uma música cuja pulsação arbitramos nomeara como sendo de “doze pulsos por segundo”, só a título de exemplo. Mas algo esquisito acontece no undécimo minuto: passamos a ter seis pulsos no primeiro segundo, treze pulsos no segundo, dois no terceiro, sem qualquer previsão possível. Não só “estamos liberados para desaprovar a música”, como passamos a nos inquietar pela “impossibilidade de encontrarmos qualquer medida nessa escuta”, o que equivale a “não se poder aferir pulso algum nesse desmando sonoro”. Não há metrônomo que aguente. Nem nós. 

Não há o que “apalpar” nessa escuta. Aqui experimentamos outro estado de tensão, também “vermelho”, bem diferente da sirene ou do alarme. Não adianta tentar “abrir caminho”. A coisa é outra. Há um desconforto íntimo, biológico até, um desconforto biopsíquico pela “aleatoriedade que quebra qualquer possibilidade de expectativa justa ou ordenada”. A frase precisa ser relida com ritmo. Há um desconforto biopsíquico pela aleatoriedade que quebra qualquer possibilidade de expectativa de um fenômeno ordenado. É como uma arritmia cardíaca. É como o coração que parece precisar da regência de um marca-passo. Essa é uma das faces do “incômodo vermelho”: trata-se da inquietação pela quebra dos ritmos ou pulsos regulares, e mesmo da “regulação do que se esperaria ordenado”. Como se a Lei da Gravidade pudesse ser suspensa. Não há onde se apoiar. 

A quebra da ordem do pré-visível traz um desconforto específico, ligado à não-regra, à assimetria, à total “arbitrariedade dos fatos”. As duas inquietações são parentes. E os tons de vermelho tão nuançados [mesmo em seus extremos] que justificam todas as colorimetrias. 







Marcelo Novaes

sábado, 7 de novembro de 2015

Wèn-dá


Linji




“Imaginemos uma Teia que cubra todo o Universo, onde há nós infinitos, no cruzamento de seus infinitos fios, tecidos em justos paralelismos, tal qual uma grande rede de pesca, ou uma tela de reflexão multimodal. Em cada nó ou em cada um desses intercruzamentos, há uma pedra preciosa ou semipreciosa, que reflete todas as demais, segundo sua cor, brilho, grau de pureza e tônus específicos. Para cada uma que se olhe, ou a partir de cada uma, tem-se uma perspectiva angular do todo, como refletido pelas pedras que nessa se refletem. E é tudo o que se tem, porque o Todo, em si mesmo, é inapreensível, uma vez que, de qualquer posição particular que se adote ou tome, de qualquer perspectiva que se tenha como a mais adequada ou factível, nada se saberá de uma suposta posição central, nó, fulcro ou Pedra Angular, uma vez que a rede, e nossa posição nela, não nos permite apreendê-la a partir de seu Eixo-de-Construção. Isso é o que chamamos universo. Ou multiverso.” 

Vejamos uma coisa interessante exposta na imagem da Rede de Indra: a pessoalidade e impessoalidade estão co-implicadas. Assim, há uma coloração afetivo-imaginal para a “minha esquerda”, “minha direita”, “meu atrás”, “meu à frente”. Há, ainda, o meu “acima” e meu “abaixo”, que posso compartilhar com muitos. Mas se quero adotar coordenadas grupais assumo pontos “fixos” como coordenadas basilares: seja a estrela polar, seja Meca, seja Jerusalém, seja o Cruzeiro do Sul. Também assim criamos “grupos totêmicos”, e não só por aceitarmos um “ancestral comum”, seja zoomórfico ou não. Tanto faz. Todos virados para Meca em certos horários do dia formam um “clã”. Ou uma “egrégora”, como se gosta de dizer na linguagem ocultista. Brigas de clãs ou de egrégoras são como briga de bar ou demandas entre filhos e pais de santo: ocorrem nas melhores e piores famílias. Mas não deviam ocorrer, se tivéssemos amadurecido.  

Como as posições na Rede de Indra são correlativas, gostaria de saltar no tempo, para um tempinho ali atrás, logo atrás. Trata-se de um encontro entre Felipe, o apóstolo de Jesus, este [o próprio] e Natanael, no Evangelho segundo João, que reproduzo livremente, como é de meu estilo. João I, versículos 45-48. Vou contar a passagem, do meu jeito. Jesus acaba de chamar Felipe a segui-lo. Felipe, entusiasmado, diz a Natanael: “eis Jesus, de quem falam as Escrituras, nascido em Nazaré, filho de José, de quem te falei”. Natanael diz algo assim: “E pode vir algo que preste de Nazaré?!” Que beleza, hein? Imaginemos um Pai de Santo ou Mestre-Mago de hoje falando assim de seu “confrade”. Ou um dissidente de uma ideologia ou escola de pensamento falando assim ao Pai Fundador de sua escola. No mínimo, no mínimo, um processaria o outro! Mas Jesus é Jesus! Vamos lá, a essa “acolhida generosa” [talvez, até uma “provocação divertida” de Natanael a Jesus...], Jesus responde a Natanael: “Salve Natanael! Eis um verdadeiro israelita, no qual não vejo nenhuma falsidade ou dolo!” Natanael diz: “Como me conheces e sabes de mim, se Felipe está me apresentando agora?!” Jesus responde: “Antes de Felipe me chamar, eu já te vi embaixo da figueira!” Não sabemos se Jesus viu Natanael fazer boa ou má coisa embaixo da figueira, mas o fato é que com essa resposta elegantíssima [e inalcançável para pais e magos dos dias de hoje], Natanael passou a respeitar Jesus. E Jesus lhe disse: “se me chamas rabi só porque já te vi embaixo da figueira, verás coisas muito maiores do que esta!” Será Jesus arrogante? No contexto, não. Até bem humorado, eu diria. 

