Turquia

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terça-feira, 1 de março de 2016

Um Vislumbre de Jesus [A Glimpse of Jesus]



Ara Sassoonian






Depois de centenas de compassos na condução de uma orquestra, o maestro impetra um gesto que inaugura o silêncio. Por um tempo mínimo. Um sino é tocado em seguida, sem qualquer adorno. Uma semínima, dando sequência à música. Quero que o leitor esteja atento a esta nota, como estaria ao soar de uma tina de bronze ou sino num ritual religioso. Peço ao leitor que considere, ainda, o “tlin” de certos relógios antigos [os de pêndulo], nas horas redondas. Pensemos, ainda, na campainha que toca [um tlin também, embora outro], anunciando a chegada de alguém vindo de outra cidade, alguém muito querido. Talvez alguém com quem queiramos confidenciar muitas coisas havidas desde longo tempo de ausência, para ambos. Talvez alguém com quem queiramos nos reconciliar. 

Podemos nos perguntar, no dia a dia, se teríamos tais “toques de sino” presentes, se estaríamos presentes quando da sua ocorrência. Muitos de nós temos um plano de fundo de ruído que funciona como fator estressante subjacente ou como “ruído branco”, quando não temos zumbidos no ouvido, sons como o chiado de uma panela de pressão, cigarras, cachoeiras que só de quando em vez silenciam. O silêncio aqui seria o tal “toque de sino”, singular e presente pela suspensão do ruído. Alívio e/ou júbilo podem se sobrepor a essa vivência tão breve, que logo largamos de mão. No caso do ritual, talvez haja um momento de autolembrança. No caso da visita, uma alegre expectativa. No caso da reconciliação, o sentimento do “derretimento do coração”: a ternura, a queda de couraças e armadura. Tudo isso. 

Vou chamar a esse “tlin” de “glimpse”, até por eufonia e homofonia: soa como um toque de sino. O tal vislumbre ou insight na língua inglesa. Vislumbre é bom: soa como um súbito aparecer de uma luz ou som de algum lugar, dentro-fora. No caso da música, quão mais desconcertante e imprevisível ela seja em novidade, mais nos terá “alavancado” até o patamar alto de sua pausa coroada pela semínima. Acompanhamos a jornada toda com “movimentos internos”, cognitivos, proprioceptivos. No caso de distúrbios do ouvido interno ou do estresse, fica-nos óbvia nossa coparticipação no fenômeno. No caso da visita, estamos engajados no encontro. Tudo é dentro-fora, nessas circunstâncias de “toque de sino” ou da “pausa como toque de sino”: glimpses. Vislumbres, enfim. 

Se alguém perscruta Jesus nas escrituras, se esse alguém se permite auscultar sua própria leitura, esse momento pode surgir de quando em vez. Um reconhecimento da “voz” e de nosso movimento interno a essa “voz”. Há teólogos que procuraram a máxima aproximação possível com a “dicção” daquele que ali e então falava: a “Ipsissima Vox” de Jesus. Para quem procura essa reconstituição do idioleto de Jesus, a forma peculiar como ele se apossou da língua e gerou significado, um autor como Joachim Jeremias poderia ajudar, ao lado dos Evangelhos. De qualquer maneira, o sujeito em questão se depararia com a possibilidade [ou não] dos vislumbres dos toques de sino no tocante aos ditos de Jesus e essa fala “se tornaria atual para ele”, no sentido mesmo de tudo que colocamos acima: se atualizaria enquanto “momento” cognitivo-emocional, como momentum fenomenológico “rico”, rubricado, como a “fermata” na partitura musical: a pausa que emoldura a nota e/ou o silêncio consequente e subsequente. 

Quem lê assim os Evangelhos, não parte de teologias dogmáticas ou “inerrâncias bíblicas”, porque tais militâncias beligerantes são o que de pior as Igrejas construíram, o que também é distinto de dizer que “todo subjetivismo cabe naquilo que já está escrito”, falácia contumaz e repetida dos apologetas fáceis e temerosos de qualquer “conspurcação da Palavra”. Deixemos os temores para os teólogos confessionais comprometidos com seus confessionalismos. Quem procura pela fala de Jesus, ao contrário dos que compõem Teologias Sistemáticas, não parte de Deus como pressuposto, uma vez que Jesus se apresenta como “o que revela Deus”, portanto não se tem de ter um “a priori à própria fala do verbo”. Engraçado: quem ousasse supor de Deus sem o verbo dele não precisaria. Assim, pode-se focar nos textos onde Jesus fala deixando que ele mesmo remeta ao pai, em seus próprios termos que foram, em termos pessoais [não nacionais] e humanos [para todos os povos] inaugurais em seu todo: pelo continuum da fala, e não por uma ou outra associação episódica a textos da Antiga Escritura: a Lei e os Profetas. Caso se queira ir à Lei e/ou aos Profetas, que se deixe o próprio Jesus apontar as ocasiões para fazê-lo! Se se quer apor ou antepor à sua fala os desígnios do Pai para ele e nós, que se saiba que o Filho não é peça “inconsciente” nem “involuntária” no projeto teologicamente entendido como o Projeto de Salvação [a soteriologia] , e que, além de autoconsciente, é também “autodoado” a nós, por sua “livre escolha no relacionamento com Deus que faculta a nós por seu intermédio”. As igrejas criam obstáculos sem fim à primeira perscrutação dos que partem da absoluta incredulidade em relação a Jesus, mas com inclinação à sondagem do mesmo. Sobretudo as Igrejas que, nominalmente, aderem ao lema da “sola scriptura”, porque querem delimitar os eixos de busca de cada leitor. Exemplo: os Adventistas estão preocupadíssimos com o Apocalipse de João e suas possíveis concordâncias com Daniel, e fazem desse par [Apocalipse-Daniel, Daniel-Apocalipse] a centralidade de sua ansiosíssima espera pela segunda vinda de Cristo, junto com a preocupação de que o Papa institua um culto a si [ou ao Papado] que não seja a Deus ou a Cristo, com um afã monumental de alertar a qualquer um que esteja de sobreaviso junto a tal armadilha. Isso ao lado de sua intransigente defesa da observância do sábado [“bíblica”, dirão!, repetindo o mantra e impingindo a velha e mais-que-batida máxima da “hermenêutica circular” de que “só a Bíblia explica a própria Bíblia”, da forma mais literalista e fundamentalista que se possa cogitar], em cuja falta os “não-observantes estarão condenados”, afinal “quem não cumpre um til da Lei [ou “um Mandamento”], descumpre toda a Lei” [não é mesmo?], numa atitude que é pior do que legalista: é ultrafarisaica. Vejo as mesmíssimas pedras jogadas a Estêvão, quando os homens do sinédrio não toleraram a parte final do seu discurso [Atos dos Apóstolos, 7, 48-53]. 

O mesmo posso dizer para cada uma das confissões ditas “reformadas”, com seus dogmas prediletos, afugentando o leitor cético de qualquer aproximação livre a Jesus, sem pressupostos a não ser o de suas palavras mesmas. Pois bem, a partir disso, que o leitor consulte, segundo sua consciência e a inspiração do Espírito Santo ou Graça [que sempre será chamada de “astúcia do Inimigo”, a cada vez que tal caminho contrariar “o modelo de pavimentação preferido” de cada confissão da Cristandade Institucional, ou a letra fria da Palavra] estudos críticos-textuais da Bíblia, arqueológicos, paleontológicos, estudos de antropologia religiosa [as antropologias católica e protestante são antípodas ou complementares, segundo a bagagem de cada um], filósofos da religião, ou os autores que mais lhes digam à alma em seu “lugar e ponto na própria caminhada”, sem as bitolas e pressupostos tão vociferantemente impingidos e alardeados por cada uma dessas confissões militantes. Porque, partindo das palavras de Jesus e, somente a partir delas, podem-se alcançar as referências que pareçam pertinentes a cada buscador numa ampla gama de teólogos ou filósofos da religião, de Karl Barth a Emil Brunner, de Paul Tilich a Pierre Teilhard de Chardin, de Wolfhart Pannenberg a Oscar Cullmann, de Kierkegaard a Henry Michel, quais sejam as que surjam no horizonte-de-indagação de cada um. Por uma razão banal: ninguém é dono da pergunta alheia, e as perguntas são as mais variadas para as questões colocadas nos Evangelhos. Mas isso reforça a força de Jesus, longe de enfraquecê-lo, justamente porque as palavras de Cristo são demasiado singulares para poderem ter sido cogitadas e falseadas substancialmente, uma vez que os homens de então [e de agora] não possuíam [e não possuem, ainda que forcejem por fazê-lo, em suas tantas teologias] as categorias ontológicas e epistemológicas para criá-las. Jesus não poderia ser inventado simplesmente “porque está e permanece acima das categorias de pensar-e-ser-o-humano disponíveis para fazê-lo”, lá atrás como agora. Elas estavam indisponíveis e permaneceriam, sem sua própria fala. Ele tenta explicar a si e à sua vida, enquanto ilustra-a, vivendo-a. Isso é sua singularíssima natureza humano-divina. E isso é mais do que a soma das teologias e confissões, malgrado os protestos [já os entreouço!] em contrário. 







Marcelo Novaes

domingo, 8 de novembro de 2015

Prelúdio aos Vermelhos


Edvar Munch (1863-1944)







O preto imerso em preto não pode flagrar o preto. Há de surgir um vermelho contra o fundo preto: um algo que permita cogitá-lo [o preto], ou colocá-lo em perspectiva - o abrir da primeira fagulha. O primeiro fogo iluminado e delineando sombras humanas e ambientais: eis um momento da evocação dos contrastes, até por ampliação. As sombras surgem alongadas. A primeira lupa está dada, ainda que sob ela se enxergue mal. Há muito que rastrear agora, mesmo sem se mover. Rastrear é o verbo que quero enfatizar. “O inimigo sempre nos ronda”: eis uma imagem bíblica, recorrente. Pois aqui há quem “ronde essa ronda” e possa acompanhá-la, para contrabalançá-la. Há o sentinela que está atento aos espaços e aproximações, à luz e aos lapsos, aos trânsitos e transiências; atento às passagens. Há alguém capaz de sondar e farejar aproximações de humanos ou animais, alguém que ausculta os passos de quaisquer ameaças ou riscos iminentes. Os conceitos de “estranho” e “inimigo” também se veem circunscritos nesse perímetro. 

No lampejo de vermelho no breu, há um estado vígil de alerta. Prontidão e reatividade, elementos primais: (re)ação visando o (re)equilíbrio. O equilíbrio, a princípio, é pensado em relação ao grupo primário: os “próximos mais próximos”. Depois, quem sabe, pode-se ampliar o alcance dos envolvidos no conceito “grupo”, muito para além da família, embora ainda esperemos por isso. Somos muito instintivos. Há elementos de ansiedade no que acaba de ser descrito, neste tônus autoevidente de “(re)ação emergente”. Mas devo acrescentar uma nuance ao exposto: quando há “extremo foco na prontidão”, a “percepção da ansiedade é relativamente suprimida”. Eis a ocupação que não se preocupa. Chamamos a isso “coragem”. 

Passionalidade engloba ambas as coisas: medo e coragem. Só depois, pode advir alguma “frieza” na tarefa. Melhor dizendo: “a capacitação de controle da passionalidade via experiência, o que otimiza a função de ronda”. 

Voltemos à faísca. Esta pode estar a céu aberto, moldada como fogueira, ou na entrada d’alguma caverna. Homens, crianças, mulheres podem se agrupar em torno do fogo. Eis o “dado mínimo” para um acampamento ou um lar rústico. Alguém pode rastrear o perímetro cujo centro está definido em fogo ou foco ígneo. Esse alguém é mercurial, como o Hermes de pés alados da mitologia grega. E esse alguém tem “a mobilidade do metal líquido”, sendo este o sentido alquímico da expressão “mercurial”. E a fagulha, necessariamente, vem antes da metalurgia, mãe de tantas ciências físico-químicas, a partir das “ligas metálicas”. Confira-se o tema em Mircea Eliade, no livro “Ferreiros e Alquimistas”. A faísca, assim, é ponto de partida para muitas coisas, inclusive para 1) as “ciências especulativas” ou 2) os devaneios poéticos. Entenda-se, aqui: 1) a alquimia; 2)“a fenomenologia imagética dos elementos”, como proposta por Gaston Bachelard. 

Giremos, então, a faísca e coloquemo-la em movimento: a sirene abrindo caminho, seja ela das ambulâncias ou dos carros de bombeiro. Há também a da polícia. A tal sirene, em qualquer dos casos, alerta e adverte, deixando “em estado de prontidão” quem se posiciona à sua frente, quem obstrui o caminho. Também os alarmes sonoros soam vermelhos ao ouvido. Todos são “índices de urgência”. 

Como o fogo demarca um território, seja ele lar ou acampamento [e este é o “fogo centralizado”], o fogo pode correr e se alastrar, “comendo o que encontra pela frente”: o fogo sem comando. O fogo dos incêndios criminosos. O crime demarca a Lei, eis o paradoxo desse âmbito vermelho. E mais: o vermelho no semáforo define o trânsito e os cruzamentos. Em todos esses casos temos “o vermelho legislando”. Todos “sentimos” que há “algo de legislante” na sirene que pede passagem, como há algo de “alarmante” na queima de reservas florestais. Também nos incêndios urbanos, domésticos ou industriais. No espaço mais rústico-natural ou no mais aculturado encontramos espaço para essa função vermelha de abrir passagem, abrir caminho, frear, ou “limpar pelo fogo”. Da mesma forma que o fogo tem essa dupla função, o mesmo se pode dizer dos instrumentos de metal feitos para este mesmo fim: lanças, espadas, escudos. Estamos no âmbito do “fogo legislante” e do “vermelho-alarme”, contraposto ao “vermelho-focal”. Ambos demarcam um raio de ação, um perímetro de guarda ou vigilância e um “território a ser preservado ou defendido”. São fogos complementares. O avesso da moeda revela que “a moeda ainda permanece ali, intacta”. E o fogo é, também e em si mesmo, um elemento lábil: ora vigilante e centrado, ora “propalado”, “alastrado” - fogo em movimento. “O fogo que limpa, calcinando”. O risco vermelho retorna ao preto. 

Pois bem. Se, até aqui, vimos o fogo como elemento focal, raio de percurso, raio de segurança, raio de ronda e vigilância [o fogo como “faro”, “estado de alerta”, “prontidão” e “ronda”], passamos, por contiguidade imediata, à valência do fogo que denota “poder” e “controle”. O fogo que dorme na pedra e emerge por atrito. E quando tratamos do atrito, falamos, humanamente, de discussão e debate. Implicitamente, estamos tratando de “um enredo em direção à justiça”. A distribuição do fogo implica em “justiça distributiva”. Distribuir o fogo é como distribuir “a possibilidade de cozinhar o alimento”. Distribuir fogo é distribuir “mana” e há riscos implicados nessa distribuição, que apontam para déficits ou superávits: a “assimetria”, a “ganância”, a avareza, a miséria, seja ela entendida no âmbito de grupos pequenos, no campo social mais amplo ou, até mesmo, na assimetria da distribuição de ganhos e perdas desde o nascimento. Há um atrito aqui. Há um tom de “inquietação vermelha” que se questiona sobre a justiça no mundo. Esse vermelho não é uma sirene que pede passagem, é um “clamor” dirigido ao próprio coração da vida. Trata-se de um clamor por uma “regência justa”, lançado ao Estado ou a Deus: “salva meus irmãos, ó Altíssimo, ou risca meu nome do Livro da Vida”. O homem é justificado nesse santo combate com Deus. 

O fogo, tendo sido gerado no âmbito da faísca, precisa ser distribuído. “O rei é bom?” “O rei é justo?” “O rei é tirano?” “Não guardaram pra mim sequer um pedaço de frango do almoço”. Veja como a distribuição do mana soa vermelha: eis o âmbito da justiça distributiva. Há questões “imponderáveis” em relação ao tema: terremotos, tsunamis, tufões, secas. Mas podemos nos fixar nas questões ponderáveis: incêndios criminosos, atitudes imprudentes, boates sem extintor e superlotadas, usurpação de território, fraudes, e uma série de coisas que apontam para o fato iniludível e incontornável de que “alguém se apropriou do que não lhe era devido”. Enfim, de que “alguém roubou mana”: de dinheiro ou alimento ao solo que foi contaminado. Do registro de identidade ao “espaço de prestígio”. Há questões perfeitamente ponderáveis em meio ao quantum de imponderabilidade vigente neste mundo ou Vale de Lágrimas. Pensemos, então, sobre as tais variáveis perfeitamente ponderáveis e veremos o quanto elas têm a nos “alertar” a respeito de nossas “medidas de aferição”. Alguma calibragem parecerá se fazer necessária. 

No que diz respeito à justiça, há retóricas variadas, justas a seu próprio modo Algumas mais onitroantes, outras mais misericordiosas, cordiais. Há tantas faixas de justiça quanto são as nossas necessidades de justiça. Há vermelhos arroxeados e outros que tangenciam os marrons. Assim como há o exorcista e “aquele que se assenta em si mesmo, aparentado às montanhas”. Ambos são justos. Também a definição de um lugar no espectro parece ato bastante arrazoado ou razoável. Há outra inquietação menos absoluta, mas não menos inquieta. Trata-se pela aspiração à regularidade. Estamos ouvindo uma música cuja pulsação arbitramos nomeara como sendo de “doze pulsos por segundo”, só a título de exemplo. Mas algo esquisito acontece no undécimo minuto: passamos a ter seis pulsos no primeiro segundo, treze pulsos no segundo, dois no terceiro, sem qualquer previsão possível. Não só “estamos liberados para desaprovar a música”, como passamos a nos inquietar pela “impossibilidade de encontrarmos qualquer medida nessa escuta”, o que equivale a “não se poder aferir pulso algum nesse desmando sonoro”. Não há metrônomo que aguente. Nem nós. 

Não há o que “apalpar” nessa escuta. Aqui experimentamos outro estado de tensão, também “vermelho”, bem diferente da sirene ou do alarme. Não adianta tentar “abrir caminho”. A coisa é outra. Há um desconforto íntimo, biológico até, um desconforto biopsíquico pela “aleatoriedade que quebra qualquer possibilidade de expectativa justa ou ordenada”. A frase precisa ser relida com ritmo. Há um desconforto biopsíquico pela aleatoriedade que quebra qualquer possibilidade de expectativa de um fenômeno ordenado. É como uma arritmia cardíaca. É como o coração que parece precisar da regência de um marca-passo. Essa é uma das faces do “incômodo vermelho”: trata-se da inquietação pela quebra dos ritmos ou pulsos regulares, e mesmo da “regulação do que se esperaria ordenado”. Como se a Lei da Gravidade pudesse ser suspensa. Não há onde se apoiar. 

A quebra da ordem do pré-visível traz um desconforto específico, ligado à não-regra, à assimetria, à total “arbitrariedade dos fatos”. As duas inquietações são parentes. E os tons de vermelho tão nuançados [mesmo em seus extremos] que justificam todas as colorimetrias. 