Vamos a outro diálogo? Estamos no século IX d.C. A máquina do tempo girou para a frente. Um monge se dirige ao mestre Lin-chi [também grafado Linji, segundo questões fonéticas] e lhe pergunta: “Avalokiteshvara [o Boddhisatva da Compaixão Universal, “O Que Ouve as Dores do Mundo”] se apresenta com seus mil braços e um olho na palma de cada mão. Linji, qual é o Olho Central?!” É claro que o diálogo não foi feito exatamente assim. Consideremos o seguinte: naquela época, um monge fazia uma viagem a pé [ou no lombo de um animal], de dias, para indagar outro monge, que ele tivesse por mestre. Há toda uma expectativa e uma “peregrinatio” envolvida no diálogo que, em japonês, chamaríamos de “mondô”. O Koan é a frase-enigma, o diálogo é o “mondô”. Como estamos na China, e não no Japão, o mondô se chama wèn-dá. Prossigamos com o diálogo. 

“Avalokiteshvara de mil braços trás um olho em cada palma das mãos. Qual o olho central?!” 

Parece que este discípulo tinha algo como a necessidade de situar o fulcro da Rede de Indra. Linji, em silêncio, o pegou pelo braço e o alçou à Plataforma onde se sentavam os mestres. Perplexo, o discípulo ficou em silêncio. Linji reverenciou esse silêncio com um “gashô”, cumprimento Zen com as mãos postas, e depois, puxou o discípulo curioso demais ao seu devido lugar. 

Essa história assim contada por mim soa inverossímil, porque Linji era um cara mau humorado e que esbravejava com facilidade. Mas, por favor, adotemos essa versão Zen dessa história Ch’an [o nome que o Zen tem na China]. Linji alça o inquiridor ao seu posto, cumprimenta-o e o devolve ao seu lugar-de-pergunta: ao lugar da pergunta. Ele intercambia os lugares de “anfitrião” e “hóspede”: de quem recebe e de quem adentra o recinto, a Sala do Dharma, o local de preleção. Essa é uma não-resposta bastante eloquente. Ele mostra, com os gestos e o silêncio, o intercâmbio dos lugares dos nós da grande rede [nós em sentido lato e em sentido “comunitário”], ele permuta o lugar das “gemas”, tal como os olhos nas mãos de Avalokiteshvara. “Que tal olhares por meus olhos por um tempo?!” A coisa é muito mais complexa do que isso, naturalmente. Mas há algo legível logo “na entrada da situação”: no intercâmbio das posições entre hóspede e anfitrião, fica uma não-resposta que vale por muitas meias respostas.








Marcelo Novaes

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Nascer para o Alto ou "Eu sou a Verdade": um Comentário ao Cristianismo de Michel Henry





Tão certo quanto o leitor ao me ver à janela, saberá que eu não me exponho à janela, mas ao sol na janela, se prestar atenção a alguns detalhes [meus olhos fechados, para ficar num único exemplo], o texto de Michel Henry é seu próprio cumprimento: ele se revela. Seu método? Uma fenomenologia [uma valorização dos fenômenos] não preocupada com o “lá fora”, mas com o “cá dentro”: uma fenomenologia da subjetividade que é, por conseguinte, uma ontologia, como consequência necessária e incontornável de seu método. Sua filosofia do Cristianismo é uma fenomenologia da interioridade ou da subjetividade em seu sentido mais agudo. Com palavras minhas, que não repetem nem replicam as de Michel Henry, quero compartilhar minha leitura deste grande ensaio “Eu sou a Verdade: por uma Filosofia do Cristianismo”.

O modo de apresentação de Cristo por parte de Michel Henry, através de verdades fenomenológicas apodícticas [formalmente necessárias] é um modo poderoso que visa desvelar uma Verdade ali, ao cabo de uma sucessão de verdades, mas não como um teorema: mais do que “ao modo dos teoremas”, mas como um convite à interioridade. A primeira coisa que me cabe apontar ao leitor é que “aquele lugar para onde essa sucessão de verdades pode apontar só pode ser habitado por Jesus”, em todos os seus aspectos concretos, fenomenológicos: sua história, seu agir, suas palavras. Pois bem: pode ser habitado por Jesus e por nenhum outro. Ora, naturalmente que o lugar ocupado pelo leitor e por mim também assim o são, “únicos e intransferíveis”, não é verdade? A questão é um pouco mais profunda, amigo ou amiga. Vamos, então, àquele lugar que justifica a escolha do título do próprio livro: “Eu sou a Verdade – por uma Filosofia do Cristianismo”.  


Não há “nada de especial” no lugar a que se pretende chegar: ele é o ponto exato da emergência do humano, antes e aquém/além de biologismos e outros cientificismos das ciências “duras” [exatas] ou humanas. Ainda que este lugar se mostre como o ponto de emergência do humano, há uma guinada quando o humano toma consciência desse lugar originário: eis o que podemos chamar Graça, conversão, em contraponto à dispersão, diversionismos, bem como a todo o maquinário que pretenda simular a vida, falseando-a e esvaziando-a de si. Os termos aqui empregados não são os do Michel: apenas reapresento o que ali visitei, sem, no entanto, repeti-lo. Dar-se conta desse lugar é, também, ser encontrado pelo Sopro da Vida, e este é o lugar do verbo que Jesus sempre ocupa, com plena ciência de o estar ocupando, com plena autoconsciência de ocupá-lo, e não podendo descolar-se dele, por ali ser e habitar, habitar e ser, sendo-lhe, portanto, consubstancial. Aqui nós temos um critério que inclui muita coisa como corolário, sendo a não-hipocrisia [e a condenação da mesma] uma das manifestações possíveis de serem “detectadas”. Mas isso é menos importante do que “dar uma espiada no cá dentro/lá dentro” do que É Jesus. Ele é Sopro agindo e sendo o tempo todo, jamais se rendendo a qualquer simulacro, casca vazia, mera aparência ou “jejum como espetáculo”: a oração não é espetáculo, o jejum não o é. Essa possibilidade vivente de lá-estar, na “primeira dobra do ser originário”, sendo esta dobra a manifestação mesma da Vida, Deus e “Verdade-da-própria Vida quando vista-vivida- e ‘sida’-na-origem e desde a origem” é que faz de Jesus o Cristo: em sua condição, autoconsciência [ciência plena de assim sê-lo e, portanto, não podendo falsear-se], no gênero de suas declarações, no estilo de suas assertivas. Faz também dele plenamente humano, porque vivo e manifesto-agente na dobra do humano, neste mesmo ponto de inflexão que nos origina a cada um de nós, antes e além-aquém de qualquer biologismo ou cientifismo a tabelar essas manifestações da Vida, sem, no entanto, “poder tocá-la em si mesma”. Jesus a tocava “pelo lado de dentro”.

O que podemos dizer deste lugar? Seria o lugar de Filho da Vida-Deus, ciente de sê-lo, plenamente ciente e agente neste lugar específico e “comum”: agente e vivente porque essa plena ciência só pode se dar na autoexpressão e autorrevelação. Seu próprio ser-agir, apresentado aos humanos todos e, sobremaneira, aos que vislumbraram este lugar no convívio com ele, torna os humanos assim afetados como “co-conscientes de suas próprias condições de Filhos da Vida: filhos pelo Filho, através do Filho e com o Filho. Assim, Jesus não é só o pastor das ovelhas, o que seria o equivalente a um “mestre ético”, mas a porta mesma do redil onde ficam as ovelhas, conforme sua própria narrativa em João. O “passar pela porta” é um “tomar consciência de si neste lugar apontado pelo Filho” que equivale a um nascer de novo, um “nascer para o Alto” que é, ao mesmo tempo, um nascer na Fonte, da Fonte, na Origem e pela Origem, nascer este mediado pelo Filho, plenamente ciente deste lugar e condição.


Essa passagem pela porta, quando se dá, ilumina a Lei pelo lado de dentro, permitindo que se flagre os “jejuns de espetáculo”, as orações de espetáculo e se opte pela “prescrição do espetáculo”, quando se dá, então, certa “caducidade da Lei, em seus aspectos mais exteriores”, uma vez que, pelo amor e gratidão gerados sem tal lugar se desdobra a própria ética cristã, pelo menos em seu momento inaugural, revelada neste lugar de amor, perdão, misericórdia, acolhimento e copertença. Dito de outra maneira, cumpre-se a ética sem o artificialismo por tomá-la como um conjunto arbitrário de regras como que “dadas de fora”, uma vez que se enxerga uma ética a partir de dentro e mais: o tal lugar, por si mesmo, invalida e inviabiliza o “jejum como espetáculo” ou a validação da hipocrisia. A virtude da “travessia da porta do redil”, ao contrário vai se engendrando de dentro, a partir de dentro, pelo contato fulgurante com o ser-agir de Cristo, atemporal em seu fulgor e como Palavra Viva. E essa atemporalidade se daria, justamente, pelo lugar de onde ele fala e no qual ele Vive e É. À experiência de roçar este lugar poderíamos chamar “batismo no espírito”, descobrindo a própria condição de Filho no Filho e pelo Filho, com a consequente guinada nos valores e percepção. Uma “injeção de vida”, ainda que “estranha ao mundo” do lá fora, das mimeses, das falsificações, falseamento e falcatruas. Não duvido que Michel tenha vivido aquilo que narra.

Michel Henry desdobra seu primeiro livro sobre Cristo numa trilogia, onde aplica seu mesmo método de exploração fenomenológica, numa “fenomenologia da fenomenologia” ou “fenomenologia da vida”, como seu pensamento passou a ser conhecido. “Encarnação – por uma Filosofia da Carne” e Palavras de Cristo complementam [ou completam] este belo ensaio inaugural sobre o Cristianismo, “Eu sou a verdade”, o mais belo texto filosófico-laico que eu já li sobre o tema. Ainda mais instigante para aqueles que, perdidos nos labirintos de uma hiperintelectualidade urobórico-europeia, encontram dificuldades para encontrarem em si mesmos [por meio do Filho!] o “fio da vida”, ou “a água da vida”.