Marcelo Novaes

sábado, 7 de novembro de 2015

Wèn-dá


Linji




“Imaginemos uma Teia que cubra todo o Universo, onde há nós infinitos, no cruzamento de seus infinitos fios, tecidos em justos paralelismos, tal qual uma grande rede de pesca, ou uma tela de reflexão multimodal. Em cada nó ou em cada um desses intercruzamentos, há uma pedra preciosa ou semipreciosa, que reflete todas as demais, segundo sua cor, brilho, grau de pureza e tônus específicos. Para cada uma que se olhe, ou a partir de cada uma, tem-se uma perspectiva angular do todo, como refletido pelas pedras que nessa se refletem. E é tudo o que se tem, porque o Todo, em si mesmo, é inapreensível, uma vez que, de qualquer posição particular que se adote ou tome, de qualquer perspectiva que se tenha como a mais adequada ou factível, nada se saberá de uma suposta posição central, nó, fulcro ou Pedra Angular, uma vez que a rede, e nossa posição nela, não nos permite apreendê-la a partir de seu Eixo-de-Construção. Isso é o que chamamos universo. Ou multiverso.” 

Vejamos uma coisa interessante exposta na imagem da Rede de Indra: a pessoalidade e impessoalidade estão co-implicadas. Assim, há uma coloração afetivo-imaginal para a “minha esquerda”, “minha direita”, “meu atrás”, “meu à frente”. Há, ainda, o meu “acima” e meu “abaixo”, que posso compartilhar com muitos. Mas se quero adotar coordenadas grupais assumo pontos “fixos” como coordenadas basilares: seja a estrela polar, seja Meca, seja Jerusalém, seja o Cruzeiro do Sul. Também assim criamos “grupos totêmicos”, e não só por aceitarmos um “ancestral comum”, seja zoomórfico ou não. Tanto faz. Todos virados para Meca em certos horários do dia formam um “clã”. Ou uma “egrégora”, como se gosta de dizer na linguagem ocultista. Brigas de clãs ou de egrégoras são como briga de bar ou demandas entre filhos e pais de santo: ocorrem nas melhores e piores famílias. Mas não deviam ocorrer, se tivéssemos amadurecido.  

Como as posições na Rede de Indra são correlativas, gostaria de saltar no tempo, para um tempinho ali atrás, logo atrás. Trata-se de um encontro entre Felipe, o apóstolo de Jesus, este [o próprio] e Natanael, no Evangelho segundo João, que reproduzo livremente, como é de meu estilo. João I, versículos 45-48. Vou contar a passagem, do meu jeito. Jesus acaba de chamar Felipe a segui-lo. Felipe, entusiasmado, diz a Natanael: “eis Jesus, de quem falam as Escrituras, nascido em Nazaré, filho de José, de quem te falei”. Natanael diz algo assim: “E pode vir algo que preste de Nazaré?!” Que beleza, hein? Imaginemos um Pai de Santo ou Mestre-Mago de hoje falando assim de seu “confrade”. Ou um dissidente de uma ideologia ou escola de pensamento falando assim ao Pai Fundador de sua escola. No mínimo, no mínimo, um processaria o outro! Mas Jesus é Jesus! Vamos lá, a essa “acolhida generosa” [talvez, até uma “provocação divertida” de Natanael a Jesus...], Jesus responde a Natanael: “Salve Natanael! Eis um verdadeiro israelita, no qual não vejo nenhuma falsidade ou dolo!” Natanael diz: “Como me conheces e sabes de mim, se Felipe está me apresentando agora?!” Jesus responde: “Antes de Felipe me chamar, eu já te vi embaixo da figueira!” Não sabemos se Jesus viu Natanael fazer boa ou má coisa embaixo da figueira, mas o fato é que com essa resposta elegantíssima [e inalcançável para pais e magos dos dias de hoje], Natanael passou a respeitar Jesus. E Jesus lhe disse: “se me chamas rabi só porque já te vi embaixo da figueira, verás coisas muito maiores do que esta!” Será Jesus arrogante? No contexto, não. Até bem humorado, eu diria. 

Vamos a outro diálogo? Estamos no século IX d.C. A máquina do tempo girou para a frente. Um monge se dirige ao mestre Lin-chi [também grafado Linji, segundo questões fonéticas] e lhe pergunta: “Avalokiteshvara [o Boddhisatva da Compaixão Universal, “O Que Ouve as Dores do Mundo”] se apresenta com seus mil braços e um olho na palma de cada mão. Linji, qual é o Olho Central?!” É claro que o diálogo não foi feito exatamente assim. Consideremos o seguinte: naquela época, um monge fazia uma viagem a pé [ou no lombo de um animal], de dias, para indagar outro monge, que ele tivesse por mestre. Há toda uma expectativa e uma “peregrinatio” envolvida no diálogo que, em japonês, chamaríamos de “mondô”. O Koan é a frase-enigma, o diálogo é o “mondô”. Como estamos na China, e não no Japão, o mondô se chama wèn-dá. Prossigamos com o diálogo. 

“Avalokiteshvara de mil braços trás um olho em cada palma das mãos. Qual o olho central?!” 

Parece que este discípulo tinha algo como a necessidade de situar o fulcro da Rede de Indra. Linji, em silêncio, o pegou pelo braço e o alçou à Plataforma onde se sentavam os mestres. Perplexo, o discípulo ficou em silêncio. Linji reverenciou esse silêncio com um “gashô”, cumprimento Zen com as mãos postas, e depois, puxou o discípulo curioso demais ao seu devido lugar. 

Essa história assim contada por mim soa inverossímil, porque Linji era um cara mau humorado e que esbravejava com facilidade. Mas, por favor, adotemos essa versão Zen dessa história Ch’an [o nome que o Zen tem na China]. Linji alça o inquiridor ao seu posto, cumprimenta-o e o devolve ao seu lugar-de-pergunta: ao lugar da pergunta. Ele intercambia os lugares de “anfitrião” e “hóspede”: de quem recebe e de quem adentra o recinto, a Sala do Dharma, o local de preleção. Essa é uma não-resposta bastante eloquente. Ele mostra, com os gestos e o silêncio, o intercâmbio dos lugares dos nós da grande rede [nós em sentido lato e em sentido “comunitário”], ele permuta o lugar das “gemas”, tal como os olhos nas mãos de Avalokiteshvara. “Que tal olhares por meus olhos por um tempo?!” A coisa é muito mais complexa do que isso, naturalmente. Mas há algo legível logo “na entrada da situação”: no intercâmbio das posições entre hóspede e anfitrião, fica uma não-resposta que vale por muitas meias respostas.








Marcelo Novaes

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Nascer para o Alto ou "Eu sou a Verdade": um Comentário ao Cristianismo de Michel Henry





Tão certo quanto o leitor ao me ver à janela, saberá que eu não me exponho à janela, mas ao sol na janela, se prestar atenção a alguns detalhes [meus olhos fechados, para ficar num único exemplo], o texto de Michel Henry é seu próprio cumprimento: ele se revela. Seu método? Uma fenomenologia [uma valorização dos fenômenos] não preocupada com o “lá fora”, mas com o “cá dentro”: uma fenomenologia da subjetividade que é, por conseguinte, uma ontologia, como consequência necessária e incontornável de seu método. Sua filosofia do Cristianismo é uma fenomenologia da interioridade ou da subjetividade em seu sentido mais agudo. Com palavras minhas, que não repetem nem replicam as de Michel Henry, quero compartilhar minha leitura deste grande ensaio “Eu sou a Verdade: por uma Filosofia do Cristianismo”.

O modo de apresentação de Cristo por parte de Michel Henry, através de verdades fenomenológicas apodícticas [formalmente necessárias] é um modo poderoso que visa desvelar uma Verdade ali, ao cabo de uma sucessão de verdades, mas não como um teorema: mais do que “ao modo dos teoremas”, mas como um convite à interioridade. A primeira coisa que me cabe apontar ao leitor é que “aquele lugar para onde essa sucessão de verdades pode apontar só pode ser habitado por Jesus”, em todos os seus aspectos concretos, fenomenológicos: sua história, seu agir, suas palavras. Pois bem: pode ser habitado por Jesus e por nenhum outro. Ora, naturalmente que o lugar ocupado pelo leitor e por mim também assim o são, “únicos e intransferíveis”, não é verdade? A questão é um pouco mais profunda, amigo ou amiga. Vamos, então, àquele lugar que justifica a escolha do título do próprio livro: “Eu sou a Verdade – por uma Filosofia do Cristianismo”.  


Não há “nada de especial” no lugar a que se pretende chegar: ele é o ponto exato da emergência do humano, antes e aquém/além de biologismos e outros cientificismos das ciências “duras” [exatas] ou humanas. Ainda que este lugar se mostre como o ponto de emergência do humano, há uma guinada quando o humano toma consciência desse lugar originário: eis o que podemos chamar Graça, conversão, em contraponto à dispersão, diversionismos, bem como a todo o maquinário que pretenda simular a vida, falseando-a e esvaziando-a de si. Os termos aqui empregados não são os do Michel: apenas reapresento o que ali visitei, sem, no entanto, repeti-lo. Dar-se conta desse lugar é, também, ser encontrado pelo Sopro da Vida, e este é o lugar do verbo que Jesus sempre ocupa, com plena ciência de o estar ocupando, com plena autoconsciência de ocupá-lo, e não podendo descolar-se dele, por ali ser e habitar, habitar e ser, sendo-lhe, portanto, consubstancial. Aqui nós temos um critério que inclui muita coisa como corolário, sendo a não-hipocrisia [e a condenação da mesma] uma das manifestações possíveis de serem “detectadas”. Mas isso é menos importante do que “dar uma espiada no cá dentro/lá dentro” do que É Jesus. Ele é Sopro agindo e sendo o tempo todo, jamais se rendendo a qualquer simulacro, casca vazia, mera aparência ou “jejum como espetáculo”: a oração não é espetáculo, o jejum não o é. Essa possibilidade vivente de lá-estar, na “primeira dobra do ser originário”, sendo esta dobra a manifestação mesma da Vida, Deus e “Verdade-da-própria Vida quando vista-vivida- e ‘sida’-na-origem e desde a origem” é que faz de Jesus o Cristo: em sua condição, autoconsciência [ciência plena de assim sê-lo e, portanto, não podendo falsear-se], no gênero de suas declarações, no estilo de suas assertivas. Faz também dele plenamente humano, porque vivo e manifesto-agente na dobra do humano, neste mesmo ponto de inflexão que nos origina a cada um de nós, antes e além-aquém de qualquer biologismo ou cientifismo a tabelar essas manifestações da Vida, sem, no entanto, “poder tocá-la em si mesma”. Jesus a tocava “pelo lado de dentro”.

O que podemos dizer deste lugar? Seria o lugar de Filho da Vida-Deus, ciente de sê-lo, plenamente ciente e agente neste lugar específico e “comum”: agente e vivente porque essa plena ciência só pode se dar na autoexpressão e autorrevelação. Seu próprio ser-agir, apresentado aos humanos todos e, sobremaneira, aos que vislumbraram este lugar no convívio com ele, torna os humanos assim afetados como “co-conscientes de suas próprias condições de Filhos da Vida: filhos pelo Filho, através do Filho e com o Filho. Assim, Jesus não é só o pastor das ovelhas, o que seria o equivalente a um “mestre ético”, mas a porta mesma do redil onde ficam as ovelhas, conforme sua própria narrativa em João. O “passar pela porta” é um “tomar consciência de si neste lugar apontado pelo Filho” que equivale a um nascer de novo, um “nascer para o Alto” que é, ao mesmo tempo, um nascer na Fonte, da Fonte, na Origem e pela Origem, nascer este mediado pelo Filho, plenamente ciente deste lugar e condição.


Essa passagem pela porta, quando se dá, ilumina a Lei pelo lado de dentro, permitindo que se flagre os “jejuns de espetáculo”, as orações de espetáculo e se opte pela “prescrição do espetáculo”, quando se dá, então, certa “caducidade da Lei, em seus aspectos mais exteriores”, uma vez que, pelo amor e gratidão gerados sem tal lugar se desdobra a própria ética cristã, pelo menos em seu momento inaugural, revelada neste lugar de amor, perdão, misericórdia, acolhimento e copertença. Dito de outra maneira, cumpre-se a ética sem o artificialismo por tomá-la como um conjunto arbitrário de regras como que “dadas de fora”, uma vez que se enxerga uma ética a partir de dentro e mais: o tal lugar, por si mesmo, invalida e inviabiliza o “jejum como espetáculo” ou a validação da hipocrisia. A virtude da “travessia da porta do redil”, ao contrário vai se engendrando de dentro, a partir de dentro, pelo contato fulgurante com o ser-agir de Cristo, atemporal em seu fulgor e como Palavra Viva. E essa atemporalidade se daria, justamente, pelo lugar de onde ele fala e no qual ele Vive e É. À experiência de roçar este lugar poderíamos chamar “batismo no espírito”, descobrindo a própria condição de Filho no Filho e pelo Filho, com a consequente guinada nos valores e percepção. Uma “injeção de vida”, ainda que “estranha ao mundo” do lá fora, das mimeses, das falsificações, falseamento e falcatruas. Não duvido que Michel tenha vivido aquilo que narra.

Michel Henry desdobra seu primeiro livro sobre Cristo numa trilogia, onde aplica seu mesmo método de exploração fenomenológica, numa “fenomenologia da fenomenologia” ou “fenomenologia da vida”, como seu pensamento passou a ser conhecido. “Encarnação – por uma Filosofia da Carne” e Palavras de Cristo complementam [ou completam] este belo ensaio inaugural sobre o Cristianismo, “Eu sou a verdade”, o mais belo texto filosófico-laico que eu já li sobre o tema. Ainda mais instigante para aqueles que, perdidos nos labirintos de uma hiperintelectualidade urobórico-europeia, encontram dificuldades para encontrarem em si mesmos [por meio do Filho!] o “fio da vida”, ou “a água da vida”.





Marcelo Novaes


sábado, 18 de julho de 2015

Grau ou Circum-ambulação


Miguel Leal Machado





Vou analisar este pequeno poema meu, Grau, sob a égide da circum-ambulação e seus fins: nomeativos, designativos de “doenças e saúdes correlatas”, dentre outros possíveis fins. Este o tema deste ensaio. 


Grau 

Diga-me, agora, como experimentar 
nossas doenças por diversos ângulos 
[não se esqueça de me frisar “o 
como do como” experimentar 
cada um desses ângulos]. 

Como visibilizá-las [claro, antes de 
visualizá-las] e situá-las diante de 
tudo o mais. Explique-me, então, 
o que há de ser esse “tudo o mais”. 
[Depois de me mostrar seus invisíveis 
eixos-de-construção]. 

Fale-me, ainda, de cada porção de 
saúde correlativa a cada lesão. [Há 
de haver alguma]. E reflita sobre o 
esforço do homem em dar nome 
às coisas, em gesto inaugural. 

Utilize-se da História, da Filologia, 
da Antropologia ou da Semiótica; 
a Vida requer cem mil abordagens 
para uma aproximação [lenta e 
suave, ante e pré-universal], 
sílaba a sílaba, grau a grau. 

Rememore [e refaça, desde o 
primeiro homem] o nome de 
cada coisa. 

[E a coisa de cada nome]. 

 ..... 

Nesse artigo, quero olhar para um poema que diz algo difícil de nomear. Ele nem sequer o nomeia, mas alude à nomeação. Seu título, “grau”, sugere intensidades, e não “gêneros”. A primeira questão que fica é esta, então: seriam as tais intensidades, muitas vezes, substitutas dos gêneros por nomear? Nomear a doença é, em algum grau digno de nota, uma tarefa que mereça o nome de “terapêutica”? O sem-nome é algo que fica incrustado e pede por um nome, e desse assunto já tenho falado bastante, desde O Olho Que Nos Olha Nos Olhos. Mas aqui, valho-me deste texto, na tentativa de apreender “algum algo mais, sob novo ângulo”. Vou descobrir o quê, enquanto escrevo. É o melhor modo. “Diga-me, agora, como experimentar/ nossas doenças por diversos ângulos/ [não se esqueça de me frisar “o/ como do como” experimentar/ cada um desses ângulos].” Não se esqueça de enfatizar o “como do como”. 

Quando nos situamos diante de algo que nos chega, o que inclui pessoas, saúdes e doenças [em vários graus], a primeira coisa que sentimos é um “campo”. O “campo” antecede toda explicitação de gênero ou grau. O campo traz consigo [ou arrasta consigo, conforme o caso] o grau, certo tônus e certo quantum consigo. Mas é um “campo”. A presença puramente silenciosa, do monge que não deixa pegadas no papel de arroz, é coisa para Kwai Chan Kaine,o personagem de David Carradine na série televisiva Kung Fu. Nós deixamos pegadas e emitimos esse “campo” com nossa chegada. Mas somos “só nós” que o emitimos? Certamente não. Já falei da projeção em artigo anterior, no exame mais detido que fiz de outro texto mais extenso, Kadosh. Espera-se nas relações e, sobretudo, na relação terapêutica “a retirada das projeções”. A retirada das projeções é uma das faces da “separatio alquímica”, de nossa separação do outro, da definição do que é nosso e do que é “alteridade”: o que não provém de nós. Mas quando da chegada de algo, alguém, saúdes e doenças, é inevitável que projetemos muito de nosso. Já que citei Kwai Chang Kaine, esse memorável personagem, vou explorá-lo um pouco. Meus leitores mais jovens podem seguir os “não rastros” que ele deve ter deixado, nos You Tubes da vida e outros vídeos. O término de todo episódio dessa séria se dava com o personagem principal “seguindo viagem”, sem que soubéssemos para onde. A impressão que nos ficava é que “nem ele sabia para onde”. Isso é interessante. É um “On the Road”, o famigerado “pé na estrada” de Jack Kerouac exponenciado à estatura de um monge shaolin editado para a televisão. Difícil ganhar a concorrência penso eu. O comportamento de Kwai Chang kaine também trazia outras marcas, que só assinalo aqui: 1) quando confrontado, ele reagia com o mínimo de violência cabível no contexto: jogar ao chão, torcer um braço do oponente, algo do tipo. Não existe a não-violência, quando se é atacado, a não ser que não haja seriado e o herói morra no primeiro capítulo; 2) Kwai Chang Kaine parecia navegar conforme o vento, mesmo quando se deitava com alguma amante de ocasião, porque partia sem visgo, sem apego; mas ele não era um “Don Juan”, longe disso: não “atirava para acertar”, não armava ardis para conquistar ninguém; às vezes [e poucas vezes], acontecia. E só. Fiquemos com essas poucas características do personagem-monge, por enquanto. Mas algo interessante já podemos ver: embora eu apresentasse o personagem como que “na borda da ausência de campo” [o homem que não deixa pegadas...], eu delineei algo do campo deixado por ele, ou trazido com ele. Mesmo Kwai Chang Kaine deixa pegadas, malgrado todo o seu treinamento “monástico”. Nesse esboço, eu delineei algo do “como” o personagem surgia, agia e saía de cena. Algo. Um ângulo ou poucos ângulos a respeito. 