Marcelo Novaes


sábado, 18 de julho de 2015

Grau ou Circum-ambulação


Miguel Leal Machado





Vou analisar este pequeno poema meu, Grau, sob a égide da circum-ambulação e seus fins: nomeativos, designativos de “doenças e saúdes correlatas”, dentre outros possíveis fins. Este o tema deste ensaio. 


Grau 

Diga-me, agora, como experimentar 
nossas doenças por diversos ângulos 
[não se esqueça de me frisar “o 
como do como” experimentar 
cada um desses ângulos]. 

Como visibilizá-las [claro, antes de 
visualizá-las] e situá-las diante de 
tudo o mais. Explique-me, então, 
o que há de ser esse “tudo o mais”. 
[Depois de me mostrar seus invisíveis 
eixos-de-construção]. 

Fale-me, ainda, de cada porção de 
saúde correlativa a cada lesão. [Há 
de haver alguma]. E reflita sobre o 
esforço do homem em dar nome 
às coisas, em gesto inaugural. 

Utilize-se da História, da Filologia, 
da Antropologia ou da Semiótica; 
a Vida requer cem mil abordagens 
para uma aproximação [lenta e 
suave, ante e pré-universal], 
sílaba a sílaba, grau a grau. 

Rememore [e refaça, desde o 
primeiro homem] o nome de 
cada coisa. 

[E a coisa de cada nome]. 

 ..... 

Nesse artigo, quero olhar para um poema que diz algo difícil de nomear. Ele nem sequer o nomeia, mas alude à nomeação. Seu título, “grau”, sugere intensidades, e não “gêneros”. A primeira questão que fica é esta, então: seriam as tais intensidades, muitas vezes, substitutas dos gêneros por nomear? Nomear a doença é, em algum grau digno de nota, uma tarefa que mereça o nome de “terapêutica”? O sem-nome é algo que fica incrustado e pede por um nome, e desse assunto já tenho falado bastante, desde O Olho Que Nos Olha Nos Olhos. Mas aqui, valho-me deste texto, na tentativa de apreender “algum algo mais, sob novo ângulo”. Vou descobrir o quê, enquanto escrevo. É o melhor modo. “Diga-me, agora, como experimentar/ nossas doenças por diversos ângulos/ [não se esqueça de me frisar “o/ como do como” experimentar/ cada um desses ângulos].” Não se esqueça de enfatizar o “como do como”. 

Quando nos situamos diante de algo que nos chega, o que inclui pessoas, saúdes e doenças [em vários graus], a primeira coisa que sentimos é um “campo”. O “campo” antecede toda explicitação de gênero ou grau. O campo traz consigo [ou arrasta consigo, conforme o caso] o grau, certo tônus e certo quantum consigo. Mas é um “campo”. A presença puramente silenciosa, do monge que não deixa pegadas no papel de arroz, é coisa para Kwai Chan Kaine,o personagem de David Carradine na série televisiva Kung Fu. Nós deixamos pegadas e emitimos esse “campo” com nossa chegada. Mas somos “só nós” que o emitimos? Certamente não. Já falei da projeção em artigo anterior, no exame mais detido que fiz de outro texto mais extenso, Kadosh. Espera-se nas relações e, sobretudo, na relação terapêutica “a retirada das projeções”. A retirada das projeções é uma das faces da “separatio alquímica”, de nossa separação do outro, da definição do que é nosso e do que é “alteridade”: o que não provém de nós. Mas quando da chegada de algo, alguém, saúdes e doenças, é inevitável que projetemos muito de nosso. Já que citei Kwai Chang Kaine, esse memorável personagem, vou explorá-lo um pouco. Meus leitores mais jovens podem seguir os “não rastros” que ele deve ter deixado, nos You Tubes da vida e outros vídeos. O término de todo episódio dessa séria se dava com o personagem principal “seguindo viagem”, sem que soubéssemos para onde. A impressão que nos ficava é que “nem ele sabia para onde”. Isso é interessante. É um “On the Road”, o famigerado “pé na estrada” de Jack Kerouac exponenciado à estatura de um monge shaolin editado para a televisão. Difícil ganhar a concorrência penso eu. O comportamento de Kwai Chang kaine também trazia outras marcas, que só assinalo aqui: 1) quando confrontado, ele reagia com o mínimo de violência cabível no contexto: jogar ao chão, torcer um braço do oponente, algo do tipo. Não existe a não-violência, quando se é atacado, a não ser que não haja seriado e o herói morra no primeiro capítulo; 2) Kwai Chang Kaine parecia navegar conforme o vento, mesmo quando se deitava com alguma amante de ocasião, porque partia sem visgo, sem apego; mas ele não era um “Don Juan”, longe disso: não “atirava para acertar”, não armava ardis para conquistar ninguém; às vezes [e poucas vezes], acontecia. E só. Fiquemos com essas poucas características do personagem-monge, por enquanto. Mas algo interessante já podemos ver: embora eu apresentasse o personagem como que “na borda da ausência de campo” [o homem que não deixa pegadas...], eu delineei algo do campo deixado por ele, ou trazido com ele. Mesmo Kwai Chang Kaine deixa pegadas, malgrado todo o seu treinamento “monástico”. Nesse esboço, eu delineei algo do “como” o personagem surgia, agia e saía de cena. Algo. Um ângulo ou poucos ângulos a respeito. 