Se eu recorresse a outros amigos da época, agora cinquentões, eles trariam outras camadas de lembranças, ainda que, em essência, não nos desdisséssemos, provavelmente. E esse é outro dado interessante: “por que não nos desdiríamos, em essência?!” Essa suposição minha resistiria a qualquer experiência do “fazer memória” de outro espectador da mesma série? Penso não haver delírio algum nisso. 

Se eu perguntar a cem profundos conhecedores do trabalho de Sebastião Salgado o que suas fotografias dizem, ouvirei explanações diversificadas sobre as mesmas, mas essa mesma pluralidade de relatos me ajudará ame aproximar de “algo” a respeito do trabalho do fotógrafo. A esse processo de “andar em torno” do trabalho, a partir desses vários relatos [ou “ângulos” de ver o fotógrafo], podemos chamar de circum-ambulatio, ou “circum-ambulação”. Se o monge shaolin andou sem deixar pegadas, eu o circundei acima, tão sorrateiro quanto: girei em torno dele, pé ante pé. Circum-ambulação é o trabalho de circundar algo por diversos e variados ângulos. É um termo usado em psicoterapia analítica de base junguiana para descrever o trabalho de explorar um símbolo por vários ângulos. O retorno do símbolo no discurso analítico [seu reaparecimento, em novo ângulo, ou seu “giro” ao longo dos sonhos] viabiliza tal estilo de aproximação. A circum-ambulação, mais do que um termo técnico da análise junguiana é isso: um modo de aproximação de algo. Um dos “comos”. É um “modo de angular”, um modo de prover ângulos de observação que, juntos, viabilizam uma maior discriminação do que surge, como surge, quando surge, como vai, quando vai. Sem nenhuma presunção de “respostas últimas”, porque isso é para monges de verdade, assim como a retirada de “todas as projeções”. Vemos o mundo com cores que emprestamos ao mundo, em graus variados: ninguém vê o mundo sem lhe emprestar “qualquer tonalidade”, o tal Real com maiúscula: para fazê-lo o sujeito teria de ser um Iluminado, e nunca houve qualquer iluminado entre analistas. No mundo, algumas centenas, ao longo dos séculos, se tanto. Então, aqui como lá, no filme, na terapia, no poema, qualquer discurso “absolutista” ou “totalizador” é apenas isso: um discurso. O poema é provocador também nesse aspecto particular, e justamente por ele: pelo seu nível de exigência. 

Sabemos que uma montanha é uma montanha, antes da iluminação, e depois da iluminação. Isso é um provérbio conhecido entre os praticantes Zen. Durante intensos períodos de meditação, ficamos na dúvida... Pois bem, mas sabemos que um albino é um albino, por exemplo. E nenhum discurso sobre a vacuidade inerente das coisas nos fará não correr de um rinoceronte que nos persiga em meio à paisagem urbana, ainda que não se espere por rinocerontes num local assim. Talvez ele tenha fugido. Talvez o desequilíbrio ecossistêmico o tenha trazido para novas pradarias, próximo às padarias.Não importa: uma montanha, mesmo parada ali, é uma montanha. E tanto é que ela “chama alpinistas para escalá-la!” Veja que curioso! Se você perguntar a um alpinista por que faz tanta questão de escalar certa montanha, ele lhe dirá quatrocentas boas razões, todas sem sentido para você, caso escalar montanhas não faça parte de sua “lista de coisas a fazer antes de se despedir deste mundo”:1)que quer testar os limites dele; 2) que quer transpor os limites dele; 3) que quer se superar; 4) que quer vencer “o desafio de subir tal montanha” e inúmeras variáveis do tipo. Quem lhe coloca o desafio: a montanha? A linhagem de alpinistas vitoriosos? A linhagem de alpinistas que soçobraram, ou por terem desistido, ou por terem morrido ou sofrido acidentes graves durantes suas tentativas de fazer o mesmo? Afinal, quem é o autor do tal desafio? A própria montanha? Sua própria existência é um “pedido tácito [ou implícito] para que seja escalada?!” De qualquer maneira, a montanha, quietinha ali, cria um campo para várias pessoas diversas, o que inclui o montante dos alpinistas. Se alguém tiver de falar do Monte Kailash ou outro, levará em conta a opinião dos alpinistas a respeito; da mesma forma, no caso de Sebastião Salgado, a opinião de fotógrafos será levada em conta. A dos fotógrafos que gostam de trabalhar com os matizes branco-e-preto nas fotos, também. Em suma, para nós que estamos aquém [muito aquém] da Iluminação, a circum-ambulação não é perda de tempo, como não é perda de tempo escalar montanhas para os alpinistas. 

Prossigamos. O ideal não-de-todo-atingível para nós, na aproximação gradativa que fazemos de algo, alguém ou de um símbolo, é apreendermos a natureza do símbolo, do algo, do alguém. O quanto nos seja possível, em seus diversos ângulos. No par terapêutico, quando o sujeito em terapia [o analisando] deixa de projetar conteúdos seus no analista e no espaço analítico, a terapia foi concluída, e o sujeito pode sair do ambiente “mais inteiro”, ou “comportando mais de si mesmo em si mesmo”, assim como Kwai Chang Kaine leva consigo o que ele é, mesmo que saia só com aquela velha mochila. O sujeito saído da terapia sabe mais de si do que quando entrou, em muitos de seus ângulos e de seus “comos”. Não se espera que o sujeito que fez uma análise freudiana saia da terapia “convertido a Freud”, nem que o suejito que fez uma análise junguiana saia “convertido a Jung”: essas são “más terapias”, “más análises” que fracassaram em fazer o sujeito ver a si, e não ao “referencial de fundo do analista”. Se o sujeito vir e adotar o tal referencial de fundo ao ponto de uma “conversão ao referencial”, o referencial não estará tão ao fundo assim: terá tomado a frente do que deveria ser um trabalho de encontro e das retiradas de projeções do analisando nesse “campo do encontro”. 

Criamos campos o tempo todo: nos cafés, nos primeiros encontros, onde expectativas e “suposições” são mais ou menos visíveis ou até gritantes. Não no caso de sermos um Kwai Chang Kaine: no caso dele, as projeções foram muito minimizadas. Alguém me perguntará se tal retirada das projeções seria desejável em todos os casos: nos romances, por exemplo. Em grande medida sim, se o sujeito não quiser fazer amor consigo mesmo, tendo no outro só um objeto com que friccionar a própria pele. E no caso das musas nas artes? É claro que há idealização nesse fazer-arte, mas ficam os objetos que patenteiam tal momentum: vão-se as musas, ficam as músicas, por exemplo. Nada de mal nisso, concorda o amigo leitor? 

“Diga-me, agora, como experimentar/nossas doenças por diversos ângulos/ [não se esqueça de me frisar “o/como do como” experimentar/cada um desses ângulos]./Como visibilizá-las [claro, antes de/visualizá-las] e situá-las diante de/tudo o mais. Explique-me, então,/o que há de ser esse “tudo o mais”./[Depois de me mostrar seus invisíveis/eixos-de-construção].” Poesia não se explica, mas isso é um artigo [ou pequeno ensaio], a partir do texto poético. Em que situação a doença é o foco de nossas perguntas? Quando não nos sentimos bem. Isso também se dá na situação analítica. Não decidimos escalar a montanha porque “o analista está ali”, a não ser que isso seja um investimento para colher juros adiante, como em muitas análises didáticas que mantêm o prestígio [e os altos rendimentos] de certa instituições. Em não sendo para fins de investimento profissional, o sujeito vai ao analista porque precisa saber mais sobre si, e isso inclui sua doença, seu mal-estar. Mas não só. Cada doença ou mal-estar deverá ser contextualizado “em meio a tudo o mais”: o contexto, as relações, as muitas escolhas ou desistências havidas até então, satisfações, frustrações. Numa perspectiva demasiado macro, tudo isso pode parecer derrisório, risível. Mas essa é a matéria do humano antes do monge, antes de andar sem deixar pegada. Antes disso, há mais ou menos visgo. Citamos alguns possíveis: o visgo da adesão a uma doutrina analítica a fortiori [ou a priori], como pálido substitutivo para uma “religião-em-falta”; as paixões súbitas e viscosas desde o primeiro olhar, ou mesmo “no canto de olho”; o flerte com uma doutrina que me dará lucro adiante. Se falamos do “ser” e do “descobrir-se” isso não tem lugar. Nenhum palco montado para dar shows a terceiros, nem para gravar vídeos de si mesmo para assistir mais tarde. Saímos sem bagagem, quer sejamos ou não monges. Entramos na vida de mãos vazias e saímos dela com aprendizado, não com penduricalhos ou medalhas. O poema pede que o interlocutor ajude a explorar “nossas doenças” por diversos ângulos e explicar “o como do como” experimentar o “cada um desses ângulos”. Uma coisa importante a destacar é que a solicitação é coletiva: é um “nós” que solicita a resposta. Não se trata de um cortejo de mortos vindos de Jerusalém pedindo instruções, ou coisa que o valha, mas um pedido comum a todos e a cada um de nós: daí a primeira pessoa do plural. Não haverá Sete Sermões a instruírem tais mortos de Jerusalém para que saibam como se comportar depois da vida e o que esperar dela, mas apenas a solicitação comum de que saibamos nos aferir em nossas doenças, mas não só nelas. 

Nossas doenças são apontadas por todos. E não só nossas doenças: nossas diferenças são apontadas o tempo todo. Se aqui um albino é raro, na África é mais. Em ambos os lugares são apontados. Não podemos chamar a essa condição de “doença”, mas ela é apontada. Não nos atreveríamos a chamar os altos picos de “doenças,” mas podemos considerá-los “acidentes geográficos” [sic], e isso nos moveria [=a alguns de nós] a explorá-los. O mesmo se pode dizer de cavernas submarinas e outros elementos menos cotidianos. O menos cotidiano parece imantar dedos [e olhos] a apontá-los e nomeá-los. “Puxa, você tem idade para ser vovô e nunca quis ser pai?!” “Puxa, você tem tantas posses e folga no orçamento, mesmo assim nunca quis viajar para fora do país?!” “Puxa, você toca tão bem tal instrumento e nunca pensou numa carreira profissional?!” “Puxa, você nasceu num lugar paradisíaco, com lindas praias, e quer se mudar para uma cidade tão sem graça?!” “puxa, hoje em dia é tão fácil reparar tais orelhas de abano, não te ocorreu fazer uma cirurgia?!” Puxa, você raspa os pelos de sua orelha?!” Essa minha progressão de exclamações foi intencional, desci ao ridículo para deixar claro que a cada “interjeição suspirosa” [e o termo é pra ser engraçado, não há nada de suspirante aqui, mas de suspiroso mesmo...] o sujeito que emite a locução fala mais de si do que do outro. Invariavelmente. Ele fala: “eu não gostaria de conviver com essas orelhas de abano!” “Eu adoraria morar nessa cidade praiana!”“Eu viajaria para o exterior se tivesse recursos!”, etc, etc. Mas há algo comum a todas essas “assertivas”: elas n]ao só apontam para a escolha do outro como uma escolha “ilegítima” [!] e, o que é pior: suspoeitam que algumas dessas escolhas são pseudo-escolhas, más escolhas ou até mesmo “auto-sabotagens à guisa de escolhas” [!]. Se o outro não se incomoda com as marcas que traz de um acidente, ele deve ter sérios problemas! Veja o leitor que coisa curiosa. Seria quase como dizer: “se ela quase não tem seios e não faz cirurgia, mesmo podendo, no fundo ela rejeita seu corpo feminino e/ou sua feminilidade” [!]. Saúde não tem a ver com pasteurizações: pasteurizações são o “campo” da publicidade e não o “campo da saúde”, seja ela psíquica, psicoemocional ou psicofísica. Que isso fique claro. 

O nós, entretanto, é um “pedido coletivo”. Ele aponta para o “nós” mais comum a cada contexto cultural: a doença média socialmente aceita a que costumamos chamar “saúde”. Veja que a nossa cultura considera o narcisismo de se expor em games televisivos e confinamentos como “se gostar” e não “gostar de se exibir”. Assim, para cada contexto e cultura o “nós” será um sujeito coletivo mais ou menos (in)distinto. Essa ambiguidade é proposital. Um nariz enorme pode ser um grande problema para certo sujeito, até maior do que seu nariz. Para outro, pode mobilizá-lo a procurar outros com nariz tão grande quanto fazerem juntos uma companhia teatral, ou grupo musical, segundo o talento dos envolvidos, e batizar o grupo de “Os Napões”. 

“Diga-me, agora, como experimentar/nossas doenças por diversos ângulos/[não se esqueça de me frisar “o/como do como” experimentar/cada um desses ângulos]./Como visibilizá-las [claro, antes de/visualizá-las] e situá-las diante de/tudo o mais. Explique-me, então,/o que há de ser esse “tudo o mais”./[Depois de me mostrar seus invisíveis/eixos-de-construção].” Um eu faz ua pergunta sobre o “nós”. “Diga-me”, e não “diga-nos”. Esse é mais do que um detalhe. A pergunta, aqui, tem de ser feita no singular. Qualquer solução coletiva é pasteurização ou coletivização indevida, ainda que se refira ao “nós” como soma de indivíduos. Isso só poderia ser destacado depois do “nós” e em contraste com ele. Essa foi uma forma de tornar visível a questão do “eu”, dando-lhe “visibilidade por certo caminho”. Assim se pode fazer com tudo, ainda que alguns temas exijam uma destreza e perícia incomuns, no tocante ao feeling, no tocante ao faro. Tornar visível para que o “nós” possa visualizar. E é sempre o “eu” que visualiza antes do nós, seja no caso do fotógrafo, do analista, do historiador.A força inercial do grupo é isso mesmo: inercial. Ela é, antes de tudo, resistência, antes do que “insight” ou mudança. Isso se aplica a todos os grupos: famílias, instituições, Igrejas. O eu vê antes. “Diga-me”... Quem solicita as respostas parece estar disposto a comunicá-las ao “nós” ou, ao menos, estar ciente que sua questão refere-se “a cada eu que constitui o ‘nós’ em questão”. Não estamos diante de uma indagação ingênua. 

Há eixos de construção invisíveis às coisas que precisam se tornar visíveis: pressupostos, aforismos tomados como certos, premissas sociais compartilhadas, pressupostos linguísticos, tudo isso. Não falo só dos “arquétipos” junguianos, que são muito anteriores a Jung. É só pesquisarmos os arquétipos em Pseudo-Dioniso Areopagita, por exemplo. Ou em Proclo. Esses também são eixos-invisíveis-de-construção. As proporções numéricas subjacentes às coisas, tudo isso constitui o grupo aqui apresentado na indagação: os invisíveis eixos de construção. Na caracterologia afro-brasileira dos Orixás de cabeça, frente e ajunto, de cada indivíduo, temos outros eixos invisíveis [ou pré-visíveis] de construção das identidades. É sempre necessária a operação de tirar as Sombra [inclusive grupal] tais eixos para que o indivíduo saiba de si. E também de sua “doença”. Melhor dizendo: a partir de seu desconforto, o que inclui “todo o âmbito do que lhe foi apontado como doença ou diferença”. O menino tem mamilos proeminentes desde a infância, outro é baixo, comparativamente ao grupo, ou magro demais. Há “n” variáveis que só são doenças porque a sociedade é doente. Na medida em que pinçamos a Sombra cada questão, o entorno precisa ser delimitado ou nomeado. De uma forma ou de outra. Circum-ambulamos em torno para que cada coisa emirja em sua singularidade e particularidade em relação ao “nós”, o que também ilumina o “nós”, inclusive na possibilidade [mais á frente, porque o coletivo é inercial, como já dito] deste mesmo “nós” ser visto como a soma de eus. “

Mas a sociedade de hoje é ultra-individualista”, Marcelo. Não em relação ao que falamos.Há muitos eus ecoando lugares-comuns. Se pinçarmos quinze frases de efeito ou feitas, teremos 85% ou mais das falas que encontraremos em todos os nossos amigos do Face. É isso uma “soma de eus”? 

“Fale-me, ainda, de cada porção de/saúde correlativa a cada lesão. [Há/de haver alguma]. E reflita sobre o/esforço do homem em dar nome/às coisas, em gesto inaugural.” Se quem pergunta é um “eu”, ainda que sua pergunta seja extensiva ao nós, quem responde deve ser, necessariamente, um “eu”. Quem responde também é o indivíduo, não é o coro das peças gregas. É o sujeito. A pergunta pede pela “saúde correlativa à cada doença, sugerindo o [ou suplicando pelo!] fato de “ter de haver uma”. Aqui, voltamos à caracterologia em seu aspecto singular: as aptidões não se somam. Algumas virtudes, inclusive, se excluem, no mais das vezes. O loquaz polemista não é o mestre do silêncio. As qualidades de um combatente político não serão a do monge, salvo raríssimas exceções. Mesmo aí, limitações ou diferenças trazem ampliações de sensibilidades ou potenciais. Há cegos com uma captação de campo sonoro e posição correlativa de objetos e pessoas que nos soariam “mágica”, de tão precisos que são. Jogadores de futebol cegos o demonstram, sabendo se guiar pelo som da bola, e se posicionando dinamicamente em relação ao movimento de sues adversários. Há experimentos de jogadores assim jogando com não-cegos! Por isso, as tais saúdes correlativas às doenças são os pontos fortes que a cultura despreza, naquilo que não está apta a ver. Ou a família despreza. Ou a escola. Ou a Igreja. Ou a Universidade. Os grupos em sua cegueira grupal e inercial. Que seja restituído a cada “eu” que indaga, por cada “eu” interpelado, essa porção inequívoca que é de direito de cada um. A porção de saúde. Quem questiona, o “eu que quer saber do nós”, sugere saber do esforço necessário para dar nomes às coisas “ensombreadas e encobertas pela cultura”. Tais nomes, muitas vezes, são “inaugurais”. Não há preciosismo em cunhá-los: eles são produtos da necessidade de uma nomeação “suficientemente justa e precisa”. Suficientemente, já que tudo pode avançar, e nomes melhores podem ser “achados”, “pescados”, “configurados pelo eu falante”, na medida em que seu campo de “visibilização” é ampliado. O visualizado pós-visibilização ganha nuances, e as nuances atingem o campo semântico, fertilizando-o também. 

“Utilize-se da História, da Filologia,/da Antropologia ou da Semiótica;/a Vida requer cem mil abordagens/para uma aproximação [lenta e/suave, ante e pré-universal],/sílaba a sílaba, grau a grau.” Essa nomeação exige do nomeante a travessia cômoda das disciplinas estanques: não é uma atividade acadêmica [de especialistas], mas uma atividade Vital [de pensadores que, livremente, se indagam, sem as balizas pré-moldadas das disciplinas aceitas, frutos também da força inercial do grupo].Essa é a sugestão [ou “súplica”!] do eu falante e indagador, que sempre é um eu-sozinho, porque destacado da multidão, ou do grupo. 