Se eu recorresse a outros amigos da época, agora cinquentões, eles trariam outras camadas de lembranças, ainda que, em essência, não nos desdisséssemos, provavelmente. E esse é outro dado interessante: “por que não nos desdiríamos, em essência?!” Essa suposição minha resistiria a qualquer experiência do “fazer memória” de outro espectador da mesma série? Penso não haver delírio algum nisso. 

Se eu perguntar a cem profundos conhecedores do trabalho de Sebastião Salgado o que suas fotografias dizem, ouvirei explanações diversificadas sobre as mesmas, mas essa mesma pluralidade de relatos me ajudará ame aproximar de “algo” a respeito do trabalho do fotógrafo. A esse processo de “andar em torno” do trabalho, a partir desses vários relatos [ou “ângulos” de ver o fotógrafo], podemos chamar de circum-ambulatio, ou “circum-ambulação”. Se o monge shaolin andou sem deixar pegadas, eu o circundei acima, tão sorrateiro quanto: girei em torno dele, pé ante pé. Circum-ambulação é o trabalho de circundar algo por diversos e variados ângulos. É um termo usado em psicoterapia analítica de base junguiana para descrever o trabalho de explorar um símbolo por vários ângulos. O retorno do símbolo no discurso analítico [seu reaparecimento, em novo ângulo, ou seu “giro” ao longo dos sonhos] viabiliza tal estilo de aproximação. A circum-ambulação, mais do que um termo técnico da análise junguiana é isso: um modo de aproximação de algo. Um dos “comos”. É um “modo de angular”, um modo de prover ângulos de observação que, juntos, viabilizam uma maior discriminação do que surge, como surge, quando surge, como vai, quando vai. Sem nenhuma presunção de “respostas últimas”, porque isso é para monges de verdade, assim como a retirada de “todas as projeções”. Vemos o mundo com cores que emprestamos ao mundo, em graus variados: ninguém vê o mundo sem lhe emprestar “qualquer tonalidade”, o tal Real com maiúscula: para fazê-lo o sujeito teria de ser um Iluminado, e nunca houve qualquer iluminado entre analistas. No mundo, algumas centenas, ao longo dos séculos, se tanto. Então, aqui como lá, no filme, na terapia, no poema, qualquer discurso “absolutista” ou “totalizador” é apenas isso: um discurso. O poema é provocador também nesse aspecto particular, e justamente por ele: pelo seu nível de exigência. 

Sabemos que uma montanha é uma montanha, antes da iluminação, e depois da iluminação. Isso é um provérbio conhecido entre os praticantes Zen. Durante intensos períodos de meditação, ficamos na dúvida... Pois bem, mas sabemos que um albino é um albino, por exemplo. E nenhum discurso sobre a vacuidade inerente das coisas nos fará não correr de um rinoceronte que nos persiga em meio à paisagem urbana, ainda que não se espere por rinocerontes num local assim. Talvez ele tenha fugido. Talvez o desequilíbrio ecossistêmico o tenha trazido para novas pradarias, próximo às padarias.Não importa: uma montanha, mesmo parada ali, é uma montanha. E tanto é que ela “chama alpinistas para escalá-la!” Veja que curioso! Se você perguntar a um alpinista por que faz tanta questão de escalar certa montanha, ele lhe dirá quatrocentas boas razões, todas sem sentido para você, caso escalar montanhas não faça parte de sua “lista de coisas a fazer antes de se despedir deste mundo”:1)que quer testar os limites dele; 2) que quer transpor os limites dele; 3) que quer se superar; 4) que quer vencer “o desafio de subir tal montanha” e inúmeras variáveis do tipo. Quem lhe coloca o desafio: a montanha? A linhagem de alpinistas vitoriosos? A linhagem de alpinistas que soçobraram, ou por terem desistido, ou por terem morrido ou sofrido acidentes graves durantes suas tentativas de fazer o mesmo? Afinal, quem é o autor do tal desafio? A própria montanha? Sua própria existência é um “pedido tácito [ou implícito] para que seja escalada?!” De qualquer maneira, a montanha, quietinha ali, cria um campo para várias pessoas diversas, o que inclui o montante dos alpinistas. Se alguém tiver de falar do Monte Kailash ou outro, levará em conta a opinião dos alpinistas a respeito; da mesma forma, no caso de Sebastião Salgado, a opinião de fotógrafos será levada em conta. A dos fotógrafos que gostam de trabalhar com os matizes branco-e-preto nas fotos, também. Em suma, para nós que estamos aquém [muito aquém] da Iluminação, a circum-ambulação não é perda de tempo, como não é perda de tempo escalar montanhas para os alpinistas. 

Prossigamos. O ideal não-de-todo-atingível para nós, na aproximação gradativa que fazemos de algo, alguém ou de um símbolo, é apreendermos a natureza do símbolo, do algo, do alguém. O quanto nos seja possível, em seus diversos ângulos. No par terapêutico, quando o sujeito em terapia [o analisando] deixa de projetar conteúdos seus no analista e no espaço analítico, a terapia foi concluída, e o sujeito pode sair do ambiente “mais inteiro”, ou “comportando mais de si mesmo em si mesmo”, assim como Kwai Chang Kaine leva consigo o que ele é, mesmo que saia só com aquela velha mochila. O sujeito saído da terapia sabe mais de si do que quando entrou, em muitos de seus ângulos e de seus “comos”. Não se espera que o sujeito que fez uma análise freudiana saia da terapia “convertido a Freud”, nem que o suejito que fez uma análise junguiana saia “convertido a Jung”: essas são “más terapias”, “más análises” que fracassaram em fazer o sujeito ver a si, e não ao “referencial de fundo do analista”. Se o sujeito vir e adotar o tal referencial de fundo ao ponto de uma “conversão ao referencial”, o referencial não estará tão ao fundo assim: terá tomado a frente do que deveria ser um trabalho de encontro e das retiradas de projeções do analisando nesse “campo do encontro”. 

Criamos campos o tempo todo: nos cafés, nos primeiros encontros, onde expectativas e “suposições” são mais ou menos visíveis ou até gritantes. Não no caso de sermos um Kwai Chang Kaine: no caso dele, as projeções foram muito minimizadas. Alguém me perguntará se tal retirada das projeções seria desejável em todos os casos: nos romances, por exemplo. Em grande medida sim, se o sujeito não quiser fazer amor consigo mesmo, tendo no outro só um objeto com que friccionar a própria pele. E no caso das musas nas artes? É claro que há idealização nesse fazer-arte, mas ficam os objetos que patenteiam tal momentum: vão-se as musas, ficam as músicas, por exemplo. Nada de mal nisso, concorda o amigo leitor? 

“Diga-me, agora, como experimentar/nossas doenças por diversos ângulos/ [não se esqueça de me frisar “o/como do como” experimentar/cada um desses ângulos]./Como visibilizá-las [claro, antes de/visualizá-las] e situá-las diante de/tudo o mais. Explique-me, então,/o que há de ser esse “tudo o mais”./[Depois de me mostrar seus invisíveis/eixos-de-construção].” Poesia não se explica, mas isso é um artigo [ou pequeno ensaio], a partir do texto poético. Em que situação a doença é o foco de nossas perguntas? Quando não nos sentimos bem. Isso também se dá na situação analítica. Não decidimos escalar a montanha porque “o analista está ali”, a não ser que isso seja um investimento para colher juros adiante, como em muitas análises didáticas que mantêm o prestígio [e os altos rendimentos] de certa instituições. Em não sendo para fins de investimento profissional, o sujeito vai ao analista porque precisa saber mais sobre si, e isso inclui sua doença, seu mal-estar. Mas não só. Cada doença ou mal-estar deverá ser contextualizado “em meio a tudo o mais”: o contexto, as relações, as muitas escolhas ou desistências havidas até então, satisfações, frustrações. Numa perspectiva demasiado macro, tudo isso pode parecer derrisório, risível. Mas essa é a matéria do humano antes do monge, antes de andar sem deixar pegada. Antes disso, há mais ou menos visgo. Citamos alguns possíveis: o visgo da adesão a uma doutrina analítica a fortiori [ou a priori], como pálido substitutivo para uma “religião-em-falta”; as paixões súbitas e viscosas desde o primeiro olhar, ou mesmo “no canto de olho”; o flerte com uma doutrina que me dará lucro adiante. Se falamos do “ser” e do “descobrir-se” isso não tem lugar. Nenhum palco montado para dar shows a terceiros, nem para gravar vídeos de si mesmo para assistir mais tarde. Saímos sem bagagem, quer sejamos ou não monges. Entramos na vida de mãos vazias e saímos dela com aprendizado, não com penduricalhos ou medalhas. O poema pede que o interlocutor ajude a explorar “nossas doenças” por diversos ângulos e explicar “o como do como” experimentar o “cada um desses ângulos”. Uma coisa importante a destacar é que a solicitação é coletiva: é um “nós” que solicita a resposta. Não se trata de um cortejo de mortos vindos de Jerusalém pedindo instruções, ou coisa que o valha, mas um pedido comum a todos e a cada um de nós: daí a primeira pessoa do plural. Não haverá Sete Sermões a instruírem tais mortos de Jerusalém para que saibam como se comportar depois da vida e o que esperar dela, mas apenas a solicitação comum de que saibamos nos aferir em nossas doenças, mas não só nelas. 