“Rememore [e refaça, desde o/primeiro homem] o nome de/cada coisa./[E a coisa de cada nome].” Essa tarefa de dar nome às coisas acompanha o homem desde o início do mundo. É uma tarefa adâmica, herdada e sempre inconclusa. Nessa tarefa, eu incluí [e privilegiei] aquilo que “o coletivo ainda não conseguiu nomear”. É o indivíduo que deverá fazê-lo. 

A circum-ambulação é tão dinâmica como os movimentos planetários de rotação e translação. Os símbolos que retornam em nossos sonhos, em suas posições correlativas, trazendo novidades ou apontando ciclos e circuitos sazonais, bem como “razões de proporcionalidade fixas, segundo as posições do observador” [como no caso das paralaxes astronômicas] são só um sintoma disso. Um dentre tantos. 




 Marcelo Novaes

tato


observo o mundo
nada é do que jeito que sonhei
várias frustrações na bagagem
e ostras
sempre as ostras

junto com o frio da noite, veem a ressonância
do passado perdido
das horas idealizadas e
de tudo aquilo que nunca foi
ou das coisas que foram bem brevemente
como mariposas perdendo as
asas

no conluio da vida eu sou
aquele que espera
o que quase teve
e o que agoniza
com medo
do
fim.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Separando o joio do joio: Separatio alquímica, culpa e acusação.







Digamos que alguém exagere, brutalmente, algum defeito seu, ou uma plêiade de defeitos seus, e que você seja acusado por exibi-los ou ocultá-los [!]. Sim, todos temos os tais defeitos, e seu nome pode ser Legião. Mas eles podem ser trabalhados ao longo do tempo e o acusador pode ficar parado lá atrás; e essa seria apenas uma das variáveis em jogo. Eu quero trabalhar este tema de modo alquímico, porque não acho que seja suficientemente trabalhado desta forma na clínica. Isso inclui uma dimensão coletiva, do dito “julgamento médio” [no caso do Outsider, e não só do criminoso, que fique isso claro!], mas também de forma “suprapessoal” ou transpessoal. E, aqui, só pode me vir a figura do Demônio, como “O Grande Acusador”, em auxílio do que estou tentando trabalhar num primeiro esboço. Quero trabalhar os temas da autoacusação, da acusação externa massiva, da menos-valia, da depressão maior e da “acusação transpessoal” ou “suprapessoal” como grande tema deste pequeno artigo. É um tema que mereceria livros e livros. Vamos enfrentá-lo. Não falarei de doenças orgânicas que acometem juízes ou apresentadores televisivos acusados de “julgarem muito”, ou “a torto e a direito”. É legítima a função dos juízes, e não se pode aplicar a eles, de forma simplória e simplista, o “não julgueis”, como marca fatídica a recair sobre o julgador. Nada disso. Em tempos de começo de reversão da frouxidão moral, da covardia moral e da leniência com o dano e o malfeito, deliberados e calculados, o julgar é imperioso. É um dever, inclusive. Há quem o tema, por razões diversas, inclusive psíquicas. Há um escopo de julgamento. E aqui, adentrarei certa faixa desse escopo. Um conto em prosa poética me ajudará nesse intento. Eu o escrevi há alguns anos. O texto decorre de um sonho havido há mais de vinte anos, portanto o conto é uma reflexão sobre o sonho e resulta, também, de uma operação de “estetizá-lo enquanto narrativa”. Isso é um processo natural e mais ou menos comum a quem escreve, seja prosa, prosa poética, poema ou conto. Omar Prego, em entrevista feita a Julio Cortázar, registra o quanto o autor recorria a tal processo em seu ofício. Vamos ao conto, atendo-me à parte mencionada acima, que é o núcleo mesmo desse “conto onírico”: o julgamento. Eis o texto:


Kadosh




Você está na cozinha
da sua casa. É noite e
está escuro. As luzes
da cozinha e da área
de serviço estão apagadas.

Como pôde acontecer
isso?! Você liga pra
portaria pra saber
quem estava de plantão
naquela noite. Ogden
Nee. Você discrimina
pela voz aguda e fina.

Você lhe diz que talvez algum
fusível tenha queimado, pelas
luzes apagadas ao mesmo tempo.

Pede que ele vistorie o painel de
comando. Não, não é assim. Ogden
Nee te dá uma explicação lógica e
matemática. Ogden Nee é o cara.
Ele te faz ver que as coisas as
coisas elétricas não são como
você pensa, argumenta que os
fusíveis que comandam a área
de serviço e a cozinha são inde
-pendentes. Faz sentido lógico
-matemático. Além do que
(acrescenta ele e explica ainda
mais), é o mesmo fusível que
comanda a área de serviço e
o hall de entrada do prédio,
e este está aceso, diz ele com
seu sotaque característico.

Pois bem: num único interfonema
você fica sabendo algo a respeito de
redes elétricas, fusíveis, teu próprio
prédio e ainda, de quebra, se lembra
do nome do porteiro ao ouvir seu acento
pronunciado em todas as sílabas: fú-sí-vél,
bem visível, apesar da escuridão inadmissível.

Você já está no ganho, de um jeito ou de outro,
ainda que tudo esteja preto e pareça um pouco
estranho. De qualquer jeito (repito, porque é o
jeito pra que te entre bem no ouvido, uma vez
que os olhos têm à frente um negro indivisível,
e também repito mais uma vez, porque é meu
jeito chato, incisivo) que você já está no ganho,
porque já discrimina algo a respeito de instalações
elétricas, enquanto o telefone toca no escritório.

O tique taque do relógio parece um pouco
incômodo nessa hora, um pouco mais longo
que o tic tac de uma hora atrás, e o timbre
do telefone te soa outro. Essa é uma noite
onde os sons se esmeraram. Depois você
anota na agenda, logo que tiver tempo e
meios. É uma data pra se marcar em
vermelho bem no centro, como um tiro
certeiro. Você ouve tudo aquilo amplificado,
o que era diminuto tic tac tic tac (até eu,
daqui, escuto... ) agora já é outro, e pensa
no timbre agudo de um telefone que mais
parece uma sirene (e você não o reconhece),
abrindo espaço na rua para o socorro urgente
de um homem enfartando. O telefone soa mais
como um alarme emperrado. E você o ouve
com aquela desconfiança levemente inclinada
para o lado, trinta e três graus à esquerda,
acompanhando um arco de sobrancelha
espessa (como é seu costume nessas horas
densas tensas imensas, dessas que demoram
e que se pensa que nunca desembocam em
nada que compense...), você só ouve com
aquela desconfiança sinistra e inclinada,
e não há nada à vista. Você segue apalpando
azulejos tábuas e portas e pistas variadas,
porque chegar ao escritório ao lugar do telefone
acelerado e agudo é sua maior conquista, de fato.

Fica imaginando que as lâmpadas deviam ter
queimado todas juntas, por uma estranha
coincidência que era melhor nem dar nome.

A impressão que você tem (e me parece assim
também..., bastante justa e apropriada) é que
você se tornou um visitante (ou refém) em sua
própria casa (sensação esta bastante intrigante),
e que está descobrindo as lâmpadas queimadas, o
porteiro do dia da noite com voz anasalada,
as instalações elétricas, o alcance sonoro de
um simples relógio de estante, o timbre
estridente e tridente de um chamado, ao
mesmo tempo perto e tão longe, a espessura
da noite, tudo ao mesmo tempo. Teu jeito
inclinado, agora, mais parece uma pergunta.

Na verdade, melhor dizendo, quinze perguntas
encaixadas como num jogo chinês ou russo de
cubos sequenciados e descobertas progressivas
e inconcretas até o nada concretíssimo esvaziado.

Você se dirige ao escritório, desse jeito quase
incógnito, sorri ocultado pela própria pergunta
que te encobre, para atender o telefone. Para
atender ao telefone. Você escolhe. O fato é que
é no escuro, continua sendo escuro, e é um tele
-fonema anônimo, que mais parece um trote.

Essa noite precisa ser anotada em vermelho
vivo, rubro, vibrante, na agenda, logo que
possível. Porque os eventos massivos e
maciços nebulosos sonoros (não-imagísticos
nem imaginativos), são gigantes, muito para
além de qualquer cálculo probabilístico.

Mesmo para Ogden Nee, nisso especialista.

Entregue a situação, o campo matricial dos
eventos a qualquer matemático, e ele
o confirmará no terceiro minuto e meio.

Quem fala do outro lado da linha telefônica,
na linha telefônica, na borda do mundo,
parece querer provocá-lo. Parece ser
mal-intencionado. Toque os ouvidos
com olhos de ver e saberá que nada
disso parece: é, de fato. Você precisa
discriminar a voz, as intenções, com
o maior cuidado. Veja lá (ainda que
ver não seja o verbo adequado...),
que é delicada a operação, tanto
ou mais do que cogitar a teia da
instalação elétrica do teu prédio
intacto. Perceba que, à medida
que discrimina a entonação da
voz e tua e sua sina (a de ambos),
uma teia vai se insinuando e se
formando à tua frente (não
se sabe se urdida pela ardida
voz ou por tua mente...), cujos
fios e trama e trançado são o
fruto pronto e o produto
acabado ingrato de todas
as discriminações-em-rede
-e-em-teia que tivera de
fazer até aqui, e que ainda
estava fazendo, se bem
que não quisera. Perceba

que é uma rede bem moldada, bem formada,
bem simétrica, uma teia em complexa construção
geométrica. No centro dela há uma voz cantando
um cantochão insano (muito abaixo, muito adentro
do chão), uma voz no breu no abismo e escuridão.

A voz de um demônio num túmulo. Não perca a
teia de vista (mesmo sem usar a vista), porque
ele é o centro. Não perca as pistas. Veja o estilo
como ele dialoga. Ele inventou um diálogo sinistro,
que mais soa como um monólogo-sem-fundo-de
-tão-ríspido, de onde surgem todas as teias, e as
suas características perversas misturadas. De
ambos. É dele a idéia de fazer misturas espúrias.

Perceba as sutilezas da voz mal-dita e mal-pronunciada.

Ele declama com monotonia estudada na língua de hoje
e de ontem, em copta clássico, e seu sotaque é mais
difícil de distinguir do que um rastro de giz preto no
meio da noite. Entre irado e cínico, observe como ele
começa a rir, entrecortando o canto com seus espasmos
de gozo e asco misturados. Assim se diverte um demônio
num centro de breu infinitesimal, louco, ávido, enclausurado.

Mas o que ele diz não é pouco, nem para ser des
-considerado. Ele ri alto e longe e te pergunta se
você acha que não são tuas as tais características
agora por ele nomeadas em trinta línguas mortas.
Ele te pergunta ( rindo e alto e longe ), se o que ele diz
não responde às tuas perguntas tão simples, tão
cândidas, e às tuas equações matemáticas.
Pergunta, e quase goza, se tudo não te faz
 sentido agora. Perguntas tão simples, tão
cândidas. Incandescentes.

Um fio de metal rubro em tua alma se acende.
E ele, por seu lado, do outro lado, bem assentado
no avesso de tudo, tenta traçar teu negro retrato.

Olhe pra mim agora. Mesmo que não me veja.
Sim. Eu sou jovem, terna, e minha pele é como
seda. Discreta e silenciosa. Observe que te
acompanhei até agora. Ao fim de tudo,
merecerei um beijo e, depois, te deixarei
mudo. No momento, é ele que te beija
com insultos. Perceba bem o exagero
deste demônio, mais astuto do que um
réptil, a forma meiga com que quiseram
descrevê-lo na Bíblia. Tudo é sempre
muito mais complexo do que o dito no
Livro. Veja que o Cujo Maldito quer fazer
de ti o Seu Espelho! Nisso reside a armadilha
do Abismo. Veja que tua mandíbula já se
enrijece, como se você se congelasse e se
tornasse aquela Outra Face! E isso não
está explicado no Gênesis em todos esses
detalhes. Existe uma coisa a ser feita, uma
única coisa, decisiva, nessa hora multívoca
e multidiversa, onde todos os sons e signos
parecem à deriva. Isso faz parte da Ilusão
que ele cria. Ele não é o Pai da Ilusão. Ele
também mora na Ilusão, e é ao mesmo
tempo seu Criado e seu Agente. Veja como
tudo é mais complexo do que jamais se
disse. Primeiro passo: não se impressionar
com o que ele nomeia, porque ele é o pai
das nomeações malfeitas e mal urdidas,
suas etimologias são mantos rasgados e
mal costurados, com pentagramas invertidos.

Ele é subentendido naquilo que não nomeia.

Daí o breu que o acompanha. Sim, eu te
revelo: o Breu é seu halo. Ficou claro?!

Veja agora o demônio deitado no palácio
-cubículo de sonhos quadriculados e
infinitos que construiu para si mesmo,
e para o qual convida os seus eleitos
-malditos. Veja o fio que a ele te liga
(daí a razão de toda essa teia entretecida
como janela para uma espera desaparecida),
o fio que é o fim de um fuso horário terminal.

Observe o fio que a ele te liga, e um outro que
se escoa para uma espécie de frasco, como uma
canícula de soro, ou algo parecido. Eu vou te
explicar como se dá o diálogo e o monólogo
com o Diabo, o que não está escrito abertamente
no Livro Sagrado. O diálogo com um demônio
(e há vários, como os cubos descentrados no
infinito, do infinito ao nada...) é isso: jogo e
desafio que se dá num ponto morto, num
ponto cego, no centro do Breu, numa teia
entretecida entre ele, você e eu. Veja a
astúcia! Ele é um arquiteto de minúcias.

Perceba uma coisa: se tiver voz pra falar,
que ele te ouça! Se puder nomear o que só
lhe pertença (a ele e não a você, sem vestígio
de grão ou presença...), sem que haja rastro
algum entre os dois (mesmo que não se veja
ou não se possa ver, na noite espessa e densa),
ele dorme emudece. Já disseram (e disseram
bem): "Não julgueis!", mas há o outro lado, e é
para isso que me posto ao teu lado direito e te
explico. Se você acerta na mosca o que nomeia,
no centro da testa da funesta besta, e diz a ela
a ele o que só a ele interessa (alguma coisa que
ainda não te contamine em nada..., e eis a chave
-mestra...), seu sangue se esvai pela canícula, ele
se desvitaliza e dorme dorme ainda mais, no mais
Breu e no mais longe. Disso não te falou nenhum
sacerdote. Porque das verdades maiores só se
conhece o esmalte. Se você errar no teu
julgamento, seus sangues se misturam.

A mosca fica presa na teia. E você é a
mosca pequena amalgamada à aranha
-mosca-que-teceu-a-teia. Acerte duas
vezes, e veja seu torpor. Não mais te
aborrece, desde que saiba julgar e
limpar-se cada dia melhor. Essa é a
outra face do que disse o Senhor,
da mesma Verdade. E faça de
modo a que não te suje o sangue.

Kadosh. O apartado, o santo, o são.
Essa a lei da circuncisão. Meu nome?!
Eva. E há muito já me redimi.

Veja que as luzes já se acendem. ...

Vamos à narrativa do sonho. Na construção no texto, eu coloco o leitor na posição do ego onírico: ele deverá passar pela experiência. Deixemos a prosódia de lado e verifiquemos o seguinte, nas duas primeiras estrofes: “Você está na cozinha/ da sua casa. É noite/e está escuro. As luzes/ da cozinha e da área de serviço estão apagadas./ Como pôde acontecer isso?! Você liga pra portaria pra saber/ quem estava de plantão/ naquela noite. Ogden Nee. Você discrimina/pela voz aguda e fina./ Como pôde acontecer isso [como pôde isso acontecer]? Eu colocaria agora. Estamos numa primeira cada de “escuro”, e ela se dá pela superposição de dois “escuros”: a noite e a queima das luzes. Uma espécie de noite dentro-fora, uma noite que se impinge adentro, que se impõe. O ego onírico, lugar a que o leitor é instado a ocupar [o lócus do ego onírico] tem uma sequência de tarefas a fazer. A primeira coisa que ele faz é uma pergunta: “como pôde acontecer isso [como isso pôde acontecer]?” Repare que a coisa toda apenas é um “isso”. Não se sabe porque tantas luzes estão apagadas ao mesmo tempo. Ele [o ego onírico], agora transfigurado no leitor [sim, você ocupa o lugar dele!] “liga para a portaria para saber quem estava de plantão naquela noite”. Naturalmente, há um sistema de rodízio naquele edifício. Você, leitor, liga pra portaria e descobre “o porteiro da noite” [título de filme de Liliana Cavani] daquela ocasião: Ogden Nee. O nome não é parte originária do sonho. No sonho, o ego onírico identifica o porteiro pela voz. Aqui, é dito que ele tem a voz aguda e fina, e que seu nome é Ogden Nee. Em minha última postagem, sobre a emergência do Self no temenos analítico, citei um psicanalista americano famoso por seu trabalho profícuo e claro: Thomas Ogden. Não se engane o leitor: o autor do texto pós-sonho tirou o Ogden deste mesmo autor. Pelo que vimos em meu último artigo, podemos esperar pela emergência de um “Terceiro Sujeito” nessa circunstância proposta na paisagem onírica Pelo menos por mais um sujeito. Mas aqui, em meio a essa camada dupla de sombra, o ego onírico az uma primeira distinção, uma primeira discriminação: ele sabe dar nome ao porteiro da noite. Prossigamos com o texto, deixando de lado a prosódia: “Você lhe diz que talvez algum/fusível tenha queimado, pelas/ luzes apagadas ao mesmo tempo.”/ Você, leitor, na posição de ego onírico, exerce sua posição discriminativo-ativa, e arrisca a sua hipótese. O texto prossegue: “Pede que ele vistorie o painel de/comando. Não, não é assim. Ogden/Nee te dá uma explicação lógica e/matemática. Ogden Nee é o cara./Ele te faz ver que as coisas as/coisas elétricas não são como/você pensa, argumenta que os/fusíveis que comandam a área/de serviço e a cozinha são inde/-pendentes. Faz sentido lógico/-matemático. Além do que/(acrescenta ele e explica ainda/mais), é o mesmo fusível que comanda a área de serviço e/o hall de entrada do prédio,/e este está aceso, diz ele com seu sotaque característico.”/ Nessa passagem-estrofe, o leitor [sempre na posição do ego onírico] é instado a fazer outra série de discriminações, ajudado pelo outro personagem, o porteiro da noite: mostra a independência de certos fusíveis que o ego onírico não identificava assim e esboça o desenho verbo-visual de uma “matriz lógico-matemática” que define a disposição de luzes acesas ou apagadas no prédio e em seus andares. O ego onírico faz novas discriminações a partir do que consegue visualizar das declarações do porteiro e conclui: sua hipótese estava errada. A coisa é mais misteriosa e complexa do que pareceu, a princípio, ao ego onírico no escuro: não é caso de um único fusível. Ao mesmo que discrimina coisas, visualiza o funcionamento matricial-elétrico do prédio onde habita, o sujeito é levado a novas camadas de perguntas. Arrematando este trecho, temos: “Pois bem: num único interfonema/você fica sabendo algo a respeito de/ redes elétricas, fusíveis, teu próprio/prédio e ainda, de quebra, se lembra/do nome do porteiro ao ouvir seu acento/pronunciado em todas as sílabas: fú-sí-vél,/bem visível, apesar da escuridão inadmissível.”/ Pois bem, o arremate do texto reitera o que eu encaminhei em minha discussão: o ego onírico aprende muita coisa nesse telefonema e diálogo com o porteiro da noite, mas nada a respeito da sombra que o cerca. Lá embaixo, no hall de entrada, há luz. O texto, para “grafar grifando”, adjetiva de inadmissível a escuridão para o ego onírico, convidando o leitor a também experiênciá-la assim. Porque uma escuridão “sem explicação aparente”. Novas e novas camadas de discriminação serão necessárias. Prossigamos com o texto, em mais três de suas estrofes: “Você já está no ganho, de um jeito ou de outro,/ainda que tudo esteja preto e pareça um pouco/estranho. De qualquer jeito (repito, porque é o/jeito pra que te entre bem no ouvido, uma vez/que os olhos têm à frente um negro indivisível,/e também repito mais uma vez, porque é meu/jeito chato, incisivo) que você já está no ganho,/porque já discrimina algo a respeito de instalações/elétricas, enquanto o telefone toca no escritório.” / Pois bem, o narrador insiste, de forma um tanto irônica e insistente, que o “ego onírico” [e, por conseguinte, o leitor “posto em seu lugar”] “já está no ganho, com todas as discriminações feitas”.

Perceba o leitor que ele insiste para que o leitor o ouça, uma vez que “enxergar ele não pode”, e que há uma escuridão “indivisível” à sua frente, pois uma escuridão que não pôde ser discriminada, nem “fatorada em suas partes”. Quando o narrador insiste para que ele “siga sua voz, como fio condutor, ‘cumprimentando-o’ pelo ‘sucesso’ das discriminações feitas até aqui [de pouco ou nenhum uso prático pelo ego onírico], surge mais um elemento no texto-sonho, este agora sonoro [como a voz que insiste no “ganho já obtido nessa curta peregrinação”]: o toque do telefone no escritório. Naturalmente que o ego onírico [e o leitor] deve se encaminhar a tal recinto sem bem distinguir as coisas no caminho, a não ser por outros sentidos que não a visão. Prossigamos, então, com a próxima estrofe: “O tique taque do relógio parece um pouco/ incômodo nessa hora, um pouco mais longo/que o tic tac de uma hora atrás e o timbre/ do telefone te soa outro. Essa é uma noite/onde os sons se esmeraram. Depois você/anota na agenda, logo que tiver tempo e/meios. É uma data pra se marcar em/vermelho bem no centro, como um tiro certeiro. Você ouve tudo aquilo amplificado,/o que era diminuto tic tac tic tac (até eu,/daqui, escuto... ) agora já é outro, e pensa/no timbre agudo de um telefone que mais/parece uma sirene (e você não o reconhece),/abrindo espaço na rua para o socorro urgente/de um homem enfartando. O telefone soa mais/como um alarme emperrado. E você o ouve/ com aquela desconfiança levemente inclinada/para o lado, trinta e três graus à esquerda,/ acompanhando um arco de sobrancelha/espessa (como é seu costume nessas horas/ densas tensas imensas, dessas que demoram/e que se pensa que nunca desembocam em/ nada que compense...), você só ouve com/aquela desconfiança sinistra e inclinada,/e não há nada à vista. Você segue apalpando/azulejos tábuas e portas e pistas variadas,/porque chegar ao escritório ao lugar do telefone/acelerado e agudo é sua maior conquista, de fato. ”/ Esta é uma estrofe longa, e enfrentaremos mais algumas como esta. O narrador estava certo em suas suposições [ele também sabe discriminar!] e o ego onírico, de fato, vivencia até o tic tac do relógio de um modo novo, distinto daquele de uma hora atrás: supõe-se, então, que “distinto do antes do apagar da luzes”. Também o timbre do telefone soa um tanto distinto e outro. O narrador, com sua ironia, arremata: “essa é uma noite onde os sons se esmeraram”. Em não havendo distinções possíveis aos olhos, que haja os muitos matizes sonoros recém-descobertos: da voz do porteiro [já sabida, mas enfatizada], até cada coisa que “soa outra” e “inaugural”. Num acréscimo de ironia, o narrador, além de distinguir o alarme que o ego onírico supostamente “enxerga” no toque do telefone [aquele alarme que pede passagem, clamando para ser atendido], discrimina também os modos do sujeito: sua desconfiança inclinada trinta e três graus à esquerda, o arcar da sobrancelha... Ou seja, o narrador mostra sua perícia na arte de descrever e discriminar aquilo que é tarefa do ego onírico aprender! E alerta apara a desesperança do ego onírico, que ele parece conhecer bem: “E você ouve, e você ouve, como é seu costume.” Vamos apreender as nuances do costume do ego onírico ironizado [ou descrito com milimétrica fidedignidade, como prefira o leitor, agora posto em seu lugar]: “E você o ouve/com aquela desconfiança levemente inclinada/para o lado, trinta e três graus à esquerda,/acompanhando um arco de sobrancelha/espessa (como é seu costume nessas horas/densas tensas imensas, dessas que demoram/e que se pensa que nunca desembocam em/nada que compense...), você só ouve com/aquela desconfiança sinistra e inclinada,/e não há nada à vista. Você segue apalpando/azulejos tábuas e portas e pistas variadas,/porque chegar ao escritório ao lugar do telefone/acelerado e agudo é sua maior conquista, de fato. ”/ Você [ego onírico e leitor ocupando seu lócus, provisoriamente] : 1) com aquela desconfiança levemente inclinada/para o lado, trinta e três graus à esquerda,/ acompanhando um arco de sobrancelha/espessa (como é seu costume nessas horas/ densas tensas imensas, dessas que demoram/e que se pensa que nunca desembocam em/ nada que compense...). As horas de tensão para o ego onírico são das que demoram e que se pensa que nunca desembocam em nada que compense. São as horas de todos nós, que podem ser abreviadas pela rubrica da “Eternidade das Penas”. E quem não viveu isso ainda? O narrador parece falar isso [e descrever isso] como que “de fora”. 2) você só ouve com/aquela desconfiança sinistra e inclinada,/e não há nada à vista. Você segue apalpando/azulejos tábuas e portas e pistas variadas,/porque chegar ao escritório ao lugar do telefone/acelerado e agudo é sua maior conquista, de fato. ”/ Aqui há algo interessante: “você só ouve com aquela desconfiança sinistra e inclinada”, para a qual o narrador até discrimina o ângulo de inclinação! Aqui, ele parece fazer questão de frisar um “quantum” ou um “plus” de projeção do ego onírico que se derrama no ambiente, impedindo-o de ouvir aquele tic tac de antes e o velho telefone. A transfiguração do ambiente também é a transfiguração do ego onírico. Estamos num quadro ultra-expressionista, onde as cores se derramam para fora, co-engendrando alarmes e sirenes. E o narrador flagra, discricionariamente, os velhos modos [não os novos!] do ego onírico. O arremate do narrador para essa curta passagem é bastante interessante: “Fica imaginando que as lâmpadas deviam ter/queimado todas juntas, por uma estranha/coincidência que era melhor nem dar nome./ Por uma estranha coincidência para a qual seria melhor nem dar nome. Sabemos o quanto relutamos a dar nome a certas coisas, porque tememos os nomes. Os acadêmicos, então, possuem pruridos inúmeros quanto a isso: parecerão não-científicos, supersticiosos, parecerão “hifenizar” demais expressões que pretendem dizer “qualquer-coisa-em-bloco que pareça do hífen não poder prescindir. Imagino o quanto temeram o termo singelo, “sincronicidade”, cunhado por Jung. Anátema! Pois é, as pessoas temem dar nomes e, por esse temor, não ouvem os terrores indizíveis de suas crianças, afastando-os com um muxoxo, um mugido ou um gesto apotropaico; quando não, de puro descaso. Para ampliarmos o léxico, devemos ampliar a escuta, até que ela nos peça [e nos exija!] um léxico ampliado. Coisas-sem-nome pedem por nomes. “Fica imaginando que as lâmpadas deviam ter/queimado todas juntas, por uma estranha/coincidência que era melhor nem dar nome.”/ Guimarães Rosa procuraria por um nome para isso, mesmo que lhe custasse horas de suor e angústia, ou mesmo o se atirar no chão e ali se revolver, à semelhança de Jacó lutando com um Anjo de Deus. Seria, este, um “Anjo Bom”? Prossigamos com o texto: “A impressão que você tem (e me parece assim/também..., bastante justa e apropriada) é que/você se tornou um visitante (ou refém) em sua/própria casa (sensação esta bastante intrigante),/e que está descobrindo as lâmpadas queimadas, o/ porteiro do dia da noite com voz anasalada,/as instalações elétricas, o alcance sonoro de um simples relógio de estante, o timbre/estridente e tridente de um chamado, ao/ mesmo tempo perto e tão longe, a espessura/da noite, tudo ao mesmo tempo. Teu jeito/ inclinado, agora, mais parece uma pergunta.” O narrador, aqui, parece fazer um resumo do que até então ouviu, mas não um resumo protocolar: um resumo interpretativo, pelo menos em duas ocasiões que ele “deixa escapar” o que parece ter entrevisto, já que o ego onírico parece ver menos. Ele designa a estranheza vivida pelo ego onírico [estranheza à qual o leitor é convidado a visitar, não me canso de repeti-lo...], como se ver como um visitante ou refém em sua própria casa, e descobrindo “a espessura da noite”, a espessura da soma das coisas que não conhece, nem consegue discriminar. O narrador chama ao som estridente do telefone de um “tridente”, fazendo alusão às forças tidas por demoníacas ou indomadas. E zomba, “tira um sarro”, em passant, quando diz ao ego onírico, dentre suas “inúmeras descobertas”, coisas do tipo: “[que ele viu] o alcance sonoro de um simples relógio de estante.” O narrador mantém seu humor e seu tino para catalogações de descobertas e quase descobertas. Vê na inclinação corporal do ego onírico, agora, “um ponto de interrogação” [!]. Há muitas coisas por deslindar, e ele, narrador, parece adivinhar “algumas das perguntas”. Outras, o ego onírico terá de fazer por si mesmo.

Prossigamos com o texto: “Na verdade, melhor dizendo, quinze perguntas/encaixadas como num jogo chinês ou russo de/cubos sequenciados e descobertas progressivas/e inconcretas até o nada concretíssimo esvaziado.”/ O “nada concretíssimo esvaziado” parece ser a culminância de todas as perguntas feitas até aqui, segundo a posição do narrador. Sua “tabulação” [sic] de “quinze perguntas” faz parte de sua ironia. Mas há algo a frisar na elocução que ele faz, fora a menção do jogo de bonecas russas umas dentro das outras, ou dos cubos em sucessão: o tal “nada concretíssimo esvaziado” confirmam para o ego onírico a sua própria expectativa desesperançada. Senão vejamos o dito acima, num comentário que eu mesmo numerei, em item, fazendo eco ao narrador: 1) com aquela desconfiança levemente inclinada/para o lado, trinta e três graus à esquerda,/acompanhando um arco de sobrancelha/espessa (como é seu costume nessas horas/densas tensas imensas, dessas que demoram/e que se pensa que nunca desembocam em/nada que compense...). O “nada que compense” agora é reiterado como o “nada concretíssimo esvaziado”. Querias um nada, ego onírico? Pois bem: ei-lo, concretíssimo! Pode ser até palpabilizado! Querias um nada? Ei-lo: concretíssimo e esvaziado ! Eis parte do jogo narrativo-semântico criado para expor ao ego onírico [e para o leitor, em posição vicária] a reiteração de como ele sente as coisas, com um toque de humor negro. Sigamos. Mas, desta vez, quero explanar duas estrofes em sequencia, seguida da afirmação que as arremata, numa estrofe-linha aparentemente isolada, mas que, para a situação, é conclusiva - o que me parece mais proveitoso, no caso: “Você se dirige ao escritório, desse jeito quase/incógnito, sorri ocultado pela própria pergunta/que te encobre, para atender o telefone. Para/ atender ao telefone. Você escolhe. O fato é que/é no escuro, continua sendo escuro, e é um tele/-fonema anônimo, que mais parece um trote./ Essa noite precisa ser anotada em vermelho/vivo, rubro, vibrante, na agenda, logo que/possível. Porque os eventos massivos e/maciços nebulosos sonoros (não-imagísticos/nem imaginativos), são gigantes,/ muito para além de qualquer cálculo probabilístico./ Mesmo para Ogden Nee, nisso especialista.”/ O narrador alega que o ego onírico, de tão “pergunta viva” que se tornara, até oculta o que pareceria um sorriso [uma promessa de descoberta, ou humor diante da sequência inesperada de quadros?]; e mais: ironiza a própria descrição, no que tange à gramática: “para atender o telefone. Para/atender ao telefone. Você escolhe.” Quem escolhe aqui? O leitor, naturalmente, posto quase que à revelia no lócus do ego onírico, em peregrinação em poucos metros quadrados, sua “noite escura abreviada” na metragem das metrópoles urbanas. Quem escolhe é o leitor, mais ou menos atento [e/ou crítico] às exigências gramaticais. Tanto faz ao narrador. Tanto é, que ele acrescenta: “O fato é que/é no escuro, continua sendo escuro...” Para frisar melhor essa reiteração do narrador, que parece pouco se importar com as preferências ou pruridos gramaticais do ego onírico e/ou do leitor, seria bom colocar um conectivo aqui. Um “e”. A frase ficaria assim: O fato é que/é no escuro e continua sendo escuro [...]. Atendendo o telefone ou ao telefone, o escuro não muda em nada. E tem mais: O fato é que/é no escuro, continua sendo escuro, e é um tele/-fonema anônimo, que mais parece um trote./ Além de ser um telefonema atendido no escuro, quem fala do outro lado não assume o nome, e tudo soa como um trote: a continuação de decifrações que pedem para ser nomeadas! Se o próprio sujeito a si não nomeia, quem atende ao telefone, precisa captar-lhe, senão o nome, as intenções. O jogo de bonecas ou cubos dentro de cubos prossegue... E o narrador faz, aqui, um alinhavo que quase soa um xeque-mate, fosse isso um jogo de xadrez, “cantando a jogada futura para o ego onírico, como alguma atitude póstuma [portanto, tardia e sem efeito!] que ele poderia fazer, já que, agora, se vê impotente para qualquer coisa que seja eficaz: “Essa noite precisa ser anotada em vermelho/vivo, rubro, vibrante, na agenda, logo que/possível. Porque os eventos massivos e/maciços nebulosos sonoros (não-imagísticos/nem imaginativos), são gigantes,/ muito para além de qualquer cálculo probabilístico.” Logo que possível e, adiante [no espaço-tempo], o ego onírico deverá anotar o ocorrido numa agenda, de forma destacada, grifada, rubra, “em vermelho”, para que dê conta, a posteriori, das coisas que, ali-e-então, não conseguiu decifrar! O narrador parece apontar para o hábito costumeiro de anotações de sonhos e ou vivências a serem narradas ao terapeuta ou analista, prática que emerge dos próprios inícios da análise. Se ele não dá conta do que vive, e do montante de interrogações que isso traz [e é um isso, porque sem nome, pelo menos até aqui] que esse “tanto-vivido-enquanto-isso” [a hifenização aqui se exemplifica] seja bem anotadinho, para ulterior decifração e análise. Mas o narrador abranda a ironia, um tanto, ao se justificar e esclarecer: Essa noite precisa ser anotada em vermelho/vivo, rubro, vibrante, na agenda, logo que/possível. Porque os eventos massivos e/maciços nebulosos sonoros (não-imagísticos/nem imaginativos), são gigantes,/ muito para além de qualquer cálculo probabilístico.” Pois bem: o narrador assume que os eventos ocorridos são massivos, maciços, nebulosos e “gigantes” para a capacidade de decifração do ego onírico, não passíveis de serem contidos em imagens [puxa..., e são elas o material preferencial para anotações sobre sonhos, para ulterior interpretação...], muito para além de qualquer cálculo probabilístico”. Essa fala soa irônica, mas também alude à leitura matricial-matemática do funcionamento da rede elétrica no prédio, quando da conversa com o porteiro da noite, ou “sentinela noturno”. A reiteração do narrador é um comentário a respeito, que arremata a questão, a seu próprio modo: Porque os eventos massivos e/maciços nebulosos sonoros (não-imagísticos/nem imaginativos), são gigantes,/ muito para além de qualquer cálculo probabilístico./ Mesmo para Ogden Nee, nisso especialista.”/ Mesmo Ogden Nee é insuficiente para essa decifração-em-série [ou nomeação-em-série] que se espera do ego onírico. Para isso, mesmo “o sentinela da noite” parece insuficiente. Está acima das possibilidades, embora acima, no tocante ao “raciocínio matemático-matricial da rede elétrica” ele tenha parecido “bom o bastante”: “Você lhe diz que talvez algum/fusível tenha queimado, pelas/luzes apagadas ao mesmo tempo./Pede que ele vistorie o painel de/comando. Não, não é assim. Ogden/Nee te dá uma explicação lógica e/matemática. Ogden Nee é o cara./Ele te faz ver que as coisas as/coisas elétricas não são como/você pensa, argumenta que os/fusíveis que comandam a área/de serviço e a cozinha são inde/-pendentes. Faz sentido lógico/-matemático.”/ Ogden Nee, embora sendo “o cara” [para certas coisas], não pode ajudar o ego onírico nessa sucessão de nomeações a dar e decifrações a operacionalizar. Quem sabe Thomas Ogden, “o cara da alteridade”? 

Prossigamos com nosso conto-sonho: “Entregue a situação, o campo matricial dos/eventos a qualquer matemático, e ele o/confirmará no terceiro minuto e meio.” O que confirmará o tal matemático hipotético, se consultado fosse? Que o conjunto das decifrações expostas na situação, mesmo que dispostos num campo matricial de eventos, não poderia ser resolvido. A limitação não é só de Ogden Nee, embora ele seja um simples “porteiro da noite”. Mesmo um matemático não daria conta do recado, não seria “o cara certo para tal resolução”. Então, quem? Essa é a pergunta errada. A alternativa é seguir adiante, avançando no escuro: “Quem fala do outro lado da linha telefônica,/na linha telefônica, na borda do mundo,/parece querer provocá-lo. Parece ser/mal-intencionado. Toque os ouvidos/com olhos de ver e saberá que nada/disso parece: é de fato. Você precisa/discriminar a voz, as intenções, com/o maior cuidado. Veja lá (ainda que/ver não seja o verbo adequado...),/que é delicada a operação, tanto/ou mais do que cogitar a teia da/instalação elétrica do teu prédio/intacto. Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda estava fazendo, se bem/que não quisera. Perceba/que é uma rede bem moldada, bem formada,/bem simétrica, uma teia em complexa construção/geométrica. No centro dela há uma voz cantando/um cantochão insano (muito abaixo, muito adentro/do chão), uma voz no breu no abismo e escuridão.” Quem fala parece querer provocar o ouvinte. O próprio anonimato é uma situação de provocação, e o mundo virtual está a exponenciar para nós tal dado da realidade. Se no passado, a carta anônima era algo a nos suscitar algum quantum de atenção sobressaltada e/ou indagação-suspeita, hoje temos os spams,as postagens anônimas em blogs, o que mais vier à cabeça do leitor. E mais: quem fala parece mal intencionado. Não há só a questão do ego onírico [e/ou do leitor, em posição vicária] querer dar nome às coisas, querer dar nome aos bois: há sujeitos que relutam ou recusam dar seu próprio nome, não dizem a que vieram. Assim como preferem eufemismos à nomeação crua dos fatos. E mais: usam como reforço de linguagem [quase como um grifo de suspeição ou de ênfase] o próprio fato de serem anônimos. Essa, também, é a voz coletiva, dos que se escondem no burburinho dos “muitos que falam e repetem”, não só em assuntos polêmicos, mas, sobretudo, nos assuntos comezinhos, porque “da soma de assuntos comezinhos também se trama boa parte do cotidiano”. Também se trama. “Quem fala do outro lado da linha telefônica,/na linha telefônica, na borda do mundo,/parece querer provocá-lo. Parece ser/mal-intencionado. Toque os ouvidos/com olhos de ver e saberá que nada/disso parece: é de fato. Você precisa/discriminar a voz, as intenções, com/o maior cuidado. ” Quem fala, fala da Terra de Ninguém, da Borda do Mundo ou do Subsolo. É a voz indistinta que escolheu não se distinguir, pelo menos até aqui. Quando o ego onírico aglutina seus meios perceptivos, e ele é instado a fazê-lo, a partir de dentro de si [fato reforçado pelo narrador percuciente, mas nunca “onisciente” –esse é um conceito impreciso demais para o caso em questão...], como se lê na passagem “Toque os ouvidos/com olhos de ver e saberá que nada/disso parece: é de fato”, o ego onírico de Sá conta que está diante da má intenção do interlocutor Isso é uma discriminação e tanto. Talvez, a mais importante até aqui, nessa suposta “progressão de discriminações-em-série”. Não. Nesse jogo de cubos dentro de cubos ou bonecas que escondem bonecas, muitas das discriminações foram sem efeito: supostas, fúteis, preliminares. Essa é fundamental: de que lugar fala o interlocutor – da borda do mundo, da terra de ninguém, do anonimato. Do lugar que pretende ferir quem atende. Qualquer leitor conhece os golpes e chantagens telefônicos comuns em nossos dias. Mas a situação aqui é mais inusitada. Prossigamos, então: “Quem fala do outro lado da linha telefônica,/na linha telefônica, na borda do mundo,/parece querer provocá-lo. Parece ser/mal-intencionado. Toque os ouvidos/com olhos de ver e saberá que nada/disso parece: é de fato. Você precisa/discriminar a voz, as intenções, com/o maior cuidado. Veja lá (ainda que/ver não seja o verbo adequado...),/que é delicada a operação, tanto/ou mais do que cogitar a teia da/instalação elétrica do teu prédio/intacto. Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera.” Também se trama. Em trama. Antes de qualquer coisa, perceba-se que, na própria apresentação do texto [acima, no original], a disposição gráfica dos versos [mais curtos] vai se afunilando, como o que ele diz estar acontecendo. O ego onírico se apercebeu de algo do lado de lá. Uma teia vai se formando. Uma teia é um esquema matricial de variáveis, não é uma sequência linear. Tantra e trama são palavras vizinhas, é só estudar a etimologia da palavra sânscrita. Fios trançados, bem tramados. O anônimo pode ser o suposto narrador onisciente, não o narrador percuciente [e um tanto irônico] que narra o conto. É dito que o ego onírico precisa discriminar a voz com o maior cuidado? Por quê? Essa voz não se autonomeia, nada disso. E a razão é essa mesma: essa quer se manter a voz indiscriminada, a voz que se recusa qualquer discriminação. Mas aqui, algo importante começa a acontecer, cujo desdobramento culminará no fulcro do próprio texto, na sua razão de ser, e no liame que traço entre “as sofisticadas [e múltiplas] facetas da culpa e a separatio alquímica, como operação necessária, na vida e na clínica”. O ego onírico começa a ver no escuro! Nesse ponto, ele começa a imaginar, o que até então não lhe fora possível, porque ele estava conjecturando, e essa operação é muito distinta do “ver imaginal”, do imaginar em seu sentido não especulativo nem pejorativo, mas em seu sentido estrito e alquímico de “captar com a imaginação o que está ali para ser captado com esse sentido”. Se a operação fosse fácil, não chamaríamos homens como William Blake ou Roger Bacon de visionários. Mas o que eles viram “lhes antecede” no mundus imaginalis: do contrário, jamais poderia ser apreendido. Essa máxima é alquímica em si mesma, o famoso conselho ou dito [recuperado para o jargão “científico”, por Wilfred Bion] dos “pensamentos á procura de um pensador”. Isso é velho como o mundo. Antecede Platão, os pitagóricos e os “eurekas matemáticos” de todos os que flagraram “aspectos das proporções da Natureza dada, em seus muitos âmbitos”. Natureza aqui em sentido amplo, que nos inscreve e na qual estamos inseridos, malgrado nossa indisposição, sonhos de autonomia e/ou orgulho luciferino. Essa ideia de que “pairamos sobre qualquer aquilo para domesticá-lo”, seja este aquilo a Natureza ou outro homem, é nosso ranço luciferino, diabólico, de escravocratas ou tiranos utilitaristas dos “vivos-vistos-enquanto-bens”. A partir de um patamar de discriminação suficiente [“discriminação suficiente para”], o ego onírico pode imaginar, ou “ver com os olhos imaginais”. E o que ele vê é uma teia, é uma trama: a interdependência e codependência multi-engendrativa que todo Budista ou Tantrista vê. Na verdade, a trama que vê todo homem de imaginação. Mas “o que vê” o ego onírico? Sigamos com o texto: “Toque os ouvidos/com olhos de ver e saberá que nada/disso parece: é de fato. Você precisa/discriminar a voz, as intenções, com/o maior cuidado. Veja lá (ainda que/ver não seja o verbo adequado...),/que é delicada a operação, tanto/ou mais do que cogitar a teia da/instalação elétrica do teu prédio/intacto. Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera.” Aqui está a resposta, ainda que “hierática”. Vamos destrinchá-la? “Toque os ouvidos com olhos de ver e saberá que nada disso parece: é, de fato.” Eis a discriminação primeira, dada não pelos sentidos disponíveis [o “ver” não estava disponível], mas pela confluência dos sentidos disponíveis, pela aglutinação de tudo que pôde [e ainda pode] colher, mesmo subliminarmente. A aglutinação dos sentidos disponíveis disponibiliza um “entre-sentidos” que é o espaço subliminar, que também é um “lócus válido”, tão válido quanto qualquer outro. Ninguém lhe negará a localização pelo menos “na teia do provável”. Vamos à locução que explana o processo íntimo do ego onírico: “Veja lá (ainda que/ver não seja o verbo adequado...),/que é delicada a operação, tanto/ou mais do que cogitar a teia da/instalação elétrica do teu prédio/intacto. Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera.” Veja lá [e ver é mais-do-que-ver com os olhos apenas] que a operação é mais delicada ou complexa do que se informar sobre a rede elétrica do prédio que, no sonho, se mostra intacta.” A operação é diferente de “somar informações sequenciadas”: é apreendê-las “em bloco”. Sabe o que Peirce [Charles Sanders Peirce] chamou de “abdução”, como operação complexa do “pensamento”? Pois bem: consultar o verbete pode ajudar. É uma boa pista para aquilo de que tratamos aqui. Mas o texto não é se semiótica. “Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera.” Perceba que à medida que discrimina a entonação da voz e tua sina [a do ego onírico] e sua sina [a da voz] e a de ambos [a sina de ambos entrelaçada], uma teia vai se insinuando...” Quando duas pessoas se falam, seus repertórios, seus idioletos pessoais estão em jogo: suas biografias, suas expectativas. Acima já foi “flagrado” pelo ego onírico que quem fala “não é bem intencionado”: sua intenção não é reta, não é clara, não é “nomeada”, porque ele até se ausenta de nomear-se. Mas será visto em sua não-nomeação. Também no encontro analítico, onde dois estão juntos [ou três, ou quatro, como vimos no meu artigo sobre o Temenos analítico, também disponível nesse acervo], cada qual tem seu repertório, sua trajetória de vida, sua “equação pessoal”. Essa expressão junguiana é muito boa, porque muito acertada, efetiva, eficaz clinicamente. No contexto do sonho, um só tem nome. No contexto da terapia, um tem uma história e o outro “só o nome”, mas a coisa pode ser tão nebulosa [ou “bem tramada”, “entretecida”] quanto. O sonho não se refere apenas à situação analítica, ainda que também possa ser aplicado a ela. O sonho abrange um contexto mais amplo. Quando dois estão juntos, e isso inclui o par analítico, suas assinaturas estão presentes, seus signos-em-rotação, suas possibilidades de captação conjugadas, suas visões pessoas, bem como suas doenças: sinas, signa, “sins” do inglês. A aproximação não é etimológica, apenas: é imaginal, mesmo que o leitor diga seu “não” aos “sins”. Sin também é o Pecado, se formos ao hebreu do Antigo Testamento, é Deusa Acadiana da Lua, com seus minguantes temíveis e temíveis minguantes. É Nanna, como pode ser Hécate. Sin, antes de Sina, remete a amplas implicações das “sinas conjugadas em teias”, que também conjugam pecados e doenças. A sina de pecar [ou a sina da culpa] é nossa sina comum. E dela não é Freud [ou Freudiano] que nos livre. Nem Reich, nem Marcuse. Prossigamos com o texto, porque ele nos revela algo interessante na sequência: “Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera.” Bom, o texto acerta a mosca de uma maneira tal que só posso parafraseá-lo. A discriminação da entonação de voz, das sinas conjugadas [no sentido amplo que falei acima, ainda que “abduzido” na situação, e carente de maior “delineamento lógico-narrativo”, no sentido ainda Peirceano do termo], a soma disso tudo vai criando uma “teia imaginal”, uma teia de interconexões passível de ser visualizada, tocada pela visão imaginal, e não se sabe o “quantum” ou os “quanta” de cada um nessa urdidura [um pouco de cá, um outro tanto de lá, um pouco de cada polo da interlocução ou do par analítico], não se sabe o quanto pela voz, o quanto pelos sentidos de quem escuta e “imagina” [escuta + imagina = “mente”, no texto], uma teia ampla onde os fios se misturam e não se pode dizer “quanto urdida por quem”. Eis uma situação alquímica de “começo de discriminação da massa confusa”. Soa paradoxal? Seria muito pior se não soasse, porque mais inexato.É assim que se dá, quando nos deparamos com o sem nome ou com o “só-nome”, o tal “sujeito suposto saber” de Lacan ou alguém que escolhe não se declarar em sua “signa”, em sua completa sina, com todas as implicações que vimos ali. Se nos é retirado o suporte da sina do outro [e quanto dela podemos abarcar, se nem a nossa desvelamos e, quando o fazemos um tanto é com muito custo?], as projeções aumentam: as suposições, os mecanismos transferenciais já descritos, com seu repertório de atuações, defesas, etc. Mas, aqui, no texto, não há setting fixo. Não há o enquadre seguro. O sujeito conhece e não conhece seu apartamento, claro, e isso [ou essa] é a analogia possível ao enquadre clínico ou ao setting analítico. Mas a coisa aqui transcende. Todos nós já recebemos um telefonema, um trote, um e-mail, um recado de um desconhecido. Um desconhecido que não procuramos: ele nos procura. Aqui, estamos fora do âmbito analítico: estamos no âmbito de quem nos vaticina algo no meio da rua. Estamos no âmbito dos vaticinadores das estradas, das esquinas, de quem nos adverte [ou nos repreende] sem que nada digamos. Às vezes, achamos pessoas assim nas ruas. Certa feita, de longe, de muito longe-perto, uma desconhecida me mirou longamente por cima de um livro que lia do outro lado da rua. Se eu chegasse perto, ela [provavelmente] me diria algo. Pois bem: no sonho, alguém se deu o trabalho de ligar. Ou se deu ao trabalho. O texto continua: “uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera.” A teia vai se insinuando não se sabe o quantum [ou quanta] oferecido por cada parte em sua urdidura, mas cujo produto se mostra pronto, acabado e ingrato, decorrente das discriminações em-teia-e-em-rede [em-rede-e-em-teia] que o ego onírico estivera fazendo até ali, e que ainda fazia, embora sem querer [sem intenção voluntária e/ou sem ter escolhido o contexto da escuridão e todas as implicações dela decorrentes]. Oh, sim: há camadas e camadas de leitura: nunca quiséramos o escuro. Não procuramos pela Sombra: ela nos procura. Não quisemos pecar: isso nos ocorreu inadvertidamente. Ou divertidamente. Mas não houve má intenção. Aqui há um mal intencionado: quem liga. E, veja, com toda a licença poética do texto, vemos que o “fruto” [termo que remete á oportunidade para pecar] “pronto e o produto acabado e ingrato que tivera de fazer ali, e que ainda estava fazendo, se bem que não quisera” se nos mostra como algo em processo, embora se apresente, no momento, como algo “pronto”. As primeiras impressões e os grandes insights no chegam assim: “em bloco”, ou em “grandes painéis”. Reitero aqui, mais uma vez, a oportunidade para pesquisar o termo “abdução” em Peirce. Sejamos ou não pintores ou artistas, muitas coisas nos chegam em bloco ou em painéis amplos, carentes de maior “deslindamento”, distinção, especificação, nomeação. O nome é importantíssimo: é um dom [e um direito!] dado a Adão, antes mesmo dele pecar! Chegamos a uma situação interessante do texto, o ponto de não-retorno [a não ser que tenhamos dormido até aqui...]: o texto nos exige [ou “pede por”] mais texto. Tanto isso é verdade que, se eu for fiel à distribuição espacial do texto em estrofes, ele é assim: “Quem fala do outro lado da linha telefônica,/na linha telefônica, na borda do mundo,/parece querer provocá-lo. Parece ser/mal-intencionado. Toque os ouvidos/com olhos de ver e saberá que nada/disso parece: é, de fato. Você precisa/discriminar a voz, as intenções, com/o maior cuidado. Veja lá (ainda que/ver não seja o verbo adequado...),/que é delicada a operação, tanto/ou mais do que cogitar a teia da/instalação elétrica do teu prédio/intacto. Perceba que, à medida/que discrimina a entonação da/voz e tua e sua sina (a de ambos),/uma teia vai se insinuando e se/formando à tua frente (não/se sabe se urdida pela ardida/voz ou por tua mente...), cujos/fios e trama e trançado são o/fruto pronto e o produto/acabado ingrato de todas/as discriminações-em-rede/-e-em-teia que tivera de/fazer até aqui, e que ainda/estava fazendo, se bem/que não quisera. Perceba [...].” O texto atenta para percepções adicionais que se fazem necessárias.Há um tempo em qualquer diálogo ou encontro onde isso também se dá. No tempo analítico, a análise só se desdobra havendo esse “élan do percebimento conjugado” [livre associação de um lado, escuta flutuante de outro, ruptura de campo semântico na interpretação como “fato selecionado eficaz”, interpretativo-operativo , promovendo novas associações e respostas do analisando a partir das intervenções descritas, e por aí vai, em espirais progressivas...]. Prossigamos, então, com o texto: “[...]Perceba/que é uma rede bem moldada, bem formada,/ bem simétrica, uma teia em complexa construção/geométrica. No centro dela há uma voz cantando/um cantochão insano (muito abaixo, muito adentro/do chão), uma voz no breu no abismo e escuridão./A voz de um demônio num túmulo. Não perca a/teia de vista (mesmo sem usar a vista), porque/ele é o centro. Não perca as pistas. Veja o estilo/como ele dialoga. Ele inventou um diálogo sinistro,/que mais soa como um monólogo-sem-fundo-de/-tão-ríspido, de onde surgem todas as teias, e as/suas características perversas misturadas. De/ambos. É dele a idéia de fazer misturas espúrias.”/ A teia que se nos mostra, em qualquer encontro [e também no analítico, mas não só] é sempre maior do que nossos cálculos. A tal complexa construção geométrica nos traz os tais eurekas dos antigos platônicos, pitagóricos, dos que sabem o quanto de “poiesis enquanto descoberta conjugada” há no encontro de matemáticos, artistas: desvelamos fractais inúmeros. Mas aqui é dito que “no centro da teia há uma voz cantando um cantochão insano”. Por que “no centro da teia”? Talvez a nossa escuta, ou a escuta do ego onírico [ou oniroide] coloque alguém no centro da teia. Mas isso não faz tanto sentido assim. Pode parecer óbvio, mas esta obviedade é um tanto ingênua. O afunilamento da atenção, naturalmente, coloca cada situação ou pessoa no centro da teia. Este é um ponto. Mas quanto aos papéis correlativos? E quando colocamos alguém no centro da teia em nossa escuta, o que estamos fazendo? O que estamos fazendo quando colocamos, por exemplo, um analista no “centro dessa teia de escuta” [ou “auscultação”] quando, supostamente, “ele nos escuta”? O que dele ecoa ou reverbera, como “ato interpretativo-eficaz” [assim se espera], ou não eficaz, tem implicações grandes na nossa escuta de nós mesmos e na escuta que fazemos dele, não é verdade? Aqui há um aviso, que mais parece um vaticínio de mau agouro, ou um malogro, em dependendo do contexto: “Perceba/que é uma rede bem moldada, bem formada,/bem simétrica, uma teia em complexa construção/geométrica. No centro dela há uma voz cantando/um cantochão insano (muito abaixo, muito adentro/do chão), uma voz no breu no abismo e escuridão./A voz de um demônio num túmulo. Não perca a/teia de vista (mesmo sem usar a vista), porque/ele é o centro. Não perca as pistas. Veja o estilo/como ele dialoga.” A teia será bem moldada, bem formada, etc e tal, porque o Número [no sentido pitagórico do termo] ou a Forma-Ideia [no sentido platônico do termo] estão aí, malgrado a boa vontade ou desagrado do observador. Um “quê” de inusitada simetria [o que inclui todas as assimetrias inusitadas] pode ser percebido em situações inúmeras, sem que grandes sincronicidades estejam em jogo. Você, meu querido leitor, está interessadíssimo em certo tema que despertou tua atenção ontem, antes de se deitar, e ao abrir o jornal, encontra uma reportagem de página inteira sobre o tema, e vem a saber que haverá um documentário sobre o mesmo. Você pode ser um sujeito “antenado”, e o tema pode estar “na ordem do dia”; mas também se pode tratar de um tema “d’antanho”, e um belo sorriso lhe aflora ao ver tal oportunidade de “se debruçar mais sobre aquilo que, poucas horas antes, lhe ocorrera”. Soa muito inusitado e pouco provável tal justaposição ser meramente “casual”. Se você for bem cético, dirá tratar-se de um “feliz acaso”. É uma expressão e tanto, que todos usaram ao menos uma vez na vida. É menos que uma Epifania, mas é agradável. Em termos grandiloquentes e pietistas, alguns podem achar que “seus tempos individuais se mostram, enfim, e nesse átimo, sintonizados com o tempo de Deus”. De repente, e subitamente, você é catapultado de Cronos a Kairós, e isso é o máximo! Há um instante quase-epifânico onde tudo parece se encaixar, e você, por ora, consegue deixar de lado todas as ranhuras, as rugas e rusgas do vir-a-ser, bem como os desencaixes aparentes deste mundo cujas engrenagens parecem ter sido feitas para ranger –e tal é o Samsara budista, enquanto ainda estamos nele. Ainda que tudo se encaixe [num nível macro, acima do meu, do teu, do nosso campo de visão], antes da Liberação ou Iluminação “tudo é dor”. Mas a dor está temporariamente suspensa por este instante “quase-epifânico” onde Cronos deu espaço a Kairós. Não há ironia alguma em minha fala: respeito enormemente esses momentos e até já tive alguns. Só não os chamo aqui de epifanias porque prefiro reservar o termo a coisas mais grandiosas, como a Anunciação do Anjo Gabriel a Maria. Porque se eu chamar a tudo de “Epifania”, quando tiver de narrar uma, de fato e de direito, terei de cunhar o antipático [e desnecessário] termo hifenizado “mais-que-Epifania” para designá-lo, enquanto a pura [e enorme] Epifania já seria suficiente. Percebe, amigo? Pois percebamos juntos e mais... No tocante à construção da teia, em sua pura geometria, podemos nos ver mais ou menos como nos exemplos supracitados, como alguém que escuta um discurso homilético: “isso foi dito para mim!” E foi! Também foi! Mas o texto fala de uma voz cantando, e no centro da teia. Por que alguém cantaria? E porque no centro da teia? Esse alguém pode estar muito confortável no centro, ter se colocado lá, ou imaginar que mereça estar no centro. As possibilidades são muitas e vimos que, na construção da teia, ambos coparticipam, sem que se saiba exatamente “quem deu o que para quem quando”. Ou, em termos mais específicos, “quem participou com qual ou tal fio para a feitura deste tear”. Parece que parte do desafio é justamente este! Mas não podemos nos precipitar, temos de acompanhar o texto: “Perceba/que é uma rede bem moldada, bem formada,/bem simétrica, uma teia em complexa construção/geométrica. No centro dela há uma voz cantando/um cantochão insano (muito abaixo, muito adentro/do chão), uma voz no breu no abismo e escuridão./A voz de um demônio num túmulo. Não perca a/teia de vista (mesmo sem usar a vista), porque/ele é o centro. Não perca as pistas. Veja o estilo/como ele dialoga.” Quanto à simetria da teia, não vemos grande problema na dita cuja, mas quanto a este que canta? Por que canta? O que canta? Quem canta parece estar à vontade, de alguma maneira. Até as carpideiras estão à vontade. Há cantos que desembocam em choro, em grande aluvião d’água, mas não é o caso. Este que canta, canta um cantochão insano. Seu canto é litúrgico! Ele parece estar muito ciente de seu papel, ainda que o narrador lhe atribua alguma insanidade. Ou ao cantochão. Ou a ambos. Senão, vejamos: muitas vezes, colocamos alguém no centro da teia, pela razão primeira acima aludida, do afunilamento da atenção que, por si mesmo [ou em si mesmo] coloca o objeto focado no centro da teia, mas o deixamos ali, permanecendo no centro. Permanecido. E ele canta. Essa nossa delegação de centralidade àquele que canta o cantochão, antes de soar insano ou após, nos remete a muitos exemplos históricos. Podemos pensar no histrionismo de Hitler: quanto tempo demorou para cada um para adjetivar seu “cantochão” de “cantochão insano”? ninguém pode negar que seu ato era “litúrgico”, ou pretendia sê-lo. Ninguém em são consciência, ainda que retrospectivamente, pode negar isso, a não ser que esteja [ou permaneça, tal qual o permanecido] no centro da teia do cantochão. Percebe? Esse é o núcleo do fascínio. Muito menos do que o “fascinosum” e “tremedum” de Rudolf Otto, mas em seu lugar, porque assim o deixamos que permaneça, após o afunilamento da atenção necessário para discriminá-lo, o que significa dizer “para aferi-lo”, “para descrevê-lo”. Esses atos discricionários que precisamos fazer incluem [mas não se resumem a] diferenciar o que atribuímos ao sujeito daquilo que ele traz como atributo intrínseco [coisa difícil a quem sequer concebe “atributo” ou qualquer “dentro” ou “intrínseco” onde ele possa caber], bem como daquilo que ele se atribui como sendo, estando ou permanecendo. Volto ao termo ou expressão que usei acima: o sujeito que canta no centro do círculo permanece no centro e ali jaz [ou jazz, porque canta e não está morto] permanecido. Tirar o sujeito de um “falso-lugar”, bem como deixar-lhe de atribuir coisas que “lhe emprestamos por meio de nosso olhar” [talvez até no ato mesmo do “afunilamento da atenção: que cria o centro, centrando nele o objeto] em linguagem analítica [perfeitamente inteligível para não- analistas] é um ato complexo, conhecido como “retirada das projeções”. Algo que ocorre após a fase do romance, nas relações interpessoais onde “Eros” dita a clave e partitura do canto. O canto aqui, no caso, não é erótico. E é mais solene. Podemos pensar na retirada das projeções [uma soma delas] como “ato súbito”, como no caso de uma grande decepção ou morte, como na descoberta da traição de François Hollande por sua ex-mulher: o chão lhe fugiu dos pés. É como se sentir caindo de uma montanha russa, disse ela. E é por aí. Quando a projeção é massiva, a súbita e massiva retirada dela [na verdade, uma soma de atributos emprestados ao objeto de nossa “atenção afunilada”] pode causar tal vertigem. Uma vertigem existencial. Isso pode explicar a relutância de muitos em retirarem do baixinho histriônico seu lugar ilegítimo de “Hierofante do Povo Alemão”. Em escala menos criminosa, podemos fazer isso com analistas, Pais Fundadores de Escolas Analíticas [sic, argh..] ou quejandos, sem nos darmos conta de que os colocamos no centro e os deixamos ali, “permanecidos”, a despeito de todos os fatos e correr do tempo-espaço informacional que nos ajudariam a não deixá-lo “permanecido ali, como no afunilamento de atenção que criou o centro, de onde ele pode “cantar”, entoar litanias ou de onde pode até dirigir cultos”. Este nosso personagem está apenas ao telefone, anônimo, e não imaginamos que ele possa causar grande estrago. Acompanhemo-lo, pois: “Perceba/que é uma rede bem moldada, bem formada,/bem simétrica, uma teia em complexa construção/geométrica. No centro dela há uma voz cantando/um cantochão insano (muito abaixo, muito adentro/do chão), uma voz no breu no abismo e escuridão./A voz de um demônio num túmulo. Não perca a/teia de vista (mesmo sem usar a vista), porque/ele é o centro. Não perca as pistas. Veja o estilo/como ele dialoga.” Não perca de vista teia, adverte o texto. Algum afunilamento parece, ainda, imprescindível, talvez até por ser residual. É necessário que de discrimine a voz de quem fala, e há pistas para isso. O texto conclama “a não perder as pistas”, o que significa que há pistas, ainda que haja o escuro. Há o que ele canta, como canta e o estilo com que fala. Há um modo de falar. “O estilo é o homem”, diria Conde de Buffon, do alto de seu título nobiliárquico. Não aludimos aqui a tais pretensões de “inflar a persona, pretendendo mostrar, de pronto, quem ali se apresenta”. Sou plebe. Nada de nobiliarquias. Jeans e camiseta. Como aqui estamos no escuro, não falamos de “trajes”, nem de reuniões sociais, mas de uma conversa telefônica onde alguém fala. E o “como fala” é uma pista de quem é o falante. Ainda seguindo o texto: “Ele inventou um diálogo sinistro,/que mais soa como um monólogo-sem-fundo-de/-tão-ríspido, de onde surgem todas as teias, e as/suas características perversas misturadas. De/ambos. É dele a idéia de fazer misturas espúrias.” Aqui, nós temos pistas mais do que relevantes: ele é o autor do diálogo, ele “deu o tom”. O diálogo é sinistro, não é reto nem direto. O diálogo sinistro provém de quem fala de um canto menos iluminado, e “O Canhoto” é um dos epítetos populares do Diabo, quando não for de algum bom meia esquerda ou violeiro que toque as cordas com a mão esquerda. Se não é destro [ou “adestrado”, de “bons modos”, é “sinistro”]. Mas aqui é mais explicitada essa qualidade ou “timbre” da voz: soa como um monólogo sem fundo [e sem fim], de tão ríspido que é, de onde surgiram as teias, todas as teias, e as características perversas misturadas de ambos [do falante e do ouvinte]. E mais: é dele a ideia de fazer as tais misturas espúrias. Sempre é dito do narrador em um conto ou romance, que é o narrador “onisciente”, porque ele vai explicitando todas as coisas, cada passo, com aparente “consciência perfeita do conjunto”. Coitado do narrador. Entendo o interesse linguístico despertado pelos muitos estilos narrativos, mas nosso pequeno personagem no escuro aqui se depara com alguém mais onisciente que o narrador. Quais as teias envolvidas até aqui? Não há um número exato, mas posso dizer que há “o apagar das luzes”, a pergunta sobre redes elétricas, o toque do telefone, a revaloração dos sons costumeiros nesse contexto “sinistro”, há o atender do telefone, o tom da conversa, o cantochão ao fundo. E é dito, aqui, que “quem fala do outro lado é que engendrou tudo isso: dele partem [e dele se originam] todas as teias, que é dele a ideia do diálogo”. Pois bem: há de se supor que ele apagou as luzes também, ou se aproveitou do fato delas terem se apagado, com “plena consciência do fato”. Ele não só “sabe mais do que o narrador” [a tal “onisciência”], como supostamente “pode mais do que o narrador” [uma suposta “onipotência”]. Não é um bom começo. E não há meios tons nessa maldade: falamos de “mal” de verdade. O tal sujeito falante comporta-se de fato muito mal. É dele a ideia das teias misturarem as perversidades de ambos. Mas é dito, com todas as letras, que “é dele a ideia de fazer misturas espúrias”. Voltamos ao âmbito alquímico. Vamos nos deter um pouco aqui. Imagine o leitor uma cena banal: um homem flerta com a atendente de um café. Ela é educada, aquilo não passou de olhares se cruzando. O café fecha. A moça some. O homem em questão passa a procurá-la em todos os comércios afins na região e alhures. Não a encontra, embora ela tenha ficado “presa” na sua teia imaginal como uma potencial parceira. Nada foi feito ou dito por ela para que o homem assim a colocasse neste “centro focal”. Mas sabemos que essas obsessões acontecem. Sabemos de outros homens que colocam suas parceiras ou ex-companheiras no centro de suas teias, canibalizando-as. Isso é uma mistura espúria, sem diferenciação. E, nestes exemplos, fica fácil a visualização do leitor porque Eros é um deus que voa baixo, malgrado as tantas Odes feitas a ele. Louva-se tanto Eros porque ele é de fácil alcance. Mas muitas misturas espúrias são feitas em seu nome. Os noticiários ditos sensacionalistas não fabricam fatos, apresentam fatos, ainda que carreguem nas tintas. São fatos. Tais misturas espúrias ocorrem. Em outra clave, menos rasante, mas nem tão “volátil” assim, vamos às muitas idealizações: dos “portadores do mana” da vez. Mana é um termo tribal para “poder” e “prestígio”. Há quem confira prestígio a quem apareça sob luzes de holofotes televisivos ou outros. Há quem confira prestígio a quem suba num palco, ao cantor de rock. Se há filas de meninas gritando para entrarem no hotel de Axel Rose para ter uma noite “íntima” com ele, estamos falando de uma alta porcentagem de “delegação de mana [poder, prestígio] ao rapaz”, que pode ou não corresponder às expectativas das moças. Este prestígio, para não voltarmos a aterrissar no âmbito de Eros, pode ser de “autoridade moral”, de “autoridade intelectual”, pode apresentar uma valência mais simbólica “sem se imiscuir tão obviamente no corpo”. É um tal fascínio que não arrasta ninguém à cópula. Podemos emprestar tal autoridade a alguém e, numa sociedade que se imagina ateia [mais frequentemente antiteísta do que ateia], tal projeção pode carregar muito do “numen” [do halo sagrado] que se atribuiria a Deus ou Seus Representantes, e não a humanos. Em meu ensaio O Olho Que Nos Olha Nos Olhos eu “baixo o sarrafo” nesse processo de “deificação barata” feita a líderes totêmicos, seja no caso de Pais Fundadores de Escolas Analíticas seja a líderes políticos. Tal expectativa “quase-messiânica” é, sempre, espúria. Repito: sempre. Não há deuses ou semi-deuses pontificando falas de redenção por aí. Há cultos, institucionalização dos cultos paralelamente à institucionalização dos saberes, há uma manutenção do “status quo” das instituições [que é inerente a elas, é um processo intrínseco à sua preservação e expansão, um processo político, inclusive], obtido com algum “lustro nas personas [personae, em grego] e fatos institucionais a elas envolvidos” [o que também implica numa “mitificação das biografias dos Pais Fundadores e Associados/Descendentes”], tal como se dá nas Igrejas. Ainda que aqui falemos de “cultos laicos”. E não há contradição alguma nesses termos. Vide Hitler citado acima. Quem duvida que ali se tratava [e se tratou!] de um “culto religioso ao Führer”, por mais patético, trágico e insano que isso nos possa parecer hoje? Acima, eu fiz a pergunta de “quanto tempo teria demorado para os participantes do culto terem a exata noção de que participavam de um culto e mais: de um culto espúrio”? Refaço a pergunta nesses novos termos, e aqui apresento exemplos bastante elucidativos do que sejam “misturas espúrias”. As correspondências “incompletas” publicadas entre Pais Fundadores e seus pupilos ou pares sempre foram editadas, não para “proteger gerações de familiares e pacientes” [sic], mas para preservarem a própria “hagiografia incentivada por tais edições”, e por elas promovida, articulada, “tramada”, por aqueles que herdaram o direito de fazê-lo. Sempre. Assim, não é só nosso personagem do outro lado da linha telefônica que sabe “urdir tramas”, ou tramoias. Não. Há muita gente capacitada para tal, em muitos âmbitos da vida. Vamos ao centro desta teia, urdida por tal personagem. O tal personagem, em suas teias, mistura as perversidades de ambos: dele e de quem atende. O leitor poderá dizer aqui: “aham...” ou “ah..., então ambos são perversos!”. Sim. Ambos são perversos, mas a mistura, ainda assim. Continua espúria. Porque quem fala do outro lado não quer a distinções entre o que lhe pertence e o que pertence ao outro, ao seu interlocutor interpelado no escuro. Não lhe interessam as distinções. É dele a ideia e a intenção de fazer as tais misturas. Ele não as faz “inadvertidamente”, não. Ele as faz divertidamente. Ele é mau. Não há como lhe subestimar a maldade: ele preparou toda a teia, a arapuca, a armadilha. Ele sabe o que faz e escolhe fazer o mau. Perversão: verter sobre si mesmo. O perverso quer saber de si. O outro é seu objeto, a imagem posta [muitas vezes e frequentemente à revelia] no centro de sua teia. Vamos à moça do café, em nosso exemplo. Imaginemos que o sujeito, que delira com ela, encontre-a um dia, na rua. Ele lhe aborda e fala que andou, desesperado à sua procura. Ela lhe diz, candidamente, que não se lembra dele. Ele se irrita, pega-a pelo braço e diz que ela: “Como assim? Você me seduziu, me deixou encantado, correspondeu aos meus olhares, melhor dizendo: você começou a olhar pra mim! Eu correspondi ao seu desejo, e agora me desdenha?!” O leitor pode visualizar essa discussão sem nenhum sentido. Nosso personagem, perverso, fez sua mistura espúria. Tudo o que aconteceu foi “vertido para si mesmo”: ele foi o alvo do desejo da moça e ela agora “se faz de sonsa!” Eis seu raciocínio. O “curioso” no caso é que para tais sujeitos, ele é o centro do foco intencional do outro, mas o outro [ou o ato em si] está “no centro da teia”. A moça está no centro da teia dele: lá atrás, como uma exímia e articulada sedutora; agora, na posição de quem “finge não reconhecê-lo!”. Os perversos usam os outros como “objeto” para se saciarem, e tomam muito do que ocorre como destinado a si mesmos. No texto em questão, é dito que o sujeito que fala ao telefone “mistura as perversidades de ambos”. O narrador “suposto onisciente” não exime nenhum dos lados de seu “quantum” de perversão ou perversidade, mas há algo fundamental aqui: misturar ambas não é correto, é espúrio. Prossigamos com o texto: “Perceba as sutilezas da voz mal-dita e mal-pronunciada./Ele declama com monotonia estudada na língua de hoje/e de ontem, em copta clássico, e seu sotaque é mais/difícil de distinguir do que um rastro de giz preto no/meio da noite. Entre irado e cínico, observe como ele/começa a rir, entrecortando o canto com seus espasmos/de gozo e asco misturados. Assim se diverte um demônio/num centro de breu infinitesimal, louco, ávido, enclausurado.” Temos o suficiente para o momento. O sujeito do outro lado da linha [ou na borda do mundo, na terra de ninguém], além de cantar [o que sugere que está confortável em seu papel litúrgico, como já vimos], também declama com monotonia estudada, mistura línguas deliberadamente [uma maneira do texto de reenfatizar as tais misturas espúrias], línguas vivas com línguas mortas [e aqui temos de distinguir quanto da erudição pode se prestar a um “pavonismo estéril” ou a uma contribuição de fato à sociedade ou ao grupo de estudiosos de algum tema, já que o texto “brinca” com a menção do copta como língua proclamada e profanada], ele não se deixa seguir em seu sotaque [podemos também dizer daquelas pessoas que não se deixam seguir em seus raciocínios] e muito mais. Por enquanto, paremos por aqui. Quero voltar um pouco ao exemplo do homem que se encantou pela atendente do café. Num eventual encontro entre ambos, estivesse ele menos “perversamente fascinado” por ela, diria: “puxa, que bom te ver! Você não se lembra de mim? E poderia rir de si mesmo, dizendo: é, eu fiquei encantado por você e fantasiei algum possível relacionamento futuro. Foi bom vê-la! Desculpe se a assustei com minha abordagem!” Aqui, temos alguém que atribuiu a alguém um troca de olhares que corresponderiam a afetos e investimentos no por-vir, mas que aceita a alteridade, que aceita o outro em sua fala autônoma: não quer emprestar ao outro a fala e o desejo que são seus. Este sujeito sabe ouvir “não, não foi bem isso” ou “não, não foi nada disso” e seguir, sem manter fixado em sua teia o “objeto de seu raciocínio voltado a si mesmo”. Quando falo raciocínio, entendam-se: desejo-raciocínio, já que não há raciocínio deslocado do desejo. De qualquer maneira, poder refazer o raciocínio, desfazendo o desejo unilateral, ou reconfigurando-o, tirando, assim, o objeto-alvo do centro de sua teia imaginal é uma possibilidade “não-perversa”, além-perversão. Não há ruminações internas. O sujeito administra os sins e nãos da vida. Não “caça sua presa”. Deixar ir quem quer ir, deixar estar ali quem ali quer estar. Essa é a possibilidade de respeito à alteridade. É dito sobre nosso personagem ao telefone que ele “mistura as coisas” e mais: que ele o faz “deliberadamente”. Não há a abertura para a situação recém-descrita do tal “futuro romance suposto por um”, onde o homem diz: “Puxa! Entendi tudo errado! Fantasiei sozinho!” Não há isso. Não pode haver isso para o perverso. Hora de voltarmos ao texto: “Perceba as sutilezas da voz mal-dita e mal-pronunciada./ Ele declama com monotonia estudada na língua de hoje/e de ontem, em copta clássico, e seu sotaque é mais/difícil de distinguir do que um rastro de giz preto no/meio da noite. Entre irado e cínico, observe como ele/começa a rir, entrecortando o canto com seus espasmos/de gozo e asco misturados. Assim se diverte um demônio/num centro de breu infinitesimal, louco, ávido, enclausurado.” Se acima eu frisei que ele declama, não se deixa seguir em seu raciocínio [e isso me exigiu a pausa para raciocinar uma nova cena entre o homem “apaixonado” – na verdade, “siderado”, “imantado” – e a moça do café], o texto elenca outros atos do sujeito falante: entre irado e cínico, observe como ele começa a rir, entrecortando o canto [ainda há o cantochão de fundo, o sujeito não abdica de seu “ar litúrgico”!] com seus espasmos de gozo e asco misturados. Temos aqui um sujeitinho bastante desagradável. O narrador “percuciente” [mas jamais onisciente] assim aremata essa camada de situação, falando talvez um pouco à frente [mas eu diria que “concomitantemente a”] o que o personagem está a discriminar por si mesmo: “Assim se diverte um demônio/num centro de breu infinitesimal, louco, ávido, enclausurado.” Há algo muito importante aqui: quem prende, está preso. O demônio aqui citado está ele mesmo no centro do breu que supostamente causou ao outro, ele é objeto primeiro de um blecaute ou colapso de iluminação cognitivo-emocional, por mais “esperto” ou “astuto” que pareça. E ele é. Mas é louco, ávido e enclausurado. A avidez é uma das rubricas de sua loucura, e ele está enclausurado ali, da mesma maneira que o homem de meu exemplo ficou “refém da imagem que capturou”. Ele capturou a moça no centro da teia e ficou refém da teia e de seu objeto-focal. Afunilou muito e não soube desafunilar, não soube voltar a uma compreensão mais fresca e relaxada. Não soube atualizar seu ver, ali, congelado. Não se engane: o demônio que nos fala nesse conto, não pode sair do inferno em que se meteu, por sua própria perversidade. E ele quer misturar o que lhe é próprio com aquilo que supostamente pertenceria ao personagem, tal qual o homem “fissurado” o faz em nosso primeiro exemplo cênico, sem espaço de escape para o “tropos perverso”. Mas avencemos em duas estrofes, para aferirmos melhor a situação toda: “Mas o que ele diz não é pouco, nem para ser dês/-considerado. Ele ri alto e longe e te pergunta se/você acha que não são tuas as tais características/agora por ele nomeadas em trinta línguas mortas./Ele te pergunta (rindo e alto e longe), se o que ele diz/não responde às tuas perguntas tão simples, tão/cândidas, e às tuas equações matemáticas./Pergunta, e quase goza, se tudo não te faz/ sentido agora. Perguntas tão simples, tão/cândidas. Incandescentes./Um fio de metal rubro em tua alma se acende./E ele, por seu lado, do outro lado, bem assentado/no avesso de tudo, tenta traçar teu negro retrato.” Pois bem, não se pode simplesmente jogar fora tudo o que o demônio diz. Ele tem coisas aproveitáveis a serem ponderadas e ouvidas, nessa massa confusa que é seu discurso! Massa confusa é um dos termos alquímicos para essas misturas todas. “Mas o que ele diz não é pouco, nem para ser desconsiderado”, diz o texto. O demônio, também [mas não só] diz coisas que se aproveitam! O que ele diz não é pouco! Ele tem seus traços estilísticos enormemente perversos, e já vimos alguns deles, mas ele também pode perceber os erros e perversidades de outros. Temos de discriminar com cuidado o aproveitável de todo o conjunto. Discriminatio é um termo alquímico, assim como separatio. Aqui, no caso, como não há trigo, temos de separar o joio do joio: o joio dele, do joio que pertence ao personagem. São joios distintos. Discriminar também envolve isso, além da separação do joio e do trigo. O sujeito ao fundo do breu agora faz perguntas ao ouvinte, e as faz rindo, do seu jeito debochado: quer saber se tudo aquilo que pergunta não faz sentido ao interlocutor [e podemos supor que são acusações, já que o demônio é “o acusador por excelência”], se todas aquelas nomeação por ele “impetradas” não fazem sentido ao interlocutor-no-escuro: se elas não respondem a todas as perguntas que ele fizera até aqui! Isso é muitíssimo interessante, porque sabemos algumas das perguntas que o tal personagem se fez e fez a terceiros. A primeira delas foi “por que a luz acabou”; “teria sido a queima de um fusível do painel de comando do prédio”, “teria sido algo mais coletivo [=prédio, vizinhos] ou individual”? Esse é o tipo de pergunta feita por quem está no escuro. “Essa sombra é só minha”?! Sou eu o culpado por tudo o que está acontecendo aqui? Aqui já há uma coisa interessante: ainda que a pergunta reverta sobre o sujeito, se ele se questiona sobre “culpas” ou “responsabilidades”, ele sai da faixa perversa. Ele não ri, ele se questiona. O outro ri e goza e mistura línguas e o diabo a quatro. Ele não goza, ele se questiona, e vem questionando desde o início, ainda que possamos [ou venhamos a] tomar suas primeiras perguntas dirigidas a um terceiro: Ogden Nee, o porteiro da noite, o sentinela da noite. Pois bem, o vigia não tem respostas a uma de suas perguntas. O demônio alega ter e, rindo, pergunta ao interlocutor se ele “não está satisfeito com suas respostas!” Aqui, o personagem poderia cair no laço que já enlaçou o demônio, misturando seu joio [=do personagem] com o joio do Outro [no caso, do demônio]. Esse joio, o do outro, não é pessoal: é impessoal, é do coletivo ou é “suprapessoal”. Vamos acompanhar a narrativa, porque agora surge no (com)texto uma nova personagem, aquela que Jung tanto gostava de chamar de “anima” [a porção feminina interna, a personagem interna do feminino que liga o sujeito ao inconsciente e ás possibilidades que se pode haurir dele, inconsciente]. O demônio está muito seguro de si, tentando trazer o interlocutor para o seu lado da teia, para seu inferno, para seu joio e, se assim o fizesse, o personagem cairia no buraco sem fim e sem fundo daquele que tão mal e perversamente o inquire. Mas há uma recém-chegada, falando como que por sobre o ombro de tal personagem. Ela assume a narrativa, agora: “Olhe pra mim agora. Mesmo que não me veja./Sim. Eu sou jovem, terna, e minha pele é como/seda. Discreta e silenciosa. Observe que te/acompanhei até agora. Ao fim de tudo,/merecerei um beijo e, depois, te deixarei/mudo. No momento, é ele que te beija/com insultos. Perceba bem o exagero deste demônio, mais astuto do que um/réptil, a forma meiga com que quiseram/descrevê-lo na Bíblia. Tudo é sempre/muito mais complexo do que o dito no/Livro. Veja que o Cujo Maldito quer fazer/de ti o Seu Espelho! Nisso reside a armadilha/do Abismo. Veja que tua mandíbula já se/enrijece, como se você se congelasse e se/tornasse aquela Outra Face! E isso não/está explicado no Gênesis em todos esses/detalhes. Existe uma coisa a ser feita, uma única coisa, decisiva, nessa hora multívoca/e multidiversa, onde todos os sons e signos/parecem à deriva. Isso faz parte da Ilusão/que ele cria. Ele não é o Pai da Ilusão. Ele/também mora na Ilusão, e é ao mesmo/tempo seu Criado e seu Agente. Veja como/tudo é mais complexo do que jamais se/disse. Primeiro passo: não se impressionar/com o que ele nomeia, porque ele é o pai/das nomeações malfeitas e mal urdidas,/suas etimologias são mantos rasgados e/mal costurados, com pentagramas invertidos./Ele é subentendido naquilo que não nomeia./Daí o breu que o acompanha. Sim, eu te/revelo: o Breu é seu halo. Ficou claro?!” O trecho é um tanto longo e precisamos destrinchá-lo. Quem assume a narrativa a esta altura disse ter estado ali o tempo todo, acompanhando o nosso desventurado personagem. Ela é a clássica “anima” tal como descrita por Jung, e faz lá o seu charme como toda mulher: “Olhe pra mim agora. Mesmo que não me veja./Sim. Eu sou jovem, terna, e minha pele é como/seda. Discreta e silenciosa. Observe que te/acompanhei até agora. Ao fim de tudo,/merecerei um beijo e, depois, te deixarei/mudo.” Ela diz: “observe que te acompanhei até agora”; “olhe pra mim, mesmo que não me veja”. É bom inverter as declarações da personagem para melhor elucidá-las, inverter-lhes a ordem. Ela diz também: “ao fim de tudo, merecerei um beijo e, depois, te deixarei mudo”. Isso não é uma ameaça: ela, apenas, sabe que o que dirá ao personagem irá surpreendê-lo de tal modo que o forçará a uma reflexão detida, profunda, silenciosa. Que sua exposição levará nosso personagem à tal separatio a que aludi desde o início: à operação alquímica de separar o joio do joio, repito aqui. Se o demônio entoa seu cantochão, essa anima fala em forma de litania, como que para contrabalançar-lhe a voz. Ela também traz seu “halo litúrgico”: tem revelações a trazer que contrabalançam e compensam as aludidas “razões daquele”, O Canhoto. Vamos à primeira parte de seu discurso, depois que ela chamou a atenção para sua presença. Tomemos esse “chamar atenção para si” como uma “apresentação”. Ela se apresentou. Agora, passa o seu recado. Acompanhemo-la: “[...] Ao fim de tudo,/merecerei um beijo e, depois, te deixarei/mudo. No momento, é ele que te beija/com insultos. Perceba bem o exagero/deste demônio, mais astuto do que um/réptil, a forma meiga com que quiseram/descrevê-lo na Bíblia. Tudo é sempre/muito mais complexo do que o dito no/Livro. Veja que o Cujo Maldito quer fazer/de ti o Seu Espelho! Nisso reside a armadilha/do Abismo. Veja que tua mandíbula já se/ enrijece, como se você se congelasse e se/tornasse aquela Outra Face! E isso não/está explicado no Gênesis em todos esses/detalhes. Existe uma coisa a ser feita, uma/única coisa, decisiva, nessa hora multívoca/e multidiversa, onde todos os sons e signos/parecem à deriva. Isso faz parte da Ilusão/que ele cria. Ele não é o Pai da Ilusão. Ele/também mora na Ilusão, e é ao mesmo/tempo seu Criado e seu Agente. Veja como/tudo é mais complexo do que jamais se/disse. Primeiro passo: não se impressionar/com o que ele nomeia, porque ele é o pai/das nomeações malfeitas e mal urdidas,/suas etimologias são mantos rasgados e/mal costurados, com pentagramas invertidos./Ele é subentendido naquilo que não nomeia./Daí o breu que o acompanha. Sim, eu te/revelo: o Breu é seu halo. Ficou claro?!” Como vimos, a alusão de “mudez” do personagem ao término do seu discurso, da “anima”, não se deve à presunção desta enquanto figura feminina, mas á certeza de que seu discurso provocará nele demorada [e silenciosa] reflexão. Depois de anunciar a “mudez futura” do personagem, a qual ela já antevê, ela passa a descrever o que se passou até ali, segundo a sua ótica. Se ela quer um beijo de despedida, assevera que, até ali, foi “o falante que o beijou com insultos”: “No momento, é ele que te beija/com insultos. Perceba bem o exagero/deste demônio, mais astuto do que um/réptil, a forma meiga com que quiseram/descrevê-lo na Bíblia.” O beijo é algo íntimo, como a troca de fluidos. Até o momento, os insultos do demônio funcionaram como um beijo, “acoplando” o que é dele com o que é do personagem. Ela chama o ardil do demônio de “astúcia” e chega a dizer que “pegaram leve com a descrição que lhe fizeram na Bíblia: ele é pior do que parece!” De qualquer maneira, essa assertiva dela [e outras que virão] nos indica [e ao personagem] que ele não encontrará respostas prontas em livro algum, nem sequer no Livro, e que terá de encontrá-la “na operação que introduzirá no diálogo feito até ali”, ou seja: na situação mesma. Essa operação introduzida no diálogo [e ao diálogo] é a tal separatio alquímica aplicada a uma “culpa atribuída ao personagem”. Existem várias maneiras de por em destaque o que a personagem, a anima, diz: uma delas é colocar suas afirmações fora de ordem, como procedi acima. Ele diz sobre o demônio que “ele quer fazer do personagem seu espelho!” O demônio projeta sobre o personagem uma perversão que a ele pertence. Diz que ele veria a daquele petrificado [tal qual quando se olha para a Górgona!], e que isso não estava explicado na Bíblia. Está sim, dona anima, na passagem da mulher de Lot. Mas nenhum personagem do inconsciente é onisciente, nenhum mesmo, e é providencial que vejamos isso, para não imaginarmos que o que qualquer um de nós diga seja tomado por escritura. Ela diz que “ele é subentendido naquilo que não nomeia, e que o breu é seu halo”. Aqui, ela diz que a sombra do demônio é enorme, tão grande que ele não ousa nomeá-la como sua! E carrega-a como “halo seu”. Deixa claro que ele está preso na teia que alega serem “respostas urdidas por ele”: ele não tem respostas. Mora na ilusão, está preso, e o título de pai dela seria alçá-lo demais, e faz sentido no sentido de que ele quer companhia para a ilusão na qual ele mesmo caiu. “Suas etimologias são mantos rasgados e/mal costurados, com pentagramas invertidos./Ele é subentendido naquilo que não nomeia./Daí o breu que o acompanha. Sim, eu te/revelo: o Breu é seu halo. Ficou claro?!” Claríssimo. O texto prossegue, e nós o seguimos até o fim: Veja agora o demônio deitado no palácio/ -cubículo de sonhos quadriculados e/infinitos que construiu para si mesmo,/e para o qual convida os seus eleitos/-malditos. Veja o fio que a ele te liga/(daí a razão de toda essa teia entretecida/como janela para uma espera desaparecida),/o fio que é o fim de um fuso horário terminal./Observe o fio que a ele te liga, e um outro que/se escoa para uma espécie de frasco, como uma/canícula de soro, ou algo parecido. Eu vou te/explicar como se dá o diálogo e o monólogo/com o Diabo, o que não está escrito abertamente/no Livro Sagrado. O diálogo com um demônio/(e há vários, como os cubos descentrados no/infinito, do infinito ao nada...) é isso: jogo e/desafio que se dá num ponto morto, num/ponto cego, no centro do Breu, numa teia/entretecida entre ele, você e eu. Veja a/astúcia! Ele é um arquiteto de minúcias.”/ A anima se põe no meio do jogo. Define o demônio como minucioso, um arquiteto de minúcias. Mostra que há um “élan” ou “fio” ligando o personagem a ele, sua porção diabólica, mas que ele não deve, por isso, se confundir com o acusador. Levar o “élan” a seu ponto culminante [ou terminal] seria permanecer no escuro, ou pior: “como janela para uma espera desaparecida”. Seria como abrir uma janela para toda não-espera! E a anima sugere que o personagem, em vez de só ouvir, deverá ser parte ativa no tal diálogo que até então era monólogo para o acusador, tal a estuporização na qual se encontrava o ouvinte. A parte ativa no diálogo é fundamental para que o “personagem no escuro dele possa sair”, não petrificado, não confundido na face do outro, nem assimilado à sua ilusão. O texto prossegue: “Perceba uma coisa: se tiver voz pra falar,/que ele te ouça! Se puder nomear o que só/lhe pertença (a ele e não a você, sem vestígio/de grão ou presença...), sem que haja rastro/algum entre os dois (mesmo que não se veja/ou não se possa ver, na noite espessa e densa),/ele dorme emudece. Já disseram (e disseram/bem): "Não julgueis!", mas há o outro lado, e é/para isso que me posto ao teu lado direito e te/explico. Se você acerta na mosca o que nomeia,/no centro da testa da funesta besta, e diz a ela/a ele o que só a ele interessa (alguma coisa que ainda não te contamine em nada..., e eis a chave/-mestra...), seu sangue se esvai pela canícula, ele/se desvitaliza e dorme dorme ainda mais, no mais/Breu e no mais longe. Disso não te falou nenhum/sacerdote. Porque das verdades maiores só se/conhece o esmalte. Se você errar no teu/julgamento, seus sangues se misturam./A mosca fica presa na teia. E você é a/mosca pequena amalgamada à aranha/-mosca-que-teceu-a-teia. Acerte duas/vezes, e veja seu torpor. Não mais te/aborrece, desde que saiba julgar e/limpar-se cada dia melhor. Essa é aoutra face do que disse o Senhor,/da mesma Verdade. E faça de/modo a que não te suje o sangue.” Pois bem. Aqui há todo um roteiro de desidentificação, de separatio possível, mas exigente. Uma operação alquímica é sempre uma operação religiosa. A anima diz: que quem falou até agora, passe a ouvir! O personagem enxerga o “élan” que os une, mas na medida que consiga definir atributos que não são seus, mas do acusador, eles se separam: os sangues não se misturam e ele passa a dormir. Mas só na medida mesma que ele, personagem, não erre e que se limpe a cada dia de outros defeitos que vê. Toda operação alquímica é uma operação religiosa, com grandes implicações éticas. “Se você errar no julgamento, seus sangues se misturam”, adverte a anima. O “não julgueis” de Jesus seria uma face prudente da mesma lei, operada aqui em seu complemento [ou contraface] possível. Quem disse que se apartar do julgamento indiscriminado [seja do coletivo ou do suprapessoal, inclusive do interno transpessoal] é tarefa fácil? Jamais. Mas é uma tarefa necessária, e emudece o acusador. Faz com que ele fique em estupor e mudez. E é uma tarefa diária de aprimoramento ético.

Kadosh. O apartado, o santo, o são. Essa a lei da circuncisão. Meu nome?! Eva. E há muito já me redimi. Veja que as luzes já se acendem.




Marcelo Novaes