Nossas doenças são apontadas por todos. E não só nossas doenças: nossas diferenças são apontadas o tempo todo. Se aqui um albino é raro, na África é mais. Em ambos os lugares são apontados. Não podemos chamar a essa condição de “doença”, mas ela é apontada. Não nos atreveríamos a chamar os altos picos de “doenças,” mas podemos considerá-los “acidentes geográficos” [sic], e isso nos moveria [=a alguns de nós] a explorá-los. O mesmo se pode dizer de cavernas submarinas e outros elementos menos cotidianos. O menos cotidiano parece imantar dedos [e olhos] a apontá-los e nomeá-los. “Puxa, você tem idade para ser vovô e nunca quis ser pai?!” “Puxa, você tem tantas posses e folga no orçamento, mesmo assim nunca quis viajar para fora do país?!” “Puxa, você toca tão bem tal instrumento e nunca pensou numa carreira profissional?!” “Puxa, você nasceu num lugar paradisíaco, com lindas praias, e quer se mudar para uma cidade tão sem graça?!” “puxa, hoje em dia é tão fácil reparar tais orelhas de abano, não te ocorreu fazer uma cirurgia?!” Puxa, você raspa os pelos de sua orelha?!” Essa minha progressão de exclamações foi intencional, desci ao ridículo para deixar claro que a cada “interjeição suspirosa” [e o termo é pra ser engraçado, não há nada de suspirante aqui, mas de suspiroso mesmo...] o sujeito que emite a locução fala mais de si do que do outro. Invariavelmente. Ele fala: “eu não gostaria de conviver com essas orelhas de abano!” “Eu adoraria morar nessa cidade praiana!”“Eu viajaria para o exterior se tivesse recursos!”, etc, etc. Mas há algo comum a todas essas “assertivas”: elas n]ao só apontam para a escolha do outro como uma escolha “ilegítima” [!] e, o que é pior: suspoeitam que algumas dessas escolhas são pseudo-escolhas, más escolhas ou até mesmo “auto-sabotagens à guisa de escolhas” [!]. Se o outro não se incomoda com as marcas que traz de um acidente, ele deve ter sérios problemas! Veja o leitor que coisa curiosa. Seria quase como dizer: “se ela quase não tem seios e não faz cirurgia, mesmo podendo, no fundo ela rejeita seu corpo feminino e/ou sua feminilidade” [!]. Saúde não tem a ver com pasteurizações: pasteurizações são o “campo” da publicidade e não o “campo da saúde”, seja ela psíquica, psicoemocional ou psicofísica. Que isso fique claro. 

O nós, entretanto, é um “pedido coletivo”. Ele aponta para o “nós” mais comum a cada contexto cultural: a doença média socialmente aceita a que costumamos chamar “saúde”. Veja que a nossa cultura considera o narcisismo de se expor em games televisivos e confinamentos como “se gostar” e não “gostar de se exibir”. Assim, para cada contexto e cultura o “nós” será um sujeito coletivo mais ou menos (in)distinto. Essa ambiguidade é proposital. Um nariz enorme pode ser um grande problema para certo sujeito, até maior do que seu nariz. Para outro, pode mobilizá-lo a procurar outros com nariz tão grande quanto fazerem juntos uma companhia teatral, ou grupo musical, segundo o talento dos envolvidos, e batizar o grupo de “Os Napões”. 

“Diga-me, agora, como experimentar/nossas doenças por diversos ângulos/[não se esqueça de me frisar “o/como do como” experimentar/cada um desses ângulos]./Como visibilizá-las [claro, antes de/visualizá-las] e situá-las diante de/tudo o mais. Explique-me, então,/o que há de ser esse “tudo o mais”./[Depois de me mostrar seus invisíveis/eixos-de-construção].” Um eu faz ua pergunta sobre o “nós”. “Diga-me”, e não “diga-nos”. Esse é mais do que um detalhe. A pergunta, aqui, tem de ser feita no singular. Qualquer solução coletiva é pasteurização ou coletivização indevida, ainda que se refira ao “nós” como soma de indivíduos. Isso só poderia ser destacado depois do “nós” e em contraste com ele. Essa foi uma forma de tornar visível a questão do “eu”, dando-lhe “visibilidade por certo caminho”. Assim se pode fazer com tudo, ainda que alguns temas exijam uma destreza e perícia incomuns, no tocante ao feeling, no tocante ao faro. Tornar visível para que o “nós” possa visualizar. E é sempre o “eu” que visualiza antes do nós, seja no caso do fotógrafo, do analista, do historiador.A força inercial do grupo é isso mesmo: inercial. Ela é, antes de tudo, resistência, antes do que “insight” ou mudança. Isso se aplica a todos os grupos: famílias, instituições, Igrejas. O eu vê antes. “Diga-me”... Quem solicita as respostas parece estar disposto a comunicá-las ao “nós” ou, ao menos, estar ciente que sua questão refere-se “a cada eu que constitui o ‘nós’ em questão”. Não estamos diante de uma indagação ingênua. 

Há eixos de construção invisíveis às coisas que precisam se tornar visíveis: pressupostos, aforismos tomados como certos, premissas sociais compartilhadas, pressupostos linguísticos, tudo isso. Não falo só dos “arquétipos” junguianos, que são muito anteriores a Jung. É só pesquisarmos os arquétipos em Pseudo-Dioniso Areopagita, por exemplo. Ou em Proclo. Esses também são eixos-invisíveis-de-construção. As proporções numéricas subjacentes às coisas, tudo isso constitui o grupo aqui apresentado na indagação: os invisíveis eixos de construção. Na caracterologia afro-brasileira dos Orixás de cabeça, frente e ajunto, de cada indivíduo, temos outros eixos invisíveis [ou pré-visíveis] de construção das identidades. É sempre necessária a operação de tirar as Sombra [inclusive grupal] tais eixos para que o indivíduo saiba de si. E também de sua “doença”. Melhor dizendo: a partir de seu desconforto, o que inclui “todo o âmbito do que lhe foi apontado como doença ou diferença”. O menino tem mamilos proeminentes desde a infância, outro é baixo, comparativamente ao grupo, ou magro demais. Há “n” variáveis que só são doenças porque a sociedade é doente. Na medida em que pinçamos a Sombra cada questão, o entorno precisa ser delimitado ou nomeado. De uma forma ou de outra. Circum-ambulamos em torno para que cada coisa emirja em sua singularidade e particularidade em relação ao “nós”, o que também ilumina o “nós”, inclusive na possibilidade [mais á frente, porque o coletivo é inercial, como já dito] deste mesmo “nós” ser visto como a soma de eus. “

Mas a sociedade de hoje é ultra-individualista”, Marcelo. Não em relação ao que falamos.Há muitos eus ecoando lugares-comuns. Se pinçarmos quinze frases de efeito ou feitas, teremos 85% ou mais das falas que encontraremos em todos os nossos amigos do Face. É isso uma “soma de eus”? 

“Fale-me, ainda, de cada porção de/saúde correlativa a cada lesão. [Há/de haver alguma]. E reflita sobre o/esforço do homem em dar nome/às coisas, em gesto inaugural.” Se quem pergunta é um “eu”, ainda que sua pergunta seja extensiva ao nós, quem responde deve ser, necessariamente, um “eu”. Quem responde também é o indivíduo, não é o coro das peças gregas. É o sujeito. A pergunta pede pela “saúde correlativa à cada doença, sugerindo o [ou suplicando pelo!] fato de “ter de haver uma”. Aqui, voltamos à caracterologia em seu aspecto singular: as aptidões não se somam. Algumas virtudes, inclusive, se excluem, no mais das vezes. O loquaz polemista não é o mestre do silêncio. As qualidades de um combatente político não serão a do monge, salvo raríssimas exceções. Mesmo aí, limitações ou diferenças trazem ampliações de sensibilidades ou potenciais. Há cegos com uma captação de campo sonoro e posição correlativa de objetos e pessoas que nos soariam “mágica”, de tão precisos que são. Jogadores de futebol cegos o demonstram, sabendo se guiar pelo som da bola, e se posicionando dinamicamente em relação ao movimento de sues adversários. Há experimentos de jogadores assim jogando com não-cegos! Por isso, as tais saúdes correlativas às doenças são os pontos fortes que a cultura despreza, naquilo que não está apta a ver. Ou a família despreza. Ou a escola. Ou a Igreja. Ou a Universidade. Os grupos em sua cegueira grupal e inercial. Que seja restituído a cada “eu” que indaga, por cada “eu” interpelado, essa porção inequívoca que é de direito de cada um. A porção de saúde. Quem questiona, o “eu que quer saber do nós”, sugere saber do esforço necessário para dar nomes às coisas “ensombreadas e encobertas pela cultura”. Tais nomes, muitas vezes, são “inaugurais”. Não há preciosismo em cunhá-los: eles são produtos da necessidade de uma nomeação “suficientemente justa e precisa”. Suficientemente, já que tudo pode avançar, e nomes melhores podem ser “achados”, “pescados”, “configurados pelo eu falante”, na medida em que seu campo de “visibilização” é ampliado. O visualizado pós-visibilização ganha nuances, e as nuances atingem o campo semântico, fertilizando-o também. 

“Utilize-se da História, da Filologia,/da Antropologia ou da Semiótica;/a Vida requer cem mil abordagens/para uma aproximação [lenta e/suave, ante e pré-universal],/sílaba a sílaba, grau a grau.” Essa nomeação exige do nomeante a travessia cômoda das disciplinas estanques: não é uma atividade acadêmica [de especialistas], mas uma atividade Vital [de pensadores que, livremente, se indagam, sem as balizas pré-moldadas das disciplinas aceitas, frutos também da força inercial do grupo].Essa é a sugestão [ou “súplica”!] do eu falante e indagador, que sempre é um eu-sozinho, porque destacado da multidão, ou do grupo. 

“Rememore [e refaça, desde o/primeiro homem] o nome de/cada coisa./[E a coisa de cada nome].” Essa tarefa de dar nome às coisas acompanha o homem desde o início do mundo. É uma tarefa adâmica, herdada e sempre inconclusa. Nessa tarefa, eu incluí [e privilegiei] aquilo que “o coletivo ainda não conseguiu nomear”. É o indivíduo que deverá fazê-lo. 

A circum-ambulação é tão dinâmica como os movimentos planetários de rotação e translação. Os símbolos que retornam em nossos sonhos, em suas posições correlativas, trazendo novidades ou apontando ciclos e circuitos sazonais, bem como “razões de proporcionalidade fixas, segundo as posições do observador” [como no caso das paralaxes astronômicas] são só um sintoma disso. Um dentre tantos. 




 Marcelo Novaes

tato


observo o mundo
nada é do que jeito que sonhei
várias frustrações na bagagem
e ostras
sempre as ostras

junto com o frio da noite, veem a ressonância
do passado perdido
das horas idealizadas e
de tudo aquilo que nunca foi
ou das coisas que foram bem brevemente
como mariposas perdendo as
asas

no conluio da vida eu sou
aquele que espera
o que quase teve
e o que agoniza
com medo
do
fim